Turismo de vacina? Por que o México virou o país mais procurado por famosos

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Thaila Ayala, Roberto Justus, Ana Paula Seibert e o casal Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello (Foto: Reprodução/Instagram)
Thaila Ayala, Roberto Justus, Ana Paula Seibert e o casal Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello (Foto: Reprodução/Instagram)

Se você acessa o Instagram, com certeza, já viu pelo menos um ator ou influencer postando uma foto em uma praia em Cancun ou Tulum, no México. No começo do ano, a modelo Yasmin Brunet esteve por lá, além da cantora Anitta, a atriz Claudia Raia e outros famosos. Na última semana, o empresário e apresentador Roberto Justus também publicou fotos em suas redes sociais em um resort em Playa del Carmen, outro ponto bem turístico no país.

E se antes Cancun não aparecia na lista de turistas que desejavam viajar para o exterior, só no primeiro semestre de 2021, o destino foi o mais procurado por brasileiros, segundo uma pesquisa publicada pelo site Viajanet. De acordo com os dados, o local aparecia em nono lugar no ranking das nove cidades mais procuradas no primeiro semestre do ano passado e pulou para a primeira posição este ano.

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De acordo com CVC Corp, grupo do qual a CVC Viagens faz parte, viagens para o exterior ainda estão com baixa procura, no entanto, o Caribe ganhou representatividade, com destaque para Cancun.

Mesmo havendo restrição a brasileiros em diversos países do mundo, o México foi um dos lugares que seguiu com as fronteiras abertas, aceitando milhares de turistas desde o ano passado —o país optou por fazer uma quarentena de apenas três meses. A decisão foi incentivada pelo presidente Manuel López Obrado que, na maioria dos seus discursos, minimizava a pandemia de coronavírus, além de sempre aparecer sem máscara em locais públicos. O líder foi vacinado na última terça-feira (20).

Outra fator que impulsiona o turismo na cidade é o fato de o governo mexicano não solicitar medidas sanitárias rígidas. Ao contrário de outros países, que exigem teste de covi-19 com resultado negativo, para entrar no país é necessário preencher apenas um formulário online e embarcar.

Alternativa para chegar nos Estados Unidos

Uma funcionária, que prefere não se identificar, trabalha em uma agência de turismo de luxo, com sede em São Paulo e nos Estados Unidos. Segundo ela, mesmo diante da pandemia, os destinos mais procurados pelos clientes foram México, Dubai e Maldivas, justamente por ainda aceitarem brasileiros. “A gente vinha numa onda de Japão, África do Sul e Tanzânia. Mas com as restrições mudou bastante. Cancun era um destino popular, porque tem hotéis muito bons, mas como o leque para brasileiros diminui muito, as pessoas estão optando pelo Caribe”, afirma.

Ficar 15 dias em Miami é vendável. Não é de bom tom postar nas redes sociais, mas gera dinheiro. Essas pessoas já vivem no mundo paralelo, então, isso não mudou para elesdiz o antropólogo Michel Alcoforado

E além de ter belas praias e controles sanitários mais frouxos, o México também serve de porta de entrada para quem deseja viajar para os Estados Unidos a turismo e até para garantir a vacinação neste momento. A agente de viagens conta que a empresa assessora os clientes com a documentação, já que muitos deles têm casas ou negócios em Miami e outras cidades do país.

Como os Estado Unidos proíbem voos diretos do Brasil, a alternativa para alguns é permanecer em países do Caribe como México, República Dominicana, Turks e Caicos e depois de 14 dias entrarem em solo americano. “Como muitos viajam de jatinho e não podem ir direto para os Estados Unidos, eles ficam em hotéis por esse período e depois entram no EUA”, explica. De acordo com a brasileira, a hospedagem não sai barata: as diárias variam de 800 a 15 mil dólares e alguns pacotes de viagem podem sair até 50 mil dólares no total.

Ela conta ainda que alguns também recorreram a Dubai para fazer a quarentena antes de entrar no país e, antigamente, até optaram pela vacinação nos Emirados Árabes. “A vacinação por lá está com uma taxa muito boa. E está tudo aberto. Os brasileiros querem voltar a ter uma vida normal, por isso escolhem esses lugares para viajar.”

