Por que as cicatrizes da violência doméstica nunca desaparecem

A autora, Eden Strong, no centro da imagem, com fotos mais antigas, de quando precisou de cirurgia para reparar seu nariz quebrado. (Foto: Cortesia de Eden Strong)

Foi uma daquelas brigas que começaram simplesmente porque ambos tivemos um dia longo e chegamos em casa de mau humor. Eu estava revirando os olhos enquanto segurava o controle remoto da televisão e me aconchegava no sofá, e meu marido estava sentado na outra ponta, levantando um pouco a voz. A nossa discussão estava começando a entrar em um círculo ridículo de absurdos, mas quando eu suspirei e falei, “Cansei de discutir com você,” ele se levantou. Provavelmente para buscar uma bebida na cozinha ou pegar os nachos que estavam no forno, mas não importava. Ele havia levantado.

Em um segundo, eu estava correndo em direção ao meu quarto e trancando a porta. Eu estava em pânico, surtando, e empurrando a porta fechada com as minhas mãos.

Eu estava esperando pelo que viria a seguir.

O que veio foi uma voz do outro lado da porta, parecendo preocupada e perguntando se eu estava bem. Eu mal conseguia ouvi-la por causa do barulho do meu coração batendo praticamente fora do meu peito, enquanto as lembranças acabavam com a minha capacidade de pensar racionalmente.

Você nunca se esquece de quando apanhou de um homem, e infelizmente para o meu atual marido, eu nunca vou me esquecer do dia em que meu ex quase me matou.

Eu fui casada com meu ex por oito anos, e por oito anos eu tentei escapar. Oito anos de abuso verbal, sexual, mentiras, infidelidade, e, em um ato final de profanação, abandono, quando ele saiu pela porta da frente da nossa casa e desapareceu.

Seis anos se passaram desde aquele dia, e eu fiz muito durante estes seis anos. Escrevi sobre a minha jornada em incontáveis sites, e fundei uma organização sem fins lucrativos para assegurar que outras mulheres nunca precisem passar pelo que eu passei. Estou feliz no meu segundo casamento, e recentemente comecei a dar palestras sobre violência doméstica e abuso sexual. Mas há uma coisa que eu não fiz ao longo destes seis anos: esquecer.

Jamais esquecerei como é estar à mercê de outro ser humano e perceber que ele não tem misericórdia alguma de você.

Nem todos os grupos de apoio do mundo são capazes de fazer alguém esquecer esse momento.

Foto: Cortesia de Eden Strong

Eu tenho cicatrizes que vejo quando me olho no espelho, e tenho uma imagem que costuma assombrar a minha alma; é impossível esquecer aquele rosto que eu vi chorar, ser machucado e reparado cirurgicamente.

Dói saber que aquele é o meu rosto, assim como dói perder a alma.

O número de abusos não importa tanto quanto você imagina, porque um único episódio foi suficiente para mudar a minha vida para sempre. Em um dia eu era alguém que acreditava conhecer, e no dia seguinte era alguém que nunca pensei que seria.

É difícil dar esse salto – ir de conhecer a si mesma, se perder, até se encontrar novamente. Então, quando assisto aos noticiários e vejo mulheres corajosas levantando suas vozes, afirmando que Brett Kavanaugh ou Bill Cosby as machucaram, e as suas palavras são recebidas pelo público com perguntas sobre por que elas esperaram tanto para falar sobre isso, tenho vontade de gritar.

Demorou muito para que eu conseguisse encontrar a minha voz novamente, assim como elas provavelmente demoraram muito para encontrar a delas e conseguir falar abertamente. Não importa quanto tempo passou, o tempo não é capaz de apagar o que aconteceu.

Dois filhos sobreviveram ao meu primeiro casamento junto comigo, outras duas pessoas que ainda estão tentando se curar. Minha filha tem 10 anos e ainda faz terapia. Eu fui a um protesto com ela no começo deste mês, segurando um cartaz pelas ruas e gritando com outras centenas de pessoas. Eu quero que ela consiga tirar algo bom de tudo isso, mesmo que ainda esteja tentando entender o que pode ser.

Meu filho tem 7 anos e quer saber por que alguém bateu na sua mamãe. Ele é pequeno demais para lembrar que também apanhou.

Mas eu me lembro. Eu me lembro de tudo, e é por isso que não consigo dormir se a televisão não estiver ligada. Eu não gosto do silêncio, porque no silêncio ainda me ouço chorando, me escondendo, implorando para ficar bem. Eu amo meu atual marido, mas não gosto que ele fique me observando, vendo o que estou fazendo de muito perto. Não é que eu não confie nele, é que eu não confio em ninguém, porque eu sei que, às vezes, as pessoas nos machucam.

Então, na próxima vez em que você perguntar por que alguém esperou tanto para finalmente se abrir e falar, lembre-se de que esta pessoa simplesmente estava ocupada tentando se curar.

Demora muito para que as feridas se tornem cicatrizes, e mesmo quando elas viram cicatrizes, nunca vão embora. Elas ficam impressas na alma para sempre; você pode aprender a viver com elas, mas nunca se esquecerá de como as ganhou.

Eden Strong