Por que foi necessário falar tanto de gordofobia em 2020?

Ativistas e influenciadores gordos ganharam visibilidade em 2020 (Foto: Reprodução/Instagram)
Ativistas e influenciadores gordos ganharam visibilidade em 2020 (Foto: Reprodução/Instagram)

Chegamos ao fim de 2020 com a certeza de que enfrentamos nos últimos meses situações muito atípicas e inéditas. A pandemia de covid-19 e a necessidade do isolamento social nos privou da liberdade em criar a nossa própria rotina. Nos movimentamos menos, mudamos hábitos, utilizamos mais o meio digital, e, certamente nosso corpo e mente estão diferentes.

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Uma das preocupações expostas por conta do isolamento foi o medo em engordar. Academias passaram boa parte do ano fechadas, as pessoas comeram mais por ansiedade ou por estarem mais tempo em casa. Roupas deixaram de servir, tratamentos estéticos foram interrompidos e os corpos mudaram. Com tudo isso algo ganhou mais voz nas redes sociais: o combate à gordofobia.

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O ano de 2020 evidenciou a voz de ativistas e influenciadores que tentaram, muitas vezes bem-sucedidos, mostrar que está tudo bem ser gordo e que não temos o direito de comentar ou opinar sobre o corpo do outro. Reeducar uma sociedade e ‘normalizar’ o corpo gordo não foi tarefa fácil, mas a pauta se fez necessária.

Em clima de retrospectiva, o Yahoo! destaca alguns episódios de 2020 em que se fez necessário ensinar o beabá contra o preconceito ao corpo do outro:

Modelo Nyome Nicholas
Modelo Nyome Nicholas

Instagram entendeu!

Até mesmo a rede social de fotos mais popular do mundo entendeu em 2020 que era preciso mudar suas regras. O Instagram deu um passo importante contra a gordofobia e mudou sua política sobre a exibição parcial dos seios. A plataforma tomou a decisão após uma campanha ganhar forças pedindo que fotos de mulheres gordas deixassem de ser censuradas.

Tudo começou após a modelo Nyome Nicholas-Williams postar uma foto em que aparecia segurando e cobrindo parcialmente os seios. A foto seguia uma pose comum de fotos artísticas femininas, mas a imagem foi removida pelo Instagram, que alegou 'nudez e pornografia', algo contra suas regras.

Com isso, a campanha #iwanttoseenyome (eu quero Ver Nyome) surgiu e um abaixo-assinado online reuniu mais de 22 mil assinaturas. O Instagram confirmou que o caso da influenciadora e modelo serviu como incentivo para que eles revisassem suas políticas sobre imagens que mostrem, ainda que de forma parcial, os seios. A nova orientação requer avaliação de conteúdo, tanto da tecnologia quanto de pessoas. Quando houver dúvidas, o conteúdo será mantido.

Drea Costa, praticante de pole dance que criou o 'Pole Gordas' (Foto: Divulgação)
Drea Costa, praticante de pole dance que criou o 'Pole Gordas' (Foto: Divulgação)

O pole dance aguenta sim!

O Yahoo! trouxe em 2020 uma matéria reforçando que não é cabível o preconceito contra mulheres gordas nas atividades físicas, como por exemplo o pole dance. Um coletivo chamado 'Pole Gordas' foi criado neste ano para incentivar meninas que tem dificuldade em encontrar referências fora do tal 'corpo padrão' na prática do pole dance.

A instrutora Andrea Costa e mais outras duas mulheres do ‘Pole Gorda’, conversaram com o Yahoo e relataram momentos de insegurança e medo de críticas ao decidirem se entregar ao pole dance. Porém, algo em comum serviu de motivação para elas: a vontade de provar que sim, a mulher gorda pode tudo.

Reforçando a força das redes sociais em 2020 e a pauta 'combate à gordofobia', as três mulheres entrevistadas usam a hashtag #PDGordas no Instagram para que outras mulheres também encontrem referências nas redes sociais.

Engenheiro recria publicidade de cuecas da Calvin Klein (Foto: Reprodução/Instagram @ricardosfreire / Calvin Klein)
Engenheiro recria publicidade de cuecas da Calvin Klein (Foto: Reprodução/Instagram @ricardosfreire / Calvin Klein)

Homens também usaram sua voz:

O engenheiro Ricardo Sfeir deu um show de representatividade em 2020. Os abdômens trincados e os corpos magros representados em grande parte das publicidades de roupa íntima masculina nunca fizeram com que ele se identificasse. Pensando nisso, o paulista teve a ideia de pegar campanhas famosas da marca Calvin Klein e recriar fotos usando o seu corpo – considerado como ‘fora do padrão’ – para mostrar que o homem gordo também pode posar de cueca.

A ideia foi tão boa que as imagens viralizaram no Instagram e foram notadas pela própria marca que comentou as imagens aplaudindo a iniciativa.

Em conversa com o Yahoo, Ricardo explicou que escolheu a Calvin Klein justamente por saber que a marca já explora a diversidade, inclusive com uma linha plus size feminina. Ele diz, no entanto, que sonha em ver um homem gordo representado. E conseguiu, já que a marca resolveu fazer fotos com ele para as redes sociais.

Alexandra Gurgel (Foto: Reprodução/Instagram @alexandrismos)
Alexandra Gurgel (Foto: Reprodução/Instagram @alexandrismos)

'96% das mulheres do mundo estão infelizes com o corpo'

Alexandra Gurgel, criadora do Movimento Corpo Livre, atingiu 1 milhão de seguidores no Instagram em 2020. A marca é mais uma conquista ao combate à gordofobia neste ano.

A jornalista e influencer, que já passou por dietas malucas e cirurgias plásticas em busca do corpo perfeito, participou de uma live com o Yahoo! e explicou quando foi que sua 'ficha caiu': “Sei que muita gente acha que tem algo errado em seu corpo. Eu, com 9 anos de idade, descobri que eu era gorda e que isso era feio, e que deveria fazer algo para que meu corpo fosse atraente. O bonito era ser magro. Mas depois de muitas loucuras e de uma luta para ter o corpo perfeito, li o livro 'O Mito da Beleza', de Naomi Wolf, e fui entendendo como as 'imagens de beleza feminina' foram criadas para controlar a gente. Aquilo me deu tanta raiva. Foi quando minha ficha caiu. Se estamos infelizes é sinal que o patriarcado está funcionando".

Alexandra contou mais sobre sua ‘libertação’ dos padrões e de como fundou o Movimento Corpo Livre. “Criei um canal para falar desse 'mito da beleza'. Na época me chamavam de louca. 'Como é que você está falando disso? Apologia a obesidade'. O Movimento Corpo Livre surge neste momento que é importante entendermos que 96% das mulheres do mundo estão insatisfeitas com o próprio corpo. Temos um dado do Brasil, acho que de 2013, que diz que 92% das mulheres brasileiras estão infelizes com o próprio corpo.”

Provando que ‘combate à gordofobia’ se fez necessário em 2020, temos o exemplo do próprio Movimento Corpo Livre. Ele esteve presente em matérias tanto no ‘Fantástico’, da TV Globo, quanto em uma das revistas de moda mais ‘glamourizadas’ do mundo, a Vogue.