Por que somos tão perdidos hoje e o que Borges e 'Blade Runner' têm a ver com isso

FRANCESCA ANGIOLILLO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Corredores de shoppings, de hotéis, de cassinos. As avenidas da internet —aquelas captadas por satélites e câmeras do Google, mas também os meandros virtuais, em ramificação infinita. A fragmentação do espaço faz com que cada vez seja mais difícil saber onde estamos. A incapacidade crescente de reconhecer o espaço e as diferentes maneiras de entender esse conceito são o tema de “Salto no Escuro”, que o fotógrafo Tuca Vieira acaba de lançar. A obra, edição conjunta da Hedra e n-1, analisa representações do espaço na cultura contemporânea, em 29 ensaios, divididos em quatro seções —“Novos Espaços”, "Mapas, Territórios”, “Arte e Mapeamento”, “A Cidade como Laboratório”. Nesse grupos, cabem do cyberpunk de "Blade Runner" e de “Neuromancer”, de William Gibson, à literatura de Jorge Luis Borges e seus mapas e labirintos imaginários; da cartografia à “land art” e à poesia concreta de Augusto de Campos. “Chamei meus amigos, 30 anos de coisas que li”, diz o fotógrafo, tentando explicar a multiplicidade de referências abarcadas pelo texto, que se originou no mestrado defendido por ele na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. A pesquisa, conta ele, é o ponto de convergência de seus interesses da vida inteira, unindo a formação em letras, a imagem, que é sua forma de expressão principal, e a cidade —cujas bordas ele começou a desvendar no ofício de repórter fotográfico, principalmente no jornal Folha de S.Paulo. Epítome da representação do espaço, mapas e atlas têm um lugar central na obra. Num dos ensaios, “Mapeamento como Aventura”, Vieira reflete sobre um paradoxo dos mais intrigantes. O planeta nunca foi tão mapeado como hoje, mas nunca o homem esteve tão desorientado. Numa tabela do ensaio, compara “mapa” e “mapeamento”. Se o primeiro é objeto, o segundo é prática; se um é imagem, o outro é percurso. A representação impõe limites à compreensão, escreve ele, que insta a passar da passividade de olhar o mapa à atividade de mapear. A necessidade de mapear para se localizar se uniu ao desejo de conhecer São Paulo com mais profundidade, em outro trabalho lançado em paralelo a “Salto no Escuro”, o “Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo e Arredores”. Era preciso um método para perseguir essa profundidade —ainda que ilusória diante da metrópole de mais de 21 milhões de habitantes e 2.000 quilômetros quadrados. E um dia, em 2014, o método apareceu. Surgiu literalmente ao alcance da mão, como conta no último ensaio de “Salto no Escuro”, no bolso de um banco de táxi, de onde o fotógrafo tirou um exemplar do “Guia Quatro Rodas Ruas de São Paulo” —o avô do GPS para quem precisava se deslocar numa cidade imensa sem saber de antemão como chegar a seu destino. Vieira estava, à época, já fora do fotojornalismo, que exerceu de 2002 a 2008, e no qual tinha se tornado um nome associado às imagens da cidade, em particular por uma foto. “Paraisópolis” ressoou mundo afora como símbolo da desigualdade social, fazendo valer o surrado lema que diz que uma imagem vale mais que mil palavras. Na foto, vemos, à esquerda, a favela, e à direita, um edifício cujos andares sobem em espiral, para que cada varanda com piscina tenha sol. A dividir a foto ao meio, o muro que separa esses dois mundos. Mas nem por isso ele se sentia à altura do rótulo de “fotógrafo de São Paulo”, sabendo que sua vida e seu trabalho se desenrolavam numa porção ínfima da cidade. Então, ao tirar do bolso do carro aquele guia, enxergou o que podia fazer para abarcar aquela totalidade monstruosa. O guia dividia a mancha metropolitana em 203 territórios. Usando esse grid, ele foi a campo. Levou uma câmera de grande formato, que em lugar do filme de