Por que lugar de fala? E por que as pautas identitárias incomodam tanto certa parcela da esquerda?

Marcha das Mulheres Negras, na orla de Copacabana, zona sul da capital. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil


Por Fhoutine Marie*

Volta e meia ressurge na imprensa e redes sociais o debate sobre lugar de fala, pautas identitárias e sobre como essas questões estariam dividindo a esquerda ou seriam responsáveis por criar novas formas de opressão. 

Recentemente esta polêmica ressurgiu com a publicação do artigo “Lugar de fala é instrumento para fascismo identitário”, do antropólogo Antônio Risério, publicado dia 22/12, pela Folha de S. Paulo. Num tom prepotente desde suas primeiras linhas, o artigo afirma que seu objetivo é “colocar o lugar de fala no seu devido lugar”. Para o autor, o conceito de lugar de fala “traz consigo a ânsia autoritária de calar as diferenças”.  

O artigo, que parece ter sido escrito no site Gerador de Trololó, dentre seus muitos absurdos compara os chamados movimentos identitários (a quem se refere como milícias) ao bolsonarismo e afirma que os identitarismo “representa um retorno epistemológico à configuração física do indivíduo”, como se as sociedades ocidentais não nos violentasse justamente com base em estigmas de fácil identificação, como a cor da pele e a genitália. 

São argumentos que em geral costumam ser encontrados em páginas de direita, entre os que defendem a Consciência Humana no lugar da Consciência Negra ou o Igualitarismo no lugar do Feminismo.

Afinal, “somos todos iguais”. 

Infelizmente, para nós, mulheres, negros, indígenas, LGBTQIs e a todos os que são pejorativamente chamados de identitários ainda não dá pra dizer que somos todos iguais, pois a violência do Estado e da sociedade civil nos atinge de forma desigual.

Vivemos em um país em que um homem negro foi executado com 80 tiros diante de sua família. 

Em que crianças negras e pobres são assassinadas a caminho da escola. 

Que jovens periféricos são brutalmente espancados e asfixiados quando saem se divertir com seus amigos. 

Vivemos no país que registra 180 casos de estupros por dia. A maioria das vítimas é do sexo feminino e tem menos de 13 anos. 

Vivemos num país em que os casos de feminicídio não param de crescer e que, em média, mata uma mulher a cada oito horas. Mais da metade das vítimas (61%) são mulheres negras. 

Um país que lidera o ranking mundial de assassinato de transexuais. 

Que registra uma morte por homofobia a cada 23 horas. 

Que registrou de 2018 pra cá o crescimento de 20% de assassinatos de indígenas. 

Temos a terceira maior população carcerária do mundo. Mais de 40% está presa sem condenação. Quase dois terços (64%) dos presos são negros. 

Enquanto isso integralistas e nazistas se sentem à vontade para exibir publicamente símbolos de ódio e nada acontece. O único fascismo identitário existente neste país é a supremacia branca masculina heterossexual e cisgênera. Esta sim tenta não só calar as diferenças, mas eliminá-las fisicamente.

O único argumento sensato do texto, que talvez por isso esteja sendo amplamente compartilhado por pessoas de esquerda, é que a esquerda não é imune ao fascismo. Contudo, o autor, de forma muito problemática, para não dizer desonesta, coloca no mesmo nível coletivos e movimentos sociais e ditadores sanguinários como Pol Pot e Stálin.

Embora concorde que dentro dos movimentos e espaços de militâncias muitas vezes as opressões sofridas pelos chamados identitários possam gerar posturas autoritárias, esta discussão precisa ser feita de forma que não anule os motivos mais do que justos que esses grupos têm para se organizar, nem deslegitimar o sentimento de revolta, tristeza e impotência que nos atinge quando mais um de nós é morto.

Porque vivemos em um mundo que nos trata como se nossas vidas valessem menos. Nós lidamos com uma esquerda institucional majoritariamente branca que deixa esses problemas para depois da eleição ou da revolução, insistindo que o que importa é classe, quando a classe também tem cor, gênero e orientação sexual e são justamente as pessoas mais pobres pertencentes a estes grupos que estão mais vulneráveis a serem violentadas, encarceradas ou assassinadas.

Nós, os “identitários”, temos todos os motivos para estarmos furiosos porque nos estão matando. 

Não há dentro da esquerda institucional uma postura de enfrentamento firme destes problemas, que são facilmente negociados em troca de alianças eleitorais. 

Comparar coletivos e movimentos sociais ao fascismo é ofensivo, cruel e desonesto porque, em primeiro lugar, essas minorias não possuem poder político e nem recursos materiais para oprimir. 

Isso é argumento de quem acredita em ditadura gay, racismo reverso, chama mulher de feminazi, entre outras barbaridades e não deveriam sequer ser considerado por quem se supõe de esquerda ou minimamente progressista. 

Porque estes grupos não estão lutando para formar milícias e exterminar o homem branco cis hétero e/ou a civilização ocidental, mas por educação, políticas públicas, para ter acesso a emprego e renda, ser tratado como gente ou, no limite, para permanecerem vivos.

Existe uma falta de compreensão muito grande sobre o conceito de lugar de fala -- que, ao contrário do que se supõe, não visa impedir que pessoas que não sofrem uma opressão sejam impedidas de falar. 

Não se trata de dizer quem tem a exclusividade para falar sobre machismo, racismo, homofobia e transfobia, mas sim de reivindicar que possamos falar nós mesmos sobre a violência estrutural que nos atinge. 

Aos amigos de esquerda que consideram o debate necessário, deixo o convite que tomem contato com a produção de feministas negras como Lélia González, Angela Davis, Patricia Hill Collins, Audre Lorde, bell hooks. 

Porque este debate existe há algumas décadas; ele só não está sendo acessado por uma esquerda que organiza fóruns e publicações sobre o futuro da política e esquece de convidar as pessoas em situação de maior vulnerabilidade neste contexto de ascensão da direita (e que não estavam muito bem sob os governos de centro-esquerda).

Se temos um posicionamento de esquerda e/ou progressista é imprescindível refletir sobre o quanto esses argumentos que falam de fascismo identitário não coincidem com as posicionamentos de uma direita que diariamente ataca os movimentos feministas, negros, indígenas, LBGBTQIs tratando-os como se algo monolítico, sem considerar (ou se informar sobre) as enormes diferenças de perspectivas que existem no bojo desses movimentos. 

Porque, ao fazer isso, pode-se estar reproduzindo preconceitos e estigmas, ainda que de forma involuntária. Também é importante pesquisar sobre os autores das “polêmicas” que compartilhamos, uma vez que uma rápida pesquisa na Internet mostra o conteúdo extremamente racista e misógino presentes na produção deste autor.

O conceito de lugar de fala - que em momento algum quer restringir a fala de ninguém, mas sim reivindica a escuta para aqueles que sempre tiveram suas vozes silenciadas - incomoda tanto porque coloca em xeque o privilégio (branco, masculino, heterossexual e cisgênero) de falar sobre situações e problemas que não se vive e não se tem o mínimo de conhecimento. 

Porque convida a conhecer a produção intelectual destes grupos a quem chamam de identitários, a sair do comodismo de quem supõe já saber tudo, mas apenas reproduz a perspectiva de homens brancos europeus de dois ou mais séculos atrás. 

Porque toca numa ferida narcísica da branquitude, acostumada a falar por todos e ter sempre razão. 

Não faltam pesquisas científicas, artigos acadêmicos, livros e ensaios sobre o tema. Basta falar menos e estar mais disposto a aprender.

*Fhoutine Marie, nossa autora convidada, é feminista, negra e doutora em Ciência Política.