Mas quem pode entrar nos Estados Unidos e ser vacinado?

Muitos influenciadores estão postando em suas redes sociais que já tomaram vacina em território americano, principalmente em Miami, Flórida. No início do mês de abril, os ex-BBBs Rodrigão e Adriana Santanna receberam a dose e mostraram em seu Instagram. O tema gera bastante dúvida e levanta o questionamento de quem pode entrar no país.

De acordo com o Alexandre Piquet, advogado brasileiro licenciado nos EUA e com especialização em direito imigratório, empresarial e imobiliário, ainda vigoram regras específicas para a entrada nos Estados Unidos. Mesmo para quem decide entrar e garantir a vacinação, a logística não é tão simples. “Ter uma casa não é uma exceção para o travel ban - proibição de viajar em tradução livre - , que é a primeira parte do planejamento”, afirma.

Para entrar em território americano, por exemplo, é preciso fazer quarentena de 14 dias em algum país que não esteja na lista de banimento de viagem direta e ainda apresentar exame com resultado negativo 72 horas antes da entrada no país.

Após a entrada, para ter direito à vacina no estado da Flórida, é preciso comprovar residência— mesmo que seja parcial naquele estado.“No dia da vacinação é necessário mostrar um comprovante da propriedade ou aluguel do imóvel e mais alguma conta no nome da pessoa, que pode ser banco, celular, telefone”, explica.

Na prática, brasileiros que estão dentro destes requisitos podem ser vacinados sem problema algum. Mas, segundo o especialista, o que tem acontecido em alguns casos, é que muitas vezes alguns postos não pedem nenhum tipo de comprovação e garantem que pessoas que não moram na região recebam o imunizante. “Muitas vezes sobra a vacina e, no fim do dia, eles não vão jogar fora. Além disso, também beneficia pessoas que moram ilegalmente no país e não podem comprovar este tipo de documentação. Aproximadamente 63% das pessoas que moram em Miami são de outro lugar, apesar de serem residentes do estado”, afirma.

Piquet ainda reforça que isso não é garantia de que todo mundo que deseja entrar no estado e não tiver documentação suficiente vai conseguir se vacinar. Muito pelo contrário. “Depende muito do posto de vacinação. Tem lugar que pede, já outros que não.”

E quais são exceções?

O advogado explica que quem é cidadão americano ou quem tem um cartão de residência (green card) pode entrar no país livremente e não precisa fazer a quarentena. Além desta regra, valem também:

-Cônjuge de cidadão americano ou portador de green card;

-Pais de cidadãos ou portadores de green card desde que os mesmos sejam menores de 21 anos, e filhos menores de cidadãos ou portadores de green card;

-Quem vai fazer reuniões de interesse nacional, como diplomatas ou ministros;

-Tratamento médico de urgência (parto não se enquadra neste caso).

-Funeral de parente cidadão ou portador de green card.

Dinheiro não compra felicidade, mas compra vacina

Se antes postar nas redes sociais carros e bolsas de luxo era motivo de ostentação, agora, uma foto recebendo a vacina tomou esse espaço. Para o antropólogo Michel Alcoforado, a ida ao exterior por pessoas que têm mais dinheiro é a nova compra da bolsa de marca Louis Vuitton.“É um reflexo claro de uma sociedade marcada por uma distinção desigual de privilégios”, afirma.

O especialista ressalta que, embora as pessoas estejam viajando para receber a imunização, essa “brecha” estabelece ainda mais uma nova elite. “Agora, nem os ricos tradicionais podem ir”.

Embora seja algo que perpetua ainda mais a desigualdade e aumenta a falta de esperança em alguns brasileiros por aqui, Michel ressalta que não há nada de novo nisso. 

Os mesmos novos ricos investiram pesado no mercado bilionário e estão marcando o 'imunoprivilégio'reforça o antropólogo

Em relação às celebridades, até uma postagem recebendo a vacina no exterior ajuda a promoção da imagem e ainda faz com que ocorra a produção de conteúdo, segundo o especialista. “Ficar 15 dias em Miami é vendável. Não é de bom tom postar nas redes sociais, mas gera dinheiro. Essas pessoas já vivem no mundo paralelo, então, isso não mudou para eles”, finaliza.

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