'Política para a cultura não é um favor', diz Ana Beatriz Nogueira, que estreia peça

*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 06.05.2016: TEATRO-SP - A atriz Ana Beatriz Nogueira na estreia do espetáculo
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 06.05.2016: TEATRO-SP - A atriz Ana Beatriz Nogueira na estreia do espetáculo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Prestes a voltar a São Paulo com o solo "Um Dia a Menos", Ana Beatriz Nogueira se diz extasiada. Primeiro com o retorno do espetáculo à capital após um ano de sua primeira temporada. Segundo, com o que viu na cerimônia de posse do presidente Lula, no domingo.

Embora não se considere uma petista, a atriz votou pelo terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e, frente às primeiras ações, vê com bons olhos o novo governo.

"Estou esperançosa porque vejo vontade de realizar, de reconstruir o que estava destruído. Já é um grande avanço a cultura voltar a ter um ministério e não terem colocado lá nenhuma bomba, nenhuma indicação apenas política, mas uma figura como a Margareth Menezes, que é artista, é produtora, é forte", analisa a atriz.

O nome da cantora agradou Nogueira, que acredita que o novo ministério deverá lançar um olhar de valorização a nível nacional para a cultura. Segundo ela, restabelecer o mercado de trabalho e a cadeia produtiva no setor são pilares no combate à fome e à pobreza.

"Política pública voltada à cultura não é favor, é fomentação de emprego. É uma cadeia de produção que faz com que mais pessoas possam trabalhar e não passem fome, do pequeno artesão ao grande bailarino, passando pelos técnicos, as camareiras, os comerciantes ao redor e isso não só em São Paulo e Rio, mas em todos os estados."

O otimismo da atriz contrasta com a opacidade de Margarida Flores, a personagem criada por Clarice Lispector para o conto "Um Dia a Menos", de 1977, adaptado e dirigido por Leonardo Netto e estrelado por Nogueira desde 2019, quando estreou a montagem para celebrar seus 35 anos de carreira.

Com a pandemia, o espetáculo foi suspenso e encontrou uma nova casa online, quando a artista criou, na sala de sua casa, o projeto "Teatro com Bolso", que permitia que artistas apresentassem solos e pequenos shows e os transmitissem online em busca de alguma bilheteria.

O projeto foi uma iniciativa da atriz que, sem jamais ter deixado de criar, tem a cabeça a milhão com projetos que vai realizar, que quer realizar ou que deu para que talvez amigos realizassem. "Eu penso a todo momento. Eu ligo para os amigos e digo 'olha, tive uma ideia que você pode usar', fomento parcerias no teatro, na música, é o que eu mais gosto de fazer, criar."

E é essa inquietude que levou a atriz a encerrar a temporada de outro solo, "Tudo que Eu Queria te Dizer", que apresenta há mais de dez anos com base nas cartas de Martha Medeiros, em outubro de 2021, e já engatasse a temporada de "Um Dia a Menos", que estreia no teatro Renaissance neste sábado.

A obra tem como foco os dias da vida de Margarida, uma mulher tomada pelo tédio e pela solidão após a morte da mãe. No dia de folga da empregada, ela decide tomar uma atitude drástica e mudar sua vida. Fã de Lispector, Nogueira só teve contato com o texto quando Leonardo Netto apresentou a obra a ela, parte do livro "A Bela e a Fera", lançado no ano de morte da escritora.

"Ela é esse tipo de autora em que a procura pode durar uma vida inteira, porque é uma obra densa, e depende muito de você se identificar. Eu amo e estou sempre descobrindo muitas camadas, até porque eu vou sempre me tornando outra. Nós vamos mudando, vamos evoluindo e nossas referências já não são mais as mesmas. É assim que acontece com esse texto."

A pandemia foi um diferencial na leitura da atriz para o texto de Lispector. Todo o período de isolamento ajudou Nogueira a ter um outro olhar para essa mulher que passa as horas à espera de que seu telefone toque e se anima mesmo quando se trata de um engano. Na peça, uma mulher liga por engano e, também no ápice de sua solidão, busca estabelecer uma conexão com a personagem principal a qualquer custo.

"Essas pessoas existem, e nós mesmos já fomos assim. Já esperamos o telefone tocar e geralmente é uma espera muito doída. Às vezes é trabalho, às vezes é um amor, às vezes é uma notícia. E, quando toca e é um engano, ou é aquele cineasta com quem você quer trabalhar pedindo o contato de outra pessoa, enfim, às vezes só não é", ela diz, rindo.

"A Margarida está quarentenada há muito tempo. E a Clarice é visionária porque nós vivemos exatamente o que ela vive todos os dias, que foi a busca por passar o tempo, a busca por um dia a menos. Todos estamos sujeitos a isso."

"Um Dia a Menos" chega ao palco do teatro Renaissance no momento em que a novela "Todas as Flores", de João Emanuel Carneiro exibida no Globoplay, supera em relevância a atual novela das nove da TV Globo, "Travessia", de Gloria Perez. Nogueira assume um dos papéis centrais da primeira parte da trama.

A atriz havia iniciado as gravações após uma cirurgia que tratou um câncer de pulmão, já em remissão. Inquieta, a artista divulga a novela enquanto se prepara para voltar à sala de ensaio, quando dará início à produção de "Melanie Klein", de Nicholas Wright, sobre a psicanalista austríaca responsável por desenvolver o conceito de psicanálise, de Freud.

A estreia está prevista para o primeiro semestre deste ano em São Paulo, sob a direção de Victor Garcia Peralta.

UM DIA A MENOS

Quando 07/01 a 11/02 (sáb às 21h30 e dom às 19h30)

Onde Teatro Renaissance - Al. Santos, 2233 - Jardim Paulista

Preço R$ 80,00 (inteira) | R$ 40,00 (meia)

Autor Clarice Lispector sob adaptação de Leonardo Netto

Elenco Ana Beatriz Nogueira

Direção Leonardo Netto