Por que a morte de Paulo Gustavo nos comove mais que outras por covid-19?

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Por Jonathan Pereira

Todos os dias, há mais de um ano, o noticiário traz as milhares de mortes pelo Brasil causadas pela covid-19. São mais de 400 mil mortos, vítimas da doença. Uma, em especial, mexeu com os brasileiros: a do ator Paulo Gustavo, 42, que foi vencido pela doença após 50 dias internado.

Desde que deu entrada no hospital, o que se viu nas redes sociais e na TV foram os amigos famosos com mensagens positivas, correntes de orações torcendo por sua recuperação. Anônimos também se sensibilizaram, acompanhando as notícias sobre seu estado de saúde e lamentando agora em peso sua partida.

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Mas por que, em meio a tantas mortes noticiadas diariamente há mais de um ano, a de Paulo Gustavo mexeu tanto com as pessoas?

O ser humano tende a sentir compaixão quando a dor é em alguém que conhece. Paulo Gustavo pode ser considerado aquele amigo engraçado que milhões de pessoas receberam em casa por anos, fosse por meio de personagens em programas do Multishow, pequenas participações em seriados globais ou nos filmes que fez.

O ator é recordista de bilheteria no cinema com as sequências de “Minha Mãe é uma Peça” (o terceiro, por exemplo, ultrapassou 11 milhões de espectadores e é o segundo filme brasileiro com mais ingressos vendidos no país). Atrair multidões para ver um longa nacional no cinema é um feito de poucos, como Xuxa ou Os Trapalhões em décadas passadas.

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"Rir é um ato de resistência"

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Paulo Gustavo era então aquela alma leve que vinha alegrar a casa com seu bom humor, uma boa visita, com quem gostava-se de passar algumas horas dando risada. Tão bom que nos fazia acreditar piamente que a Dona Hermínia do filme tinha vida própria, e não ele vestido de mulher.

Sua sexualidade - um homem gay - também foi bem aceita, em um país que ainda olha torto para os LGBTQi+. O fato de ser casado com um homem (Thales Bretas) desde 2015 e ter dois filhos – Romeu e Gael, de 1 ano e 9 meses – por meio de barriga de aluguel não incomodou a “família tradicional brasileira”. O carisma venceu. Um feito e tanto, pois sabemos que se assumir para um país homofóbico, e ainda assim manter a carreira e fazer sucesso é raro mesmo em 2021.

Quais gays seguem rejeitados por familiares, amigos e mercados de trabalho? 

Outro fator que pode explicar a comoção causada é a individualização da dor: quando as pessoas recebem números gerais, tendem a não ter ideia da dimensão do que é/foi. Mas se tudo isso é sofrido por quem gera alguma empatia, sensibiliza.

Um exemplo é o que os negros sofreram ao longo de séculos: todos aprendem durante anos na escola sobre o período escravocrata, mas encaram com certa frieza, como algo que foi assim e pronto - e não é e nem nunca será. Quando os absurdos do período são individualizados em Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) no autobiográfico “12 Anos de Escravidão” (2013), vencedor do Oscar de melhor filme, causa incômodo e reflexão: “como pôde ser assim?”, “que sofrimento”, “quanta dor foi causada”, pensa quem assiste, torcendo para que a personagem consiga se livrar disso. O racismo precisa ter fim e sua naturalização.

O sofrimento de Paulo Gustavo causou a mesma sensação de incômodo e mostrou que a covid-19 não escolhe vítimas: ricos, pobres, famosos, anônimos, jovens, velhos, todos estão sujeitos a se infectar e ter complicações ou ficar assintomático, numa roleta russa ainda não desvendada pela ciência. E que é preciso ter cuidado, preciso ter gestão para lidar com epidemias, é preciso ter vacina. 

Entre os mais de 400 mil que perderam a vida, outros famosos foram vencidos pela doença, como Nicette Bruno, Agnaldo Timóteo e Genival Lacerda, mas até agora nenhum tinha conseguido o impacto de mexer com tanta gente como Paulo Gustavo.

Sua triste partida causa a sensação de que todos perderam ao mesmo tempo alguém querido para a covid-19 em um país que parece naturalizar a morte. O presidente, Jair Messias Bolsonaro (Sem Partido) não utiliza a palavra morte, fala em "passamento" após chamar a doença de "gripezinha"; questionar até quando brasileiros chorarão. Até quando? 

E talvez seja a oportunidade de finalmente o brasileiro se dar conta da gravidade da pandemia em curso e passar a se cuidar mais, exigir vacina, diretrizes alinhadas com a ciência.

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