PMs deixaram baleados sem socorro por mais de 1 hora, segundo testemunhas

Ruan (à esq.) e Ni morreram na ação da PM | Foto: Reprodução

Por Arthur Stabile

Testemunhas da ação que terminou com dois homens mortos na tarde de domingo (23/2) em Osasco (Grande SP) afirmam que não houve confronto e que um policial à paisana teria os executado. A dupla agonizou na rua à espera do atendimento médico.

Os relatos são de que o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) chegou apenas entre 1h e 1h30 depois de que os dois estavam no chão. Ao chegar, ainda teria demorado mais 20 minutos até levá-los para o Hospital Municipal de Osasco. Lá, ambos morreram.

Quem estava no local conta que os dois haviam, de fato, roubado uma moto no farol que fica na esquina das avenidas Leonil Crê Bortolosso com a Benedito Alves Turíbio, no bairro Padroeira, limite de Osasco e Carapicuíba. Eles estariam com uma arma de brinquedo, segundo testemunhas.

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Um policial à paisana estