Porque os comentários de Juliano Cazarré são problemáticos

Juliano Cazarré (Foto: Instagram / Juliano Cazarré)


Juliano Cazarré gerou polêmica nas redes sociais com um post na sua página no Instagram, no último domingo (3). Com um vídeo que mostra uma família de gorilas cruzando uma estrada, ele decidiu começar uma conversa sobre masculinidade.

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"A masculinidade é uma construção social... Só que não! PROVER E PROTEGER: a masculinidade faz do mundo um lugar mais seguro. PS1: Quem tem um pai legal sabe. PS2: Esse gorila é mais cavalheiro do que muito homem por aí... dorme com esse barulho", escreve ele.

No comentários, muitos dos seguidores do ator explicaram como as coisas não são bem assim. Para o astro da Globo, parece que a masculinidade é algo 100% benéfico e que todo homem assume a postura de prover e proteger, quando a realidade é bem diferente.

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"A minha mãe foi solteira até os meus 9 anos, a masculinidade decidiu ir embora de casa porque 'queria ser feliz', ficamos sem comida, energia e água, ainda bem que essa masculinidade a minha mãe não ensinou. Dou graças a Deus de ter sido criado somente por uma mulher", disse um usuário.

Esse foi apenas um dos comentários que citaram casos de mães solo - mulheres que criaram e criam os filhos sozinhas, por motivos que vão de abandono do lar por parte do pai até uma separação conflituosa em que homem decidiu manter a distância da família.

Aliás, falar sobre esse tema é bastante complicado, afinal, segundo dados do IBGE, o número de famílias chefiadas por mulheres no Brasil aumentou 105% nos últimos 15 anos - mais de 40% (ou mais de 28 milhões) das casas brasileiras são comandadas por mulheres.

E tem um passo além. Dessas casas, mais de 11 milhões são monoparentais, ou seja, possuem uma composição familiar de núcleo único, sem a presença de um cônjuge. Isso significa, em termos absolutos, que mais de 10 milhões de mulheres no país cuidam sozinhas da família, sem a presença de uma figura masculina.

E existem mais números que mostram como essa visão de "masculinidade", como chama o ator, é falha por aqui. Só no Brasil, mais de 5 milhões de crianças não tem o registro do pai na certidão de nascimento.

No Instagram, a polêmica continuou, e Juliano respondeu uma série de comentários incluindo chamando aqueles que problematizaram a sua postagem de "feministos". A questão é que a sociedade não precisa de mais dessa visão distorcida da masculinidade, mas sim de homens que entendam que o seu papel, agora, é dar um passo para trás e reconhecerem que existem outras necessidades além das suas.

Principalmente no Brasil, onde o índice de feminicídios são absurdos (o país tem a quinta maior taxa do mundo, com 4,8 assassinatos para cada 100 mil mulheres), falar sobre como a masculinidade "protege" é, no mínimo, desconsiderar um cenário complexo, problemático e que, nos últimos anos, vem chamando a atenção para o reforço de ideias machistas que mantém esse status quo.

Em resposta a um usuário, por exemplo, Cazarré comentou: "É muito prejudicial para os meninos crescer sem uma figura masculina. Mães solteiras são heroínas, mas dificilmente saberão transmitir os valores da masculinidade". Mas, pensando no cenário atual, o que seriam os "valores da masculinidade”?. Eles são válidos mesmo, ou será que consistem apenas em valores antiquados e que não mais condizem com a sociedade como é hoje?

Qualquer que seja a resposta para essas perguntas, uma coisa é fato: fazer comentários impondo rótulos e valores sem considerar um contexto maior do que o da sua própria bolha, com certeza, está fora de moda.