Por que ficamos presos em relações tóxicas?

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Por que ficamos presos em relações tóxicas. Foto: Getty Images

As relações interpessoais podem ser uma grande fonte de apoio e alegria, mas também podem acabar provocando conflitos e mal-estar constantes. Afinal de contas, os laços que dão sustentação também prendem. Quando esses laços afetivos são muito fortes, perdemos a perspectiva e a objetividade. Fica difícil perceber quando a relação está tomando o rumo errado, por isso, podemos acabar presos em relações prejudiciais, que acabam com o nosso bem-estar.

Por que continuamos em relacionamentos que nos machucam?

  • O medo da solidão

Muitas pessoas têm medo da solidão e do silêncio, e não são capazes de imaginar a vida sem a companhia de alguém. Esse medo se reflete nas decisões que tomam em suas relações: são menos seletivas e se conformam com relações amorosas pouco satisfatórias, como constatou uma pesquisa da Universidade de Toronto.

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Em muitos casos, esse medo da solidão vem do costume. Depois de anos de convivência, é compreensível que seja praticamente impossível imaginar a vida longe da outra pessoa, chegando ao ponto da desorientação. É difícil escapar dessa dependência emocional. Esquecemos que todos nascemos inteiros, não precisamos de uma cara-metade.

No entanto, o medo da solidão é um dos piores motivos para aguentar relações que já perderam a razão de ser e que já se tornaram prejudiciais. Continuar em uma relação só por causa da perspectiva ameaçadora e insuportável da solidão é um caminho certo para a insatisfação permanente. Nenhuma relação baseada no medo pode ser satisfatória nem promover o desenvolvimento.

  • A falta de autoestima

Aceitamos o amor que achamos que merecemos, nem mais nem menos. Por isso, as pessoas com baixa autoestima são mais propensas a permanecer em relações tóxicas. Segundo a Teoria da Troca Social, o ser humano costuma procurar relações que ofereçam mais recompensas do que angústias. No entanto, é a autoestima que define as expectativas de cada pessoa em relação a um relacionamento.

Uma pesquisa realizada na Universidade da Carolina do Norte comprovou que as pessoas que se consideram mais atraentes, com maior autoestima, têm parâmetros mais altos e esperam mais das relações. No entanto, as pessoas com baixa autoestima têm expectativas mais baixas em relação aos relacionamentos e estão dispostas a dar mais e receber menos.

Quando uma pessoa acha que não merece amor e respeito, acaba condenada a um ciclo tóxico. Quanto mais machucada, menor a autoestima e a disposição de procurar uma relação mais satisfatória. Assim, essa pessoa começa a viver em uma profecia autorrealizada, que vai eliminando pouco a pouco a esperança e a confiança na possibilidade de alcançar a felicidade.

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Por que continuamos em relacionamentos que nos machucam? Foto: Getty Images
  • O pessimismo nas relações

Quando uma relação se transforma em tóxica e começa a provocar mais mal-estar do que bem-estar, mais cedo ou mais tarde é normal questionar se vale a pena continuar. É o momento de pensar em outras relações para se sentir melhor.

Quando existe uma alternativa melhor no horizonte, é mais provável que a pessoa termine o relacionamento. No entanto, quando todas as opções parecem piores, é mais provável que a pessoa continue no relacionamento, mesmo que a situação seja ruim. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Ohio com mais de 200 mulheres em relacionamentos abusivos revelou que aquelas que pensavam que não tinham alternativa eram mais propensas a permanecer nessas relações tóxicas.

O problema é que a baixa autoestima vai longe. A falta de amor-próprio gera uma visão pessimista, que dá a impressão de que não existem alternativas ao relacionamento atual. As pessoas se apegam à toxicidade, entram em um estado de desamparo e acabam pensando que o relacionamento atual, mesmo que seja ruim, é a única possibilidade.

  • A aversão à perda

Todo mundo tem aversão à perda. A ciência já constatou que nossa aversão à perda é duas vezes maior do que o desejo de ganhar. Quando investimos tempo, recursos e/ou esforço em uma relação, a aversão à perda é tão intensa que pode gerar decisões ruins, aumentando ainda mais os problemas e a tristeza.

