Por que a trama de Britney de 'A Dona do Pedaço' é péssima para a comunidade trans?

Trans das novelas globais (Foto: Reprodução/Instagram)

Por Elisa Soupin (@faleparaelisa)

Quem é noveleiro sabe: há duas transexuais nas telinhas da Globo. No folhetim das nove de Walcyr Carrasco, Glamour Garcia interpreta a jovem Britney. Já em ‘Bom Sucesso’, novela de Rosane Svartman e Paulo Halm, Gabrielle Joie é a adolescente trasnsexual Michelly.

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Comparar as duas personagens é um exercício excelente para entender como uma trama pode ser positiva para a discussão sobre transexualidade, enquanto a outra pode ser um desserviço.

A gente ama a Britney e sua porquinha lady. O problema é que sua trama gira em torno de seu flerte com o Abel (Pedro Carvalho), seu colega de trabalho que não sabe que ela é trans.

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Desde que ela chegou na novela, há três meses, eles flertam, conversam, passeiam, comem juntos, flertam mais um pouco... ele frequenta a casa dela, mas nada. Eles deram um beijinho, meio selinho, e só. O que não faz lá muito sentido em se tratando de dois adultos e considerando que não estamos falando de uma novela de época. Até Fabiana, que, como todos estão cansados de saber, foi criada em um convento, e já está deitando e rolando com Rock (Caio Castro) faz tempo, mas isso é outro assunto.

Foto: Estevam Avellar/TV Globo

Todos os outros personagens da novela sabem, mas, de alguma forma, ele, que é um cara supertradicional, nem desconfia de nada. Parece até piada de português. E o fato dele querer se relacionar com ela ser usado o tempo todo como piadinha e deboche é simplesmente péssimo.

“Em defesa do Abel, ainda há de se entender que não esperam encontrar uma trans no mercado de trabalho formal. Além disso, ela tem passabilidade (quando uma mulher trans passa por mulher cisgênero), você olha e ela é uma menina. As pessoas esperam encontrar uma trans com sombra de barba, voz muito grossa, corpo masculinizado. Também já aconteceu comigo de realmente não perceberem que sou trans. Mas, no caso deles, é estranho, porque todo mundo percebe e ninguém fala nada para ele. Quando, na realidade, no dia a dia, as pessoas no entorno comentam sim”, explica a atriz e ativista transexual Bárbara Aires, que já prestou consultoria para o GNT, ‘Amor e Sexo’ e ‘Fantástico’ sobre as abordagens corretas pertinentes à transexualidade.

Fico muito triste com a abordagem que a novela vem apresentando para a vida amorosa da Britney. Tem um insistente deboche com o interesse dele por ela, que acaba passando a mensagem de que o cara que está com a gente tem motivo para ser ridicularizado. Expõe a nossa classe a uma situação vexatória. Acaba legitimando um pensamento preconceituoso e dando o recado de que se relacionar com uma pessoa trans é motivo para riso e piada, diz Bárbara.

“Ao que tudo indica, eles vão virar um casal, depois do momento de rejeição dele, mas a mensagem passada não é positiva. Se relacionar comigo não é para ser engraçado”, afirma.

Em certo capítulo, em um restaurante, Britney é discriminada por duas clientes na hora de usar o banheiro. A jovem até argumenta, mas se cala para não criar confusão e nem levantar a suspeita de Abel. A trama dela, que poderia explorar e gerar debates sobre diversas situações vivenciadas por pessoas trans, acaba girando apenas em torno do dilema: conto ou não conto pro boy? É legítimo, é uma decisão difícil, mas foi esticado ao ponto do absurdo. Fala sério, Walcyr!

A Michelly de ‘Bom Sucesso’

Já na novela das sete, Michelly é uma jovem transexual empoderada e dona de si, que não se esconde e faz questão de se colocar. “Temos que entender, também, que, diferente da Britney, a Michelly é adolescente e, mesmo com uma diferença de idade que não é tão grande -- algo que deve ser em torno de dez anos -- é fruto de uma geração com mais acesso à informação, mais discussões sobre gênero, sobre feminismo. Ela se coloca muito mais, tem mais propriedade em suas defesas. Em seu cotidiano, ela luta pelo seu direito em ser mulher”, diz Bárbara

Em poucas semanas de novela, a personagem foi vítima de preconceito e alguns debates bem didáticos surgiram. Integrar ou não o time feminino? Ela deve usar o banheiro feminino na escola? São questões reais que atravessam a vivência de pessoas transexuais. Além disso, ela não está em cena apenas para discutir questões pertinentes à transexualidade. Ela é uma pessoa normal, brincando com os amigos, conversando, vivendo: como qualquer pessoa, trans ou não.

“A Michelly é uma personagem muito mais conectada com o momento que vivemos. Acho fantástico uma trans menor de idade. Traz uma discussão positiva de que as pessoas não transicionam só depois dos 18 anos, e como isso pode acontecer desde muito cedo. Ela é uma mulher, briga pelos direitos dela e diz ‘a gente existe, você tem que lidar com a gente, e a gente tem esses direitos’. Estamos aí e vamos brigar pelos nossos espaços. É uma personagem que não se intimida e não se cala frente aos deboches’, conclui Bárbara.