Por que estamos tão preocupados com o peso de Cleo Pires?

A atriz e cantora falou sobre o body shaming que tem sofrido e vamos além, lembrando como comentários sobre a aparência afetam a autoestima de uma pessoa (Foto:Reprodução/Instagram@cleo)

Em um momento quando o autocuidado parece estar em alta, pensar em body shaming parece coisa do passado. Mas, acredite, o hábito de criticar mulheres por causa do seu corpo segue vivo.

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No último domingo (6), a atriz Cleo Pires participou do 'Fantástico', da Globo, e comentou sobre a sua relação com o próprio corpo. Ela, que ganhou peso recentemente, tem recebido uma série de críticas nas suas redes sociais por conta da nova forma - e levantou a bola, mais uma vez, de como as mulheres ainda são definidas e julgadas pelo corpo que têm.

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"Para mim, é pressão estética. É quando você é julgada de forma agressiva, profunda e que machuca, por causa da forma como você está parecendo, pelo seu corpo, pelas suas roupas, se você engordou, se você emagreceu", explicou ela durante o programa dominical.

Com mais de 11 milhões de seguidores no Instagram, Cleo viu surgir nos comentários das suas postagens comentários dos mais variados, incluindo alguns falando sobre como ela está "deformada" e é uma "mulher horrorosa".

"A minha cara tá muito mais inchada, eu tô diferente, de fato", disse ela. "Eu tava diferente, eu tinha ganhado peso - eu achava que eram dez quilos, mas eu tava 20 quilos a mais. Obviamente você vai mudar. Qual é o problema? Não é normal ser pressionada, julgada dessa forma, por causa da sua aparência".

Também durante a conversa, Cleo comentou que receber esse tipo de comentário sobre a sua estética é algo que dói. "Eu não estou imune a esse tipo de coisa. Eu não conheço alguém que não se importa quando tem uma enxurrada de gente falando sobre você, dando opinião sobre a sua vida, sem nem saber quem você é de verdade. E tudo bem também você ficar mal, faz parte do processo, da vida".

Body Shaming e autoestima

Ter sensações de tristeza e dúvidas sobre si mesmo pode parecer algo normal da vida, mas não significa que receber esse tipo de ataque seja. Ao longo do tempo, já vimos tantas outras mulheres serem publicamente humilhadas por causa da forma física.

A modelo Ashley Graham, um dos nomes mais fortes no movimento "ame o seu corpo", já precisou mais de uma vez rebater comentários maldosos online feitos sobre a sua aparência.

"Para alguns, eu tenho curvas demais. Para outros, eu sou muito alta, tenho muito peito, falo muito alto e, agora, pequena demais. Muito, mas não o suficiente ao mesmo tempo. Quando eu posto uma foto de um 'ângulo bom', eu sou criticada por parecer menor e me vender. Quando eu posto fotos mostrando a minha celulite, marcas de estrias, eu sou acusada de promover a obesidade. O ciclo de body shaming precisa acabar. Eu estou farta dele", escreveu sobre o assunto em uma newsletter especial de Lena Dunham sobre o assunto.

Uma pesquisa recente feita pelo FitRated mostrou que 93% das mulheres e 86% dos homens já receberam críticas por causa da sua aparência ao longo da vida, o que demonstra o quanto a nossa sociedade ainda coloca a importância de uma pessoa na sua estética.

Isso fica ainda mais claro quando lembramos que um outro estudo, feito pelo Yahoo norte-americano, conclui que enquanto os homens ganham confiança ao longo da vida, as mulheres são acompanhadas por uma visão negativa dos próprios corpos a medida que envelhecem.

No geral, muito dessa visão negativa começa dentro de casa - na relação com os pais e familiares próximos, mas se estende às demais relações ao longo do tempo. Com a internet, porém, é um fato que inseguranças e dúvidas que as pessoas tenham sobre si mesmas são potencializadas quando toda e qualquer pessoa se vê no direito de fazer um comentário maldoso sobre a sua aparência.

Bruna Marquezine também já foi vítima de body shaming, mas por estar magra demais. Inclusive, ela chegou a fazer um grande discurso nos Stories explicando como esse tipo de comentário pode parecer inofensivo para quem faz - afinal, com milhões de seguidores, quem vai se importar com um comentário como esse? -, mas ele pode, sim, ser o gatilho para questões mais sérias, como depressão e ansiedade.

Já existem, inclusive, inúmeros estudos que mostram como esse tipo de comportamento tem um efeito no físico e psicológico das pessoas. Por exemplo, já foi comprovado que uma pessoa que está com um peso considerado acima do normal pelo público não perde peso só porque as pessoas estão falando sobre isso - pelo contrário, esses comentários podem ter um efeito contrário e torná-la obesa.

Ao mesmo tempo, body shaming também podem resultar em quadros de depressão, ansiedade, distúrbios alimentares (tanto em alimentação compulsiva quanto bulimia e até anorexia), baixa auto-estima, entre outros. Uma pesquisa da Universidade de Leipzig, na Alemanha, concluiu também que pessoas obesas tem 21% mais chances de cometerem suicídio, resultado de depressão grave, e que pode ver nesses comentários um gatilho para o ato.

Reverter essa cultura de críticas começa com um exercício de empatia, mas, principalmente, com a busca por ajuda. Tanto de quem recebe esses comentários, quanto de quem os faz. O que eles demonstram é que a visão que as pessoas têm do corpo umas das outras é doente e precisa de uma cura.

"Eu acho que a internet potencializa uma coisa que é muito humana, que é você não lidar com os seus problemas e jogá-los em cima dos outros. E, quando você tá protegido pela internet, ninguém sabe quem você é, aquilo vira quase uma terapia. Se você não tem o mínimo de autoconhecimento e de empatia, você vai e faz isso mesmo. Eu ainda estou num lugar muito privilegiado, eu consigo pagar um terapeuta, e as pessoas que não tem? Eu tenho essa clareza, porque eu tenho essa rede de apoio", finaliza Cleo.