A “magia” da Netflix: por que Cobra Kai só fez sucesso agora

Natália Bridi
·5 minuto de leitura
Cobra Kai: série é o grande sucesso da Netflix em 2020 (Foto: Divulgação)
Cobra Kai: série é o grande sucesso da Netflix em 2020 (Foto: Divulgação)

'Cobra Kai’ já era considerada um sucesso muito antes de chegar na Netflix, mas você provavelmente não sabia disso. A série, que continua as histórias da franquia Karatê Kid pelo ponto de vista de Johnny Lawrence (William Zabka), estreou em 2018 como uma das principais atrações do YouTube Red, o braço por assinatura da plataforma de vídeos destinado a criação e lançamento de conteúdo original.

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O primeiro episódio, disponibilizado gratuitamente, foi visto 5,4 milhões de vezes em apenas 24 horas. No total, o vídeo acumulou 93 milhões de views em dois anos, enquanto o primeiro capítulo da segunda temporada, também liberado gratuitamente, soma 87 milhões de visualizações desde abril de 2019. Ainda assim, a sensação é de que Cobra Kai só se tornou um hit indiscutível em agosto de 2020, quando chegou à plataforma da Netflix. Por quê?

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Apesar de ter sido bem recebida por público e crítica na época do seu lançamento, ainda em 2018 o YouTube decidiu mudar de estratégia, priorizando a produção de conteúdos não roteirizados. A segunda temporada foi lançada e uma terceira produzida, mas a empresa do Google, agora sob o selo YouTube Premium, não pretendia dar continuidade à série.

Isso deixou a produtora Sony TV livre para buscar uma nova casa para o derivado de Karatê Kid — e com uma temporada inédita embaixo do braço, a série se tornou um item cobiçado durante a pandemia. Foi quando a Netflix levou a melhor, oficializando a compra em junho de 2020. Em agosto, as duas primeiras temporadas chegaram ao streaming e, desde então, Cobra Kai explodiu.

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Antes tema de conversa nos nichos especializados das séries e da nostalgia, a produção caiu nas graças do grande público. Com o terceiro ano previsto para janeiro de 2021 e uma quarta temporada já anunciada, a séria foi a mais vista na Netflix em setembro nos EUA, de acordo com os números liberados pelo Reelgood (serviço que unifica plataformas de streaming).

A explicação para essa “explosão” é simples. Apesar do número crescente de concorrentes, a Netflix continua na liderança do mercado das assinaturas de streamings. No ranking da Nielsen, que monitora a audiência desses serviços, isso fica bem claro. Apenas The Boys, que adotou uma estratégia de lançamento semanal na sua segunda temporada pelo Amazon Prime Video, ameaçou essa hegemonia recentemente, figurando em quarto lugar na audiência nos números referentes às primeiras semanas de setembro nos EUA.

Presente em 190 países, a Netflix nem chega a ter a maior presença mundial (o Amazon Prime Video é oferecido em 200 territórios), mas ainda lidera o setor por ter saído na frente em algumas questões essenciais como navegação, acesso à internet e método de pagamento. Em países em que cartões de crédito não são tão acessíveis, por exemplo, a Netflix garante assinaturas por débito em conta e cartões pré-pagos, permitindo uma adesão bem mais democrática do público. Ao longo dos anos, a transmissão do streaming também foi aperfeiçoada para levar a melhor qualidade de vídeo possível independente da franquia de internet, o que também colabora para o serviço continuar no topo.

Logo, além de derivar de uma franquia conhecida e querida pelo público, o fator o que contribuiu para que o hype de Cobra Kai tenha subido tanto recentemente é a facilidade de acesso. Investindo no mercado internacional desde 2010, a Netflix se tornou sinônimo de streaming. “Tem na Netflix?” é o meme habitual para cada recomendação de filme ou série publicada nas redes sociais. A marca ainda é a principal porta de entrada para o consumo legal de mídia online e virou uma espécie de “TV aberta” dos serviços de streaming.

Em 2018, para ver a temporada completa de Cobra Kai, o usuário do YouTube, acostumado ao conteúdo gratuito, precisava se tornar assinante de mais uma plataforma, um esforço que o público não assumiu em grande escala, por maior que fosse o apelo da proposta (que basicamente tornava concreta a trama do episódio "The Bro Mitzvah", de How I Met Your Mother, em que o personagem Barney Stinson afirma que Johnny Lawrence era o verdadeiro herói de Karatê Kid). Em 2020, o já assinante da Netflix só precisa apertar o play, e ainda pode selecionar se prefere ver dublado ou legendado (no YouTube Red só havia a segunda opção).

Lúcifer, outra série “resgatada” pela plataforma, foi cancelada pela Fox pela baixa audiência, mas se tornou um dos grandes hits na sua nova casa. A produção tinha uma boa base internacional de fãs, onde já fazia parte do catálogo da Netflix, e viu o seu apelo crescer depois de ser salva, o que resultou na encomenda de mais temporadas.

Ao mesmo tempo, a Netflix já não é mais um reduto salvador das séries, sendo alvo de protestos fervorosos dos fãs de títulos como 'Anne with an E' e 'Glow' (que teve a sua renovação para uma última temporada revogada por conta dos altos custos gerados pela pandemia). Em artigo da revista Wired, a plataforma afirma que aprendeu a filtrar o barulho da internet para focar nos próprios números, levando em conta principalmente a performance no primeiro mês de exibição e a relação entre custo e audiência. É por isso que muitas séries originais são canceladas na primeira temporada, enquanto títulos que já tinham um público estabelecido têm mais chance de florescer.

Com uma corrida cada vez mais acelerada por conteúdo depois que as empresas proprietárias decidiram lançar as suas próprias plataformas — Disney+ significa Marvel, Pixar, Star Wars, Fox e National Geographic, enquanto HBO Max, ainda sem previsão de lançamento no Brasil, detém exclusividade também das produções da Warner Bros. no catálogo —, o que pode se provar um diferencial é essa combinação de apelo de marca, como no caso de Cobra Kai e Lúcifer, e a preocupação com a experiência do usuário. A conta é simples: quanto mais fácil o acesso, maior pode ser o sucesso.

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