Por que a Itália é o melhor destino para viajantes intolerantes ao glúten

Os restaurantes italianos estão oferecendo uma grande variedade de deliciosas refeições para celíacos – RAS

Um verão antes do meu marido Dan, ser diagnosticado com a doença celíaca, nós alugamos duas casas de campo na Toscana, com outras três famílias.

Na semana seguinte, todos nós (oito adultos e oito crianças) comemos pizza em Florença, pedimos tigelas de massa na trattoria local e compramos quantidades exageradas de pão fresco para comer à beira da piscina com queijo e garrafas de vinho.

Um mês depois nós levamos nossas duas filhas, que na época tinham um e quatro anos, à Disney World, na Flórida, e comemos hambúrgueres americanos e costela.

O verão terminou com uma semana entre amigos em Whitstable, na Inglaterra, onde comemos mexilhões com pão torrado e pratos de peixe empanado com batata frita na praia. Como acontece com a maioria das pessoas, nossas férias foram sinônimo de indulgências gastronômicas, mas para Dan, elas vieram acompanhadas de dores misteriosas e intensas.

Existe uma Itália sem glúten? Crédito: AP

Em junho de 2015, ele recebeu o diagnóstico de doença celíaca. Enquanto nós analisávamos rótulos de alimentos e questionávamos garçons, percebemos que nossas férias nunca mais seriam as mesmas. Na verdade, nós estávamos tão descrentes, que não viajamos pelos próximos dois anos.

A doença celíaca é uma condição autoimune que afeta uma a cada cem pessoas no Reino Unido. Estima-se que apenas 24% das pessoas que a têm saibam da sua presença, mas novas pesquisas mostram um aumento muito significativo no número de diagnósticos ao longo dos últimos anos.

No organismo de quem tem a doença celíaca, o sistema imunológico reage ao glúten (uma proteína encontrada no trigo, na cevada e no centeio), atacando e prejudicando o revestimento da parede intestinal, provocando sintomas que incluem perda de peso, inchaço, cansaço, vômitos e diarreia. O único tratamento é uma dieta sem glúten.

Embora o inchaço possa parecer inofensivo, com o tempo, a doença celíaca não tratada, pode levar à osteoporose, deficiência de ferro e desnutrição, já que o dano causado ao revestimento intestinal impede que os nutrientes sejam absorvidos de forma apropriada. Além disso, as pessoas com doença celíaca têm uma chance duas vezes maior de desenvolver câncer de intestino.

A contaminação cruzada é o inimigo silencioso dos celíacos, e faz com que as férias se transformem em um risco para a saúde. Crédito: AP

No entanto, não basta evitar alimentos que contêm glúten; rapidamente nós aprendemos que a contaminação cruzada é o inimigo silencioso dos celíacos, e faz com que as férias se transformem em um risco para a saúde.

Dan não pode comer um pão sem glúten que tenha ido para a torradeira depois de um pão comum, já que uma única migalha pode resultar em um dia de vômitos e dores estomacais. Ele também não pode ter suas refeições preparadas em uma área, panela ou tábua em que alimentos com glúten tenham sido manipulados.

Por este motivo, os buffets dos hotéis foram excluídos de nossas vidas, juntamente com as cozinhas compartilhadas (como a da nossa vila na Toscana) a não ser que todo o grupo se comprometa a não comer glúten e que todos os utensílios sejam substituídos. Os restaurantes precisam de uma área de preparo diferente, e a barreira do idioma torna difícil conseguir isso, em muitos países. Mesmo no Reino Unido, já encontramos garçons que não entendem a doença, ou não dão atenção quando perguntamos sobre a possibilidade de contaminação cruzada.

Dan achava que nunca mais poderia apreciar sua cerveja preferida, e que nunca mais poderia passar férias na Itália, com suas massas e pães deliciosos. Sabemos que é possível comprar cerveja e pão livres de glúten, mas será que pode existir uma Itália sem glúten?

Na verdade, sim. “O pior lugar para os celíacos é, na verdade, o melhor lugar para os celíacos,” diz Ian Marber, um nutricionista diagnosticado com a doença em 1995.

“Quando recebi o diagnóstico, passei anos sem ir à Itália, mas nos anos recentes o país mudou muito e eu já fui a Portofino, à Costa Amalfitana, e até nas profundezas da Toscana encontrei restaurantes incríveis, com funcionários que consideram normais minhas perguntas sobre a contaminação cruzada”.

A mudança tem muito a ver com uma campanha nacional sobre a doença celíaca introduzida na Itália em 2005 (desde então, devido ao alto custo, ela foi descontinuada). “A campanha aumentou a conscientização e colocou a doença em destaque,” diz o Dr. Alessio Fasano, italiano que mora nos Estados Unidos e é diretor do Centro de Pesquisa Celíaca da Universidade de Maryland. “O glúten é uma parte tão importante da dieta italiana que eles começaram a examinar as crianças nas escolas”.