várias poses usa chapas individuais de quatro por cinco polegadas, permitindo qualidade muito maior que a de equipamentos digitais. Também se impôs regras, como registrar todos os lugares ao nível da rua, perseguindo uma “visão média”, que não saísse do comum, e evitando pessoas. Essas regras, diz o fotógrafo, dotam o trabalho de um certo grau de ironia. “Ele é pseudocientífico”, afirma, lembrando entre suas referências autores que se dedicaram a experimentações com limitações autoimpostas, como Julio Cortázar, em “Os Autonautas da Cosmopista”, e Georges Perec, com a “Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense”. O experimento do “Atlas”, que foi apresentado como exposição na Casa da Imagem, no centro paulistano, há cinco anos, ganha outro sentido na versão em livro, editado pelo Museu da Cidade de São Paulo. O tempo mais pausado do folhear permite uma imersão em cada imagem, e é possível achar nexos entre as fotografias a cada dupla de páginas. Vemos as cores semelhantes entre esta e aquela, o domo do planetário ecoando a concha do posto de gasolina. A estrutura da ponte estaiada dialoga com o portal sobre uma avenida. Mas o que parece obra da edição é fruto do acaso. As fotos se apresentam na sequência do grid —e, não, o fotógrafo não tirou várias e escolheu as que melhor conversassem entre si. Em cada lugar, fez uma imagem apenas. A escolha de produzir imagens únicas de cada localidade foi pautada por diferentes motivos. Em primeiro lugar, as chapas quatro por cinco e sua revelação são caras. Mas também há uma razão conceitual para a limitação. “A gente vive no mundo do excesso da informação visual. Uma informação leva a outra e de repente você está num oceano de informação.” Vieira lembra que, em Saramago, no “Ensaio sobre a Cegueira”, a falta de visão é branca, não é preta. “É o filme superexposto.” Essa superexposição, não do filme, mas de todos nós ao excesso de imagens, aliás, gerou uma escolha radical em “Salto no Escuro”. Embora o livro fale o tempo todo de criações visuais, as imagens estão ausentes, substituídas por retângulos vazios, nas proporções corretas das reproduções que entrariam neles. Foi uma opção pautada, primeiro, pela precariedade. A obtenção dos direitos de todas as imagens para fim comercial inviabilizaria o projeto. Essa impossibilidade encontrou eco na questão dos excessos do mundo contemporâneo, que não deixa de ser um tema do livro. Assim, o vazio se tornou uma declaração de princípios. Leitores ligam para a editora para reclamar, conta Vieira, dizendo porém que, quando ouvem a explicação, acabam gostando. Quem quiser pode encontrar todas as imagens na dissertação de mestrado, disponível online no banco de teses da USP. 'NUNCA VOU FAZER APOLOGIA DO MUNDO VIRTUAL' A pandemia foi um "banho de água fria" em dois grandes projetos de Tuca Vieira. O primeiro é o que se chama "Hipercidades", no qual o fotógrafo planejou registrar 30 cidades com mais de 10 milhões de habitantes. Conseguiu visitar 17, as mais distantes —uma parte das imagens, referentes às 14 que visitou em cinco meses de viagem "sem rumo" pelo Oriente, foi publicada pela Folha de S.Paulo. O segundo projeto, uma espécie de expansão do primeiro, é seu doutorado, sobre arquitetura e viagem no século 21. "O que significa viajar nesse momento?", indaga. "Nunca vou fazer uma apologia do mundo virtual", afirma. Viajar dentro dos mapas é um hábito que carrega desde a infância. Mas, frisa, é diferente do Google, "que não te permite nada", em termos de imaginação. A deriva eletrônica pelas imagens de satélite, substituto falho adotado por alguns durante o isolamento, seria contrário ao que defende nos livros que lança agora. Contudo, diz, pode ser que não sejam precisos deslocamentos gigantescos para explorar o tema. "Talvez uma volta no quarteirão seja uma belíssima viagem."