Por que pessoas passam fome se há tantos bilionários no mundo?

Felipe Blumen
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Por que as pessoas passam fome se há tantos bilionários no mundo?
Distribuição de comida na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, durante a campanha "Quarentena Sem Fome", em maio de 2020. Antes da pandemia, em 2018, o país contava com mais de 10 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave. (Foto Buda Mendes/Getty Images)

Parte do fascínio provocado por notícias sobre fortunas como as de Jeff Bezos, Elon Musk e Bill Gates se explica pela distância entre aqueles números e a realidade de quem os lê. Em um mundo desigual, um, 10 ou 100 bilhões de dólares parecem dinheiro inventado para 99,5% da população.

A relação entre desigualdade e acumulação de capital a níveis estratosféricos é estudada há décadas por economistas, sociólogos e pesquisadores de diversas áreas. O que conecta ou afasta, por exemplo, os aproximadamente 2.300 bilionários que existem no mundo neste exato momento das cerca de 25 mil pessoas que morrem de fome todos os anos? Não há resposta simples, porque nem tudo se resume a uma conta entre quem tem dinheiro e quem não tem.

Os super ricos e a desigualdade

A falta de consenso, contudo, não impede que diversas teorias relacionando os ricos e super ricos com a desigualdade continuem surgindo. Na última década, por exemplo, quem deu o tom dessa discussão foi o economista francês Thomas Piketty, cujo livro “O capital no século 21”, de 2013, alçou seu autor à fama, se tornou um best-seller global e uma bíblia para os pesquisadores mais progressistas.

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Entre as ideias presentes na obra estão a taxação pesada de fortunas milionárias e bilionárias. Piketty defende um imposto gradativo sobre o patrimônio que pode chegar a até 90% para os que têm mais de 2 bilhões de euros na conta. “Ao contrário do que se costuma dizer, esse enriquecimento foi obtido graças a bens coletivos como o conhecimento público e os laboratórios de investigação”, defendeu à época.

Para Piketty, basicamente, a noção de que bilionários criam empregos e impulsionam o crescimento é falsa. Ele defende que o crescimento da renda per capita nos Estados Unidos, por exemplo, foi de 2,2% ao ano entre 1950 e 1990. Mas quando o número de bilionários explodiu nas décadas de 1990 e 2000 - crescendo de cerca de 100 em 1990 para quase 800 hoje - o crescimento da renda per capita caiu para 1,1 %.

Thomas Piketty e a taxação de bilionários
O economista francês Thomas Piketty, autor dos livros "O capital no século 21" e "Capital e ideologia", defende a taxação de fortunas bilionárias e que a noção de que bilionários criam empregos e impulsionam o crescimento é falsa. (Fotos Sander Koning /ANP/AFP via Getty Images)

É preciso repensar as bases

Os desdobramentos dessas ideias podem ser vistos em diversos trabalhos pelo mundo, incluindo o Brasil. Prestes a voltar ao Mapa da Fome da ONU, o país que tem 54 bilionários hoje tem visto indicadores confirmarem o agravamento da fome. Os últimos dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), referentes a 2018, apontavam mais de 10 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave - 3 milhões a mais do que em 2013.

“As coisas estão ligadas”, afirma o Coordenador de Pesquisa e Incidência em Justiça Social e Econômica da Oxfam Brasil, Jeff Nascimento. “Em uma pesquisa, quando perguntamos o que as pessoas acham da desigualdade e quais são os condicionantes dela, dependendo do interlocutor vamos ouvir que a solução é ‘muito simples’: a desigualdade vai existir sempre porque as pessoas são desiguais, então o problema não é ela, mas sim a miséria. Não é a visão que compartilhamos. Para nós, a miséria está ligada à existência de pessoas muito ricas”, analisa.

O pesquisador cita Piketty ao explicar que a desigualdade associada ao 0,1% de pessoas mais ricas do mundo existe por esse grupo ser imune a quase tudo. “É claro que eles são afetados, mas se recuperam muito rápido. É uma condição muito estável, abalada somente por crises econômicas profundas”, diz. “Talvez estejamos agora em um momento que permita um rearranjo de forças. No sentido de repensar as bases e aumentar a taxação, fazer um sistema tributário mais progressivo, pensar no papel das grandes empresas - como foi feito depois da Segunda Guerra Mundial. Caso contrário, mantidas as condições atuais, bilhões de pessoas vão levar 14 anos para retomar o nível financeiro pré-pandemia, enquanto os bilionários levaram 9 meses e já estão lucrando novamente.

Por que pessoas morrem de fome se há tantos bilionários no mundo?
Pessoas aguardam atendimento em frente a uma agência da Caixa Econômica Federal. Para o professor e pesquisador Marcelo Medeiros, o au emergencial é um mecanismo antirrecessão que não beneficia os ricos, ao contrário do que fez o país em boa parte das recessões em sua história. (Foto Andre Coelho/Getty Images)

Desigualdade aumenta em épocas de recessão

O cenário de crise econômica causado pela pandemia do novo coronavírus, que no Brasil se traduz em recessão, joga nova luz a alguns aspectos históricos da desigualdade relacionada à concentração de renda, como explica Marcelo Medeiros, pesquisador e professor da Universidade de Princeton. “Não existe uma relação automática entre a existência de pessoas ricas e a da fome, por exemplo, assim como não existe justificativa simples para os problemas do mundo”, diz ele, que foi professor da Universidade de Brasília e técnico do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea).

“O problema central da desigualdade neste momento é que o Brasil tem uma história de ferramentas de recuperação de recessão repleta de políticas pró-ricos”, afirma o pesquisador. “Na maioria das vezes em que se tentou fazer uma recuperação de recessão foi criando mecanismos que favorecessem a população mais rica. É por isso que momentos como este são seguidos de algum aumento da desigualdade”, explica.

Para Medeiros, a “solução” do quadro de desigualdade é a criação de mecanismos que não fazem parte do receituário tradicional, como o auxílio emergencial. “Esse é um mecanismo antirrecessão que freia a queda nos estados brasileiros porque garante a arrecadação de impostos”, defende. “A economia é muito mais complexa do que um grupo de investidores. É mais sofisticada do que isso. A maior parte do emprego no Brasil é gerado por microempresas. Além disso, a maior parte do trabalho é informal. Não dá para fazer transferência de renda para sempre, mas isso não quer dizer que não se deva fazer nada. A lição foi clara, aprendeu quem quis”, conclui.