Por que o psicólogo é importante no futebol, especialmente para os mais jovens

Eryck Gomes
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Brenner, após substituição, em abril de 2018 (Marcos Ribolli)
Brenner, após substituição, em abril de 2018 (Marcos Ribolli)

O dia 16 de abril de 2018 marcou a estreia do São Paulo no Campeonato Brasileiro daquele ano. Três pontos de cara, num 1 a 0 com gol de Bruno Alves contra o Paraná, mas o que chamou atenção na partida foi outra coisa. Aos 55 minutos de jogo, após ser substituído por Júnior Tavares, Brenner chorou copiosamente. É possível imaginar que o jovem atacante, então com 18 anos, entre lágrimas e soluços, sabia da expectativa que havia em cima dele dentro do Morumbi.

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Em 2020, conversei com um profissional do São Paulo que trabalhou diretamente com o Brenner, durante as categorias de base. Contou que havia uma dedicação especial por parte da comissão ao tratá-lo, pois o garoto sentia muito forte frustrações naturais de desempenho. Em 2017, no Campeonato Paulista Sub-17, o atacante do Tricolor quebrou um recorde que antes pertencia a Gabriel Jesus. Balançou as redes 34 vezes em 14 jogos. Portanto, o máximo cuidado com o jovem era justificado porque sabiam estar lidando com um atleta de potencial técnico altíssimo.

“O cérebro de um jogador jovem ainda não está totalmente formado”, destaca a psicóloga Fernanda Lima. “A parte frontal, responsável pelo planejamento, desempenho de tarefas, etc, pode seguir em desenvolvimento até cerca dos 25 anos, ou mais. E aí você cobra uma coisa de um menino de 18, 19, 20 anos que, estruturalmente, ele não está pronto para entregar.”

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Brenner demorou a engrenar e, mesmo bastante jovem, já era dado em alguns ambientes como frustração. Deslanchou sob o comando do técnico Fernando Diniz, durante 2020, e deixou o São Paulo no mesmo ano rumo ao FC Cincinnati, da MLS, após marcar 22 gols em 44 jogos na temporada. Vale destacar que ele ainda tem 21 anos.

Além do âmbito técnico e tático

Há uma forte preocupação com a análise quantitativa e qualitativa do que é apresentado em campo nos jogos do futebol. Por óbvio, esse caminho é bem-vindo principalmente por deixar no escanteio aspectos mais polêmicos, como eventuais erros de arbitragem, por exemplo. Ainda assim, o contexto mental de um jogador ou equipe, em certos momentos, acaba sendo negligenciado. Não é possível ter um rigor tático na composição de um espaço deixado na segunda linha, ou flutuação de marcação, se todas as engrenagens emocionais não estiverem em pleno funcionamento.

“Os jornalistas deveriam ter um pouco de conhecimento disso (psicologia). Não é só fazer a análise técnica e tática, mas entender que são vários componentes que fazem parte de um bom desempenho de um jogador. Se um comunicador de grande alcance fala algo assim de um atleta (chamar de perna de pau), o torcedor se vê chancelado a dizer o mesmo. Isso pode interferir muito no desempenho de um jovem. Para pensar, correr e chutar uma bola são várias áreas em atividade no cérebro. Todas sendo ativadas e precisando atuar muito bem. Precisamos tratar o futebol de forma mais humana, porque são humanos ali”, reforça Fernanda, que através da sua conta no Twitter apresenta histórias e estimula a conversa sobre o assunto.

O perfil Camisa 8 (@camisa_oito), no momento em que escrevo este texto, já passa dos 22 mil seguidores. Fernanda Lima, 24 anos, é natural de Vitória da Conquista-BA, é graduada em Psicologia e está prestes a concluir uma pós-graduação em Psicologia Esportiva. A ligação afetiva com o esporte, aliada com o envolvimento profissional, resultou numa assídua presença na rede social, sempre levantando temas históricos e políticos importantes do futebol, e com um olhar atento ao lado emocional do jogo.

“As threads que faço no Twitter, por exemplo, sobre saúde mental, o público que consome está entre 15 a 24 anos. Procuro usar uma linguagem acessível para mostrar um jogador que tem TOC (transtorno obsessivo compulsivo), ansiedade ou depressão justamente para esse público mais jovem, procurando ser clara. Conhecemos pessoas que têm depressão, ansiedade, etc, e isso é algo natural. Essa é a mensagem que quero passar. Não podemos tratar isso como um tabu gigantesco. Quando coloco isso no Twitter, um monte de gente lê e fala ‘pô, que legal, é isso que é ansiedade’, e aí naturaliza um pouco na cabeça. É uma sementinha que vai sendo regada constantemente.”

E a semente da qual Fernanda fala tem muito a ver com o senso comum de que o acompanhamento psicológico é algo restrito a pessoas “desequilibradas”, como a própria conta a partir de uma experiência de estágio.

“Aconteceu com um grupo da categoria Sub-20. Quando eu fui entrar em contato com o presidente, expliquei que a psicologia do esporte era algo muito importante, e ele simplesmente me respondeu que 'aqui é um clube de futebol', meio que perguntando o que eu queria fazer ali, querendo saber qual a relação de uma coisa com a outra.”

A oportunidade só foi para a frente após conversa com um dirigente, que liberou a atividade.

“Os meninos eram muito desconfiados. Eles passavam, acenavam, e tentávamos nos enturmar. Quando partimos para as perguntas, para entender como era o clima do clube, já percebemos algumas coisas. Por exemplo, na parte salarial, para saber se estavam satisfeitos com a remuneração, eles falaram para a gente que não, mas responderam ‘sim’ no questionário. Depois, falaram de um relacionamento entre irmãos que eram brigados, e que isso atrapalhava porque fazia parte do grupo ficar ao lado de um e, outra parte, do outro. Inclusive, o treinador participou da dinâmica e ficou surpreso, pois não sabia disso. Intermediamos essa conversa o feedback de todos no clube foi bem positivo.”

A resposta automática de “não sou doido” é comum entre jogadores, principalmente os mais jovens. Isso geralmente vem acompanhado do receio que o profissional pudesse contar detalhes ao presidente do clube. Além disso, Fernanda também destaca a atmosfera masculina predominante no meio.

“Precisamos deixar mais claro que há um código de ética e métodos rigorosos para lidarmos com alguém. O sigilo é primordial. Também entra aquela coisa do homem que é muito forte, guerreiro, que é inatingível. O jogador que procura o psicólogo do clube vira motivo de zoação entre os outros. Isso pela imagem do jogador como super-herói, que não pode nunca estar abatido, triste, chateado ou com raiva, porque é bem remunerado. As pessoas acham isso e os atletas, até pela fama e poder que o futebol traz para alguns, internalizam isso, gerando a dificuldade de admissão de fraqueza. Na verdade, são apenas sentimentos comuns para todos. Todo mundo fica triste, ou sente raiva, fica abalado. Para os jogadores, naquela fortaleza que criam, é tido como fraqueza. Não é aceito. Há a preparação técnica, tática, física, fisiológica e nutricional, mas a preparação psicológica não pode ficar apenas para quando der.”