Uma pesquisa realizada na Universidade de Miño com mais de 1.000 pessoas comprovou que investir tempo, esforço e dinheiro em uma relação amorosa aumenta a probabilidade de manter essa relação. Sem dúvida, ter uma casa, filhos ou um projeto de vida compartilhado é como uma âncora.

Portanto, quanto maior o investimento em uma relação amorosa, maior é o esforço para tentar fazer as coisas funcionarem e não terminá-la. Isso pode criar um ciclo tóxico que aumenta os conflitos, os ressentimentos e as decepções. A ideia de não desistir acaba sendo prejudicial e nos impede de perceber que, quando permanecemos em relacionamentos fadados ao fracasso, em vez de "recuperar" o investimento emocional, só perdemos a tranquilidade e a estabilidade psicológica.

  • O apego ambivalente

As decisões que tomamos em nossos relacionamentos costumam ser muito influenciadas pelas emoções. Raramente vêm de uma deliberação racional. Portanto, um dos principais motivos que nos levam a permanecer em relacionamentos tóxicos é justamente o amor e o apego.

Um relacionamento prejudicial geralmente não é completamente tóxico, mas oferece reforço intermitente. Em outras palavras, as discussões e humilhações são alternadas com carinhos e momentos de alegria ou intimidade. Esses reforços inconsistentes costumam ser suficientes para alimentar o amor ou a esperança de que a outra pessoa mude, e nos prendem a relacionamentos que fazem mais mal do que bem.

Quando essa dinâmica é estabelecida, o alinhamento entre os componentes afetivos, cognitivos e comportamentais é rompido. Às vezes, surgem pensamentos negativos sobre o relacionamento, que nos alertam sobre a situação. No entanto, nos momentos positivos, voltamos a sentir amor e esperança. Então, surge um conflito ambivalente. Por um lado, temos consciência de que a relação é prejudicial, mas por outro, existe um forte vínculo afetivo que permanece. Na verdade, está provado que os seres humanos costumam ter sentimentos ambivalentes em relação às pessoas mais importantes de suas vidas.

O teste dos cinco “As” para detectar relações tóxicas

Se não estiver totalmente satisfeito com uma relação e suspeitar que ela pode ser tóxica, você pode fazer o "teste dos cinco As", criado pelo psicoterapeuta David Richo.

Atenção. Seu companheiro dá atenção suficiente a você? Compartilha seu tempo, energia e esforços? Faz você se sentir importante?

Afeto. Seu companheiro está sempre atento às suas necessidades? Você sente o amor dele? Existe intimidade e proximidade emocional? A relação gera sentimentos positivos de alegria, gentileza e gratidão?

Apreço. Seu companheiro valoriza o suficiente suas qualidades positivas? Sente que tem sorte por ter encontrado você? Demonstra gratidão e consideração por tudo o que você faz por ele?

Aprovação. Seu companheiro incentiva a sua autenticidade? Permite que você expresse seus desejos, ideias ou necessidades sem julgamento, desprezo ou piadas? Você se sente à vontade para demonstrar sua verdadeira personalidade na relação?

Aceitação. Seu companheiro te aceita do jeito que você é, com todas as virtudes e defeitos? Respeita você? Apoia, incentiva e valida suas emoções quando você mais precisa? Você sabe que sempre pode contar com ele?

O relacionamento deve atender às necessidades emocionais da pessoa e fazer com que ela se sinta especial, amada e respeitada. Quando um relacionamento é sufocante e, depois de várias tentativas, não há mudanças positivas, a ideia mais sensata é explorar novos horizontes. Em vez de insistir em um vínculo tóxico, é melhor considerar abrir mão de tudo o que é prejudicial.

Depois de passar muito tempo como espelho de outra pessoa, ficamos exaustos emocionalmente e talvez esse seja o momento de colocar um ponto final ou pelo menos de virar a página. É claro que, para terminar um relacionamento, é necessário assumir certos riscos, além de encarar a incomodidade da incerteza. No entanto, tudo vale a pena para alcançar a paz interior e a felicidade.