Por que os discursos de Caio Castro e Patricia Abravanel são problemáticos?

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Patrícia Abravanel (Foto: Reprodução / Instagram)
Patrícia Abravanel (Foto: Reprodução / Instagram)

A terça-feira (1º), amanheceu com muita polêmica. Tudo isso porque três celebridades de bastante fama no Brasil decidiram postar e comentar sobre o vídeo em que um pastor expõe ideias homofóbicas, em especial, contra o relacionamento homoafetivo. Entre os envolvidos no caso, uma fala comum "Não concordo, mas respeito". E temos aí um problema e tanto.

Vamos primeiro entender a história toda. Rafa Kalimann publicou o vídeo no Twitter e acabou recebendo uma bronca do também ex-'BBB' e economista Gil Nogueira, que trouxe à tona o ponto exato do porquê ele é problemático: "Rafa, a questão é que ele disse que tem valores e que acha errado, MAS RESPEITA. E é contra isto que lutamos, contra pessoas que acham que relacionamentos homoafetivos são errados e contra os valores". Diante das críticas que começou a receber, a apresentadora agiu rápido: pediu desculpas, disse que jamais apoiaria uma opinião como aquela e confessa que não viu o vídeo com atenção.

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Caio Castro também compartilhou as imagens nas suas redes sociais. Amplamente criticado nos comentários, ele postou um comunicado (que não está mais disponível) dizendo que: "Eu sou contra ele [o pastor] ser contra, mas eu respeito a opinião dele!". De novo essa palavra, "respeito".

Por fim, Patricia Abravanel. Não é novidade nenhuma que a família de Sílvio Santos está comumente envolvida em polêmicas e falas discriminatórias, e, dessa vez, temos mais um exemplo. Patricia decidiu comentar o caso envolvendo a colega apresentadora e o ator dizendo que "Como 'LGDBTYH', não sei, querem respeito, eu acredito que eles tem que ser mais compreensivos com aqueles que hoje ainda não entendem direito e estão se abrindo pra isso".

Antes de mais nada, uma correção: a sigla correta é LGBTQIA+. O fato de Patricia não usá-la já é um indicativo de sua ignorância diante de um assunto tão relevante para o momento atual. E, até aí, tudo bem: existe material de sobra na internet para aprender e entender melhor o que cada letra significa e porque usar a sigla correta é relevante. Outro ponto é quando ela diz, no discurso, que por ser "mais velha" e "ter sido criada por pais conservadores", merece o respeito por ainda estar aprendendo. Essa fala é problemática porque ela tem 42 anos, e isso não é nem de longe "mais velho". Segundo, porque o aprendizado é constante, e acontece inclusive diante das gafes dos outros. Terceiro, é uma mulher que tem muito acesso à informação.

Discriminação mata!

Agora, vamos entender melhor porque isso gerou polêmica. Se você olhar em volta com um pouco de atenção, vai perceber que ainda vivemos em um mundo hétero, branco e cis. O que isso significa? Que alguns dos principais valores da nossa sociedade, em pleno 2021, ainda giram em torno do homem branco e heterossexual, das relações heterossexuais, e de uma base cultural vinda do velho continente (ou seja, da Europa). No Brasil, isso fica muito claro porque o homem branco foi o "conquistador das terras selvagens", o "colonizador europeu", o "provedor de grande sabedoria e progresso para os povos selvagens".

Por mais antiga que essa linha de pensamento seja, ela ainda é exercida em uma série de ambientes sociais. De forma prática, o que isso significa é que o "certo" sempre foi considerado esse padrão defendido: pele branca, relacionamentos entre sexos opostos, riqueza vinda da exploração dos diferentes - foi e ainda é assim com os povos indígenas, a população negra e até mesmo de alguns países do leste asiático, como a China.

O vídeo divulgado e o discurso de "respeito", considerando esse contexto, funciona como uma cortina de fumaça para manter o status quo, ou seja, o sistema de pensamento que gera violência, exclusão e exploração daqueles considerados diferentes. Pede-se respeito para manter uma ideia violenta em relação ao outro, quando esse mesmo outro nunca foi respeitado. É uma contradição em si mesma.

Uma busca rápida no Google explica que a palavra "respeito" vem do latim respectus, uma conjugação do verbo respectāre que, de forma superficial, pode ser traduzida como o ato de observar atentamente o entorno. Essa busca também revela que o respeito é visto como uma sensação positiva, muitas vezes sendo definido como "um sentimento que leva alguém a tratar as outras pessoas com grande atenção e profunda deferência, consideração ou reverência". Essas simples definições são o suficiente para percebermos que a ideia de respeito defendida por Caio ou por Patrícia com certeza não caem nessa alçada.

O respeito, segundo algumas páginas que explicam a sua etimologia, é baseado na apreciação do outro, e ajuda o indivíduo a reconhecer leis, figuras de autoridade e saber escutar as necessidades e opiniões dos outros com atenção. É, como dito acima, uma reverência ao diferente, no sentido de buscar compreendê-lo e às suas necessidades momentâneas.

Mas, quando se fala em respeito, muitas vezes a ideia por trás da palavra está longe de ser positiva. Tem a ver com repressão, repreensão e, principalmente, com imposição. Vem com uma fala típica por trás: "Eu até escuto o que você fala, mas ainda acho que estou certo e, por isso, desconsidero o que você disse". O intuito não é observar com atenção ou compreender, é manter a ideia inicial e ignorar o outro.

Quando pessoas brancas, héteros e cis pedem "respeito" ao pensamento conservador que têm, elas deliberadamente fecham os olhos para a violência que as minorias caladas por essas mesmas pessoas sofrem cotidianamente. Nem é preciso lembrar, aqui, que o Brasil é um dos países com recorde de violência contra a comunidade LGBTQIA+, líder no número de mortes de pessoas trans e que possui o racismo engendrado no seu DNA.

Por outro lado, precisamos reconhecer que, sim, muita coisa tem mudado e o último ano e meio são prova de que o pensamento intolerante e conservador por natureza não vai ter mais espaço daqui para a frente. Às pessoas representantes do que era o status quo até agora, resta ouvir atentamente, prestar atenção e aprender - não exigindo que os oprimidos ensinem o que elas não sabem, mas ativamente buscando o conhecimento para desconstruir às próprias ideias que colaboram para as pequenas violências cotidianas e que, vamos combinar, ninguém aguenta mais.

Abaixo, Joana Maranhão dá uma aula sobre como educar filhos para diversidade, afinal, o mundo é diverso e a resposta deveria ser só uma: é amor.

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