Por que homens, brancos e héteros são a nova chacota dos stand-ups brasileiros

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Vez ou outra, grandes nomes do stand-up viram alvo de uma enxurrada de críticas e, no lugar das risadas, inspiram grandes revoltas em massa. Não é mera coincidência que a lista de comediantes que já foram chamados de machistas, racistas, LGBTfóbicos, capacitistas, gordofóbicos, ou simplesmente desrespeitosos, é extensa. Nos últimos tempos, porém, há outros tipos de piada ganhando espaço nos palcos de stand-ups brasileiros.

Exemplo disso é o mais novo espetáculo do Clube Barbixas de Comédia, em São Paulo. Com estreia nesta sexta (17), "Palco das Bixas" é um compilado de piadas que zombam de heterossexuais e de pessoas cisgênero --aquelas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído no nascimento.

Semelhante a essa proposta, também são os stand-ups de comediantes como Yuri Marçal, que roda o país debochando de pessoas brancas, e Bruna Louise, que sobe aos palcos com piadas feministas que caçoam de homens.

O sucesso de Marçal começou no YouTube, anos atrás, com a viralização de vídeos sobre religiões de matriz africana, racismo, sexo e anedotas em que brancos são sinônimo de chacota.

No fim do mês passado, o influenciador se tornou o primeiro humorista a fazer um stand-up solo no palco do tradicional Theatro Municipal de São Paulo, onde apresentou "Nem se Minha Vida Dependesse Disso", e há poucas semanas entrou para o catálogo da Netflix, com "Ledo Engano", transformando episódios de racismo vividos pelo carioca em relatos engraçados cheios de zoações sarcásticas sobre gente branca.

Já Louise ganhou fama nos próprios palcos de stand-up, apresentando piadas que tocam em temas como relacionamentos, sexo e machismo. E assim como o carioca, a atriz também faz sucesso nas redes --vídeos com trechos de seus shows são compartilhados aos montes no YouTube, no Instagram e no TikTok.

Muitas das piadas da curitibana fazem da figura masculina --sobretudo, aquela que torce o nariz para o feminismo-- uma grande chacota. Num vídeo viral, por exemplo, a atriz aparece caçoando de homens antifeministas e aponta contradições no discurso deles. "Os caras falam: 'vocês querem direitos iguais, mas se alistar no Exército vocês não querem'. Vocês também não querem. Pegam dispensa inventando fimose", afirma no espetáculo.

Ela também zomba de homens que não fazem suas parcerias sexuais chegarem ao orgasmo. "Tem gente que reclama [desse tipo de piada], mas enquanto o sexo for falocêntrico, vou continuar", diz Louise, que é a primeira mulher brasileira a lançar um solo de stand-up na Netflix, com "Demolição", que chega à plataforma no próximo dia 22.

"A nova geração de stand-up brasileiro tem premissas muito diferentes das da década passada. Prova disso é que sinto uma dificuldade imensa para mostrar para algumas pessoas que o stand-up vai além de piadas machistas", comenta a atriz, em referência à má fama que o gênero tem em algumas bolhas sociais.

Ainda assim, Louise defende que "o humor não tem limites" e argumenta que "basta não assistir" ao que não lhe agrada. "Dizer o que é, ou não, ofensivo é muito sensível." Não é à toa que o próprio humor da curitibana incomoda algumas pessoas, que, segundo ela, fazem comparações entre as piadas dela e aquelas que são consideradas machistas.

Mas aos olhos de Louise esse tipo de comparação é raso e pouco consistente, já que piadas que caçoam de grupos socialmente privilegiados são como uma "revanche dos oprimidos" e servem como alerta sobre a importância de combater tais estruturas de poder.

Para a historiadora Thaís Leão Vieira, coautora do livro "Além do Riso: Reflexões Sobre o Humor em Toda Parte", stand-ups lidos como machistas, racistas, LGBTfóbicos necessitam de uma interpretação mais complexa, que não os reduza a meras violências sociais.

"Muitas vezes, essa produção humorística, não está numa perspectiva de rebaixamento, mas sim de hipérbole. O humorista exagera, usa ironia e imita o que está calcado no real", diz ela. "Nem toda piada sobre homossexuais, negros e mulheres é homofóbica, machista e racista. Piadas são códigos culturais."

Vieira explica que nomes como Chico Anysio, Jô Soares, Juca Chaves e Ary Toledo --considerados pioneiros nacionais daquilo que desembocaria, em meados dos anos 90, no que hoje conhecemos como stand-up-- têm uma cartela cheia de piadas que, na atualidade, poderiam ser vistas por muitos como "um desserviço" a certas lutas sociais, mas não devem ser analisadas descoladas do contexto cultural.

A historiadora ressalta, porém, que isso não significa que tais piadas não fossem, necessariamente, problemáticas e enfatiza que o importante é analisar as circunstâncias em que são feitas, assim como as intenções dos humoristas que as fazem.

Quanto à expansão brasileira dos stand-ups que zombam de brancos, homens, heterossexuais e pessoas cisgênero, Vieira crê que a grande novidade é a crescente pluralidade dos comediantes, o que também está ligado à produção humorística digital. Além disso, ela vê que esse tipo de humor vem acompanhado das discussões contemporâneas que rodeiam os assuntos e lutas em questão.

Um dos idealizadores de "Palco das Bixas", Rô Vicente, que é uma pessoa não binária --isto é, não se identifica estritamente com os gêneros feminino ou masculino--, conta que ingressou no stand-up por causa de sua militância LGBTQIA+ e que acha "engraçado ver a reação das pessoas" diante de deboches feitos a brancos, homens, cis, ou héteros.

"Já vi pessoas da plateia que não gostam das piadas, levantam e vão embora", diz ele. "Mas acontece."

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