Reeleição do populismo na Polônia é ensaio geral do que vem por aí

Matheus Pichonelli
·6 minuto de leitura
Ativistas protestam durante as eleições na Polônia. Foto: Artur Widak/NurPhoto (via Getty Images)
Ativistas protestam durante as eleições na Polônia. Foto: Artur Widak/NurPhoto (via Getty Images)

“A geração dos meus pais lutou durante 40 anos para eliminar a ideologia comunista das escolas, para que não fosse forçada junto das crianças. Não lutaram para que uma nova ideologia aparecesse que é ainda mais destrutiva”.

Com esse tipo de discurso sobre direitos LGBT, o presidente da Polônia Andrzej Duda foi reeleito em segundo turno no domingo 12 com pouco mais de 50% dos votos. Seu adversário era o prefeito de Varsóvia, Rafal Trzaskowsk, da Plataforma Cívica (PO).

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Líder do partido nacionalista e conservador Lei e Justiça (PiS), Duda passou a campanha defendendo a tradicional família polonesa, promovendo hostilidades contra a Alemanha e inventando fantasmas relacionados a minorias e o perigo do estrangeiro. A proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por homossexuais, além do veto à abordagem de temas como homofobia nas escolas, eram algumas das ideias rabiscadas pelo líder polonês para posicionar seu país em direção ao futuro.

Durante seu 1º mandato, Duda colocou em prática um governo nacionalista e criou rusgas com a União Europeia por implementar mudanças que restringiam a independência do Judiciário e a liberdade de imprensa no país. Sim, você já viu esse filme com o nome de “globalismo”, “ideologia de gênero”, protestos antidemocráticos e ataques à chamada “imprensa lixo”.

A eleição polonesa repercutiu mundo afora porque é um ensaio geral das disputas que servirão como referendo a plataformas do tipo já inauguradas em países como os EUA, que vão às urnas no fim deste ano.

A disputa, claro, tem também implicações no Brasil, onde o léxico usado para montar espantalhos do tipo está presente no mesmo mesmo manual.

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“A oposição brasileira deve olhar o que aconteceu na Polônia e nos outros países e parar de se enganar: os países são diferentes, mas o processo é o mesmo”, disse, em entrevista à repórter Ana Estela de Sousa Pinto, da Folha de S.Paulo, o professor da Universidade da Europa Central de Viena Marciej Kisilowski.

O especialista em estratégia aponta que as lições da disputa polonesa são universais diante do autoritarismo que corrói as estruturas democráticas em fogo brando. Para ele, os políticos do chamado campo progressista precisam aprender com o crescimento dos populistas.

Assim como o comunismo, no século 20, levou países capitalistas a cederem os anéis para não perderem os dedos e o controle da produção e distribuição de riquezas, fazendo surgir assim as políticas sociais-democratas, a ascensão do populismo, segundo Kisilowski, coloca em questão que tipo de concessões os seus adversários serão capazes de fazer agora. Esta é uma das lições a serem tiradas do caso polonês -- as outras envolveriam conter a fragmentação do campo progressista e unir forças e estrutura partidária para pensar em novas políticas, e nãos as de sempre, para competir em pé de igualdade com quem tem agora controle do Estado em mãos.

O problema, como se vê, está no item das concessões, que envolvem um campo moral. Kisilowski defende um aceno claro para “tranquilizar” os cidadãos comuns em relação aos medos estimulados por governos populistas. Trata-se, segundo o especialista, de um recuo estratégico, o que envolve o compromisso de que nenhuma mudança será imposta aos eleitores conservadores assustados com o novo mundo que se desenha. O líder populista, afinal, é alguém, que se tornou competitivo porque trata os medos dessa parcela da população conservadora como legítimos e oferece abrigo.

Aqui mora o nó.

Duda, como outros líderes do time, não só tratou o medo da mudança como um medo legítimo. No caso da questão LGBT, para ficar só em um exemplo, ele nomeou o medo como “perigo”, o fantasiou e o legitimou. Deseducou, enfim, para ganhar voto. É essa arma que o campo progressista precisa emprestar para voltar a governar?

Uma campanha política ideal é uma campanha política instrutiva. É a oportunidade de educar candidatos e eleitores e discutir quais serão as ferramentas e inteligências para lidar, não necessariamente enfrentar, com um mundo que se desenha.

É a chance de iluminar salas escuras torpedeadas pelo obscurantismo e mostrar o que é corda e o que é cobra na silhueta desenhada no chão. Em outras palavras: uma coisa é temer o desemprego diante das mudanças tecnológicas e a automação do trabalho; outro é temer a “imposição” de um estilo de vida porque seu país entendeu que casais homossexuais têm o mesmo direito de seus pares heterossexuais. Por exemplo, andar de mãos dadas com quem se ama sem ser apedrejado literal e metaforicamente por isso.

Imposição, no caso, seria obrigar alguém a casar com pessoas do mesmo sexo, e se uma eleição presidencial não é capaz de explicar a diferença de uma coisa e outra ela de fato não serviu para nada. O que os adeptos da concessão moral pedem, basicamente, é que em vez de desmontar mentiras, espantalhos e armadilhas, não se fale sobre eles.

No Brasil, a ferramenta bolsonarista para lidar com o futuro foi um falso “kit gay” apresentado ao Jornal Nacional como o grande perigo para a família brasileira, que em grupos de WhatsApp foi bombardeada com imagens de mamadeira com bico em forma de pênis e legendas dizendo que era isso o que seus filhos receberiam nas escolas caso o adversário vencesse as eleições.

O que significa, então, abrir concessão a populistas que mentem compulsivamente para estimular os medos mais infundados que se quer tratar como legítimos? Dobrar a aposta e dizer que, sob seu governo, o bico da mamadeira será ainda maior e mais perigoso? Avisar grupos historicamente marginalizados que eles não só não têm lugar no palanque ou nos projetos de governo como podem ser jogados ao mar porque com eles ninguém ganha voto?

O nome disso não é concessão. É covardia. Se é isso que ganha voto, qualquer derrota é menos humilhante do que recuar no desafio histórico. Chamar as coisas pelo nome é um deles. O populista é, antes de tudo, um covarde.

Se uma coisa a derrota do campo progressista ensinou nas últimas eleições é que, medo por medo, o adversário de DNA obscurantista sempre vai se dar melhor.

Se tem uma coisa que deveria assustar eleitores não são os espantalhos no campo moral. São a estreiteza de pensamento e a incapacidade, essas sim reais, de líderes como Trump, Bolsonaro e companhia para enfrentarem os desafios de um novo mundo que se desenha enquanto eles apagam as luzes e se escondem debaixo de cama.