“A Sociedade Celíaca Italiana é uma grande defensora dos direitos de quem tem a doença, e você pode visitar o seu site (celiachia.it) para obter uma lista atualizada de pizzarias, trattorias, gelaterias e pousadas em qualquer região que sejam certificadas como livres de glúten”.

Comer um pão sem glúten que tenha ido para a torradeira após um pão comum pode resultar em um dia de vômitos e dores estomacais para os celíacos. Crédito: AP

O Dr. Fasano explica que embora a Itália e o restante da Europa tenham redes fortes de sociedades celíacas (ele destacou a atuação da Espanha, França e Escandinávia), os Estados Unidos estão um pouco atrasados. “Os Estados Unidos estão se tornando mais amigáveis para os celíacos, especialmente a Califórnia, por causa da popularidade das dietas sem glúten”.

No entanto, o Dr. Fasano afirma que esta tendência foi uma benção e uma maldição para os viajantes: “Isso fez com que os restaurantes e hotéis oferecessem opções sem glúten mais saborosas e variadas do que há cinco anos. No entanto, também banalizou um pouco a doença, e alguns estabelecimentos não entendem que você está comendo desta forma por uma razão médica”.

“Eu tenho um ditado quando viajo,” brincou o nutricionista Ian Marber: “Eu realmente não posso comer glúten, não sou como o pessoal de Los Angeles”.

As pessoas tendem a levá-lo mais a sério quando você está viajando com uma criança celíaca. É o que afirma minha amiga Kate, cuja filha Poppy, de sete anos, foi diagnosticada quando tinha apenas um ano de idade. “Nos primeiros dois verões após o diagnóstico de Poppy nós ficamos em casa, com medo da contaminação cruzada e da barreira do idioma,” disse ela. “No entanto, no seu terceiro aniversário, criamos coragem e fomos à França. Imprimimos traduções dos principais termos, mas comemos fora poucas vezes. Nós mesmos cozinhamos e ficamos impressionados com a seção com produtos sem glúten dos supermercados,” explica Kate.

Nós ficamos impressionados com a seção de produtos livres de glúten dos supermercados franceses. Crédito: Getty

“No ano seguinte, fomos à França de novo e continuamos cozinhando, mas também comemos em um restaurante chamado Buffalo Grill que tem uma excelente política em relação a alergias alimentares – e hambúrgueres deliciosos”.

“Na França, colocar migalhas de pão ou farinha em uma carne é considerado um enorme insulto. E tivemos outra experiência positiva no ano seguinte no sul de Marbella, onde encontramos uma pizzaria livre de glúten, gerenciado por um britânico celíaco, o que descobrimos numa pesquisa no Google antes de viajar”.

Dan e eu fizemos pesquisas semelhantes antes de ir novamente com as meninas até à Flórida este ano, nossa primeira viagem desde o diagnóstico. Além de baixar o aplicativo ‘Find Me Gluten Free’ (gratuito) nós digitamos “celíaco” e “glúten” no Trip Advisor e encontramos uma lista de restaurantes seguros para visitar.

O conselho de Ian Marber de comer algo no aeroporto antes de embarcar (mesmo que você esteja sem fome) chegou tarde demais para nós. A refeição sem glúten servida a Dan, durante o voo, era tão intragável que ele não conseguiu comer nada durante as nove horas de voo. Felizmente tínhamos levado algumas coisas na bagagem, caso não conseguíssemos encontrar restaurantes apropriados (segundo Marber, “biscoitos de aveia e nozes são boas escolhas, e você pode comprar frutas quando chegar”).

“Finalmente, e talvez o mais importante, eu imploro que os celíacos continuem viajando,” diz o Dr. Fasano. “Esteja sempre preparado, sim, mas seja aventureiro”. Com isso em mente, nossa viagem de volta à Itália em 2018 já está marcada.

O resto do mundo: 5 das melhores acomodações para celíacos

  1. Mark Warner Levante Beach, Grécia

Atende celíacos de forma brilhante. Oferece pacotes de várias noites com meia-pensão. (markwarner.co.uk)

  1. Chalet Chardon Bleu, St Martin de Belleville, França

Este lugar é ótimo para pessoas intolerantes ao glúten. (peak-pursuits.com).

  1. Four Seasons em Sayan, Ubud, Bali

Chá da tarde sem glúten, à beira da piscina, todos os dias. (fourseasons.com).

Four Seasons em Sayan, Ubud, Bali
  1. Nobu Ibiza Bay, Espanha

Tem um restaurante dedicado a smoothies e refeições sem glúten. (nobuhotelibizabay.com)

  1. Grand Palladium Lady Hamilton, Jamaica 

Um dos restaurantes do resort tem um menu especial sem glúten. (palladiumhotelgroup.com)

Maria Lally