Por que Fayga Ostrower, pioneira da gravura, era um exemplo a não ser seguido

CAROLINA MORAES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pouco depois de Fayga Ostrower levar o prêmio nacional de gravura na 4ª Bienal de São Paulo, o crítico Mário Pedrosa afirmou, em 1957, que a artista era "o ponto nevrálgico da atual gravura brasileira". Ele complementa esse reconhecimento da importância da gravadora no cenário nacional com um aviso. "Fayga é forte, caminha por si só, sabe o que faz. Mas seu exemplo não é para ser seguido." Isso porque a polonesa de família judia, que desembarcou no Rio de Janeiro com 13 anos de idade, em 1934, acabava de romper com a gravura figurativa, predominante na época, para criar obras abstratas -que renderam a ela, um ano depois, um prêmio na Bienal de Veneza. Essa ruptura na carreira da artista e sua formação são revisitadas em "Fayga Ostrower - Imaginação Tangível", retrospectiva com 130 trabalhos da artista que fica até o dia 31 de maio na Estação Pinacoteca, em São Paulo. "A maioria das obras são do próprio acervo da Pinacoteca. A ideia foi, a partir dessa coleção, eleger as que mostrassem essa trajetória desde seus primeiros anos, em que ela era autodidata", conta Carlos Martins, que é curador da exposição e acompanha o trabalho de Ostrower desde 1983. A carreira dela começa com pequenas gravuras em linóleo, várias delas baseadas em histórias da literatura brasileira. A criação de cenas de "O Cortiço", por exemplo, que chegaram a ilustrar uma edição de 1948, era como um exercício para a artista, afirma Martins. "As gravuras que ela fez no início da carreira foram para criar seu repertório a partir dessas narrativas", afirma. Mesmo que não tenha feito essas ilustrações como encomenda, Ostrower publicou algumas delas e contribuiu com jornais da época --suas gravuras também apareceram em livros de Mário de Andrade e Cecília Meireles. A artista, que morreu em 2001 e completaria cem anos em 2020, abandona essas figuras na década de 1950 para entrar na fase que deu a ela reconhecimento internacional. Nas palavras de Carlos Martins, ela aos poucos foi eliminando "a narrativa, a cena, os personagens, as árvores" e a "estrutura alcançava outro valor compositivo". Nas palavras da própria artista, "abandonei os motivos figurativos limitados em seu aspecto formal, em favor de motivos abstratos que proporcionam maior liberdade de invenção de riqueza visual". São dessa fase, e fazem parte da mostra na Pinacoteca, as gravuras que deram a ela o troféu em Veneza. Um outro marco desse período é a série "10 Gravuras", de 1956 --cinco delas também estão expostas ali. Entre esses dois períodos, há a produção que ajuda a perceber a passagem rumo às gravuras abstratas, com tecidos. Pela primeira vez uma seleção delas é exibida ao público. São estampas criadas com linhas, rabicos, zigue-zagues e cores distintas que ela começa a fazer em 1951. Segundo Martins, a liberdade para a qual ela caminha com seu trabalho já é perceptível nessas peças. "A arte brasileira era figurativa, tanto a direita quanto a esquerda não aceitavam a abstração", afirma Martins. "O Goeldi questionou isso ao entrar na abstração", lembra o curador sobre o artista reconhecido como o maior gravurista do país. Martins acrescenta que o segundo problema que ela enfrentou para seu trabalho ser aceito era trabalhar com gravura. "Na década de 1940, ela não era tida como arte. Era uma arte secundária", afirma. Mesmo tendo iniciado sua carreira aprendendo técnicas de impressão por conta própria, Ostrower chegou a estudar com o austríaco Axl Leskoschek, que formou artistas como Ivan Serpa e Edith Behring, e também cursou artes gráficas na Fundação Getúlio Vargas, formação que só durou oito meses na instituição. A Pinacoteca exibe os pequenos cadernos em que Ostrower registra suas gravuras, acompanhadas de anotações técnicas --dos quatro algarismos, os dois primeiros indicam o ano em que a matriz foi gravada, e os dois últimos mostram a ordem da realização naquele ano. Além de dar aulas e escrever livros, Ostrower dominou técnicas diversas ao longo da carreira da gravadora --em 1970, a serigrafia, a litografia e a aquarela, além da xilogravura, já fazem parte de seu repertório. É possível ver a própria artista explicando alguns desses métodos numa das três entrevistas em vídeo com ela que são exibidas na exposição. "Procuro conhecer a aquarela assim como pesquiso a serigrafia, o desenho. Cada técnica tem possibilidades e impossibilidades", diz a artista em 1977. "É importantíssimo conhecer as impossibilidades e respeitar." Conheça algumas técnicas das obras de Fayga Ostrower Gravura A imagem é impressa em suportes como papel e tecido com uma matriz, que pode ser feita de diversos materiais, como madeira ou metal Xilogravura Neste processo, a matriz usada é a madeira, que é desbastada pelo artista até que se forme o relevo da imagem Linoleogravura A técnica é similar à da xilogravura, mas a matriz é com uma espécie de material emborrachado Litografia Esse procedimento de reprodução é feito com uma pedra calcária, que recebe o desenho a ser impresso Serigrafia Na superfície, que pode ser uma tela, por exemplo, fica em aberto apenas a imagem que será impressa, por onde a tinta espalhada vaza Ponta-seca Técnica em que o gravador faz o desenho diretamente na chapa de metal Talho-doce ou buril A ferramenta também grava diretamente na chapa de metal, mas tem uma incisão mais profunda Água-forte Neste procedimento para se gravar na chapa de metal, a matriz é coberta por um verniz impermeabilizante e o desenho é gravado com a ponta-seca. Isso expõe o metal, que será gravado com um ácido Fonte: Pinacoteca * FAYGA OSTROWER - IMAGINAÇÃO TANGÍVEL Onde: Estação Pinacoteca. Largo General Osório, 66 - Santa Ifigênia Preço: Gratuita, com reserva pelo site www.pinacoteca.org.br