Por que o mercado não reage mal à instabilidade política da "dança das cadeiras" de Bolsonaro?

Anita Efraim
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Brazilian President Jair Bolsonaro attends the signing ceremony of the Provisional Measure to improve the business environment in Brazil, at Planalto Palace in Brasilia, on March 29, 2021. - Bolsonaro faces a severe crisis between his foreign Minister Ernesto Araujo and the National Congress where he is the target of criticism for the way he has conducted the Brazilian foreign policy. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Presidente Jair Bolsonaro fez mudanças em seis ministérios na última quinta-feira (29) (Foto: Evaristo Sá/AFP via Getty Images)

Nesta terça-feira (30), dia em os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica deixaram os postos que ocupavam, o mercado financeiro e a volatilidade do dólar esboçaram poucas reações – mesmo diante do temor de uma possível ruptura com as Forças Armadas.

Até às 16h, o dólar teve uma leve queda de 0,43% e ficou no patamar de R$ 5,7, enquanto a bolsa de valores de São Paulo, subiu 0,94% e chegou a 116.503 pontos.

Apesar de os movimentos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) terem chamado atenção dos analistas políticos, as reações foram muito mais tímidas por parte do chamado “mercado financeiro”. Na última quinta-feira (29), o presidente fez mudanças em seis ministérios

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A bolsa e o dólar, por exemplo, tiveram movimento mais intenso em 10 de março, o dia em que o ex-presidente Lula discursou no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Na ocasião, o dólar caiu 2,50% depois de três dias de alta e chegou a ser vendido por R$ 5,65. Já a bolsa de valores subiu 1,30%.

O discurso do petista foi entendido por alguns como sendo “do Lula de 2003”, o que acalmou o “mercado” e mudou os indicadores. A figura do ex-presidente costuma mexer com a economia, que até já criou a alcunha “risco Lula”.

No entanto, ações de Bolsonaro, mesmo as que surpreendem, podem mexer menos com o mercado financeiro.

O que ou quem é o mercado financeiro?

Como explica o economista Roberto Troster, o mercado financeiro é “o conjunto de cotação dos principais ativos negociados, bolsa, câmbio e juros futuros, em determinada data”.

Bruno Carazza, economista e professor do Ibmec e da Fundação Dom Cabral, lembra que o “mercado” não é uma entidade única, mas de “de milhares de agentes que interagem diariamente vendendo e comprando ações, títulos e reais e moedas estrangeiras. Esses atores têm as mais diversas naturezas e portes, como pessoas físicas, grandes empresas exportadoras e importadoras, fundos de investimento, fundos de pensão, investidores estrangeiros institucionais, e até governos estrangeiros.”

O que mexe com o mercado financeiro?

Segundo Troster, o que movimenta o mercado são temas que podem afetar o valor dos ativos que esses agentes detêm. Ele garante que eventos como uma reforma ministerial mexem, sem dúvidas, com o mercado. Às vezes, o efeito é pouco notado por uma antecipação.

“Uma crise institucional, uma reforma não prevista e uma possível ruptura com certeza mexem com o mercado. São dois pontos a considerar: um é quanto já foi antecipada pelo mercado e já está embutida nos preços. Há até um ditado que diz ‘compre no boato e venda no fato’”, explica. “O outro [ponto] é qual é o impacto que terá na economia. Se for percebido como fraco, é razoável esperar poucas alterações nos preços.”

Já Bruno Carazza aponta que os agentes que movem o mercado têm seus próprios objetivos de curto e de longo prazo. Por isso, “desenvolvem sua própria leitura do ambiente econômico e político e assim traçam as suas próprias estratégias de negócio: se comprar ou vender determinado papel ou moeda, qual a quantidade e qual o preço. Às vezes esses agentes se deixam levar por um medo ou uma euforia coletiva, num verdadeiro comportamento de manada, mas em geral cada um reage à sua maneira aos fatos da agenda política e econômica.”

O professor aponta que é difícil identificar quais fatos são capazes de mexer com o mercado financeiro e qual a magnitude desses impactos.

“No dia em que Lula fez seu discurso no sindicato do ABC, por exemplo, o Banco Central realizou uma grande operação de venda de dólares no mercado. Então não foi possível identificar o quanto o mercado foi influenciado isoladamente por cada um dos fatores”, lembra.

Na avaliação de Carazza, o mercado financeiro pode ainda estar tentando entender as mudanças promovidas por Bolsonaro.

“No caso das recentes mudanças no governo Bolsonaro, acredito que o mercado, como todos nós, ainda esteja tentando interpretar o que está se passando no núcleo do governo e quais as repercussões que isso pode ter em termos de estabilidade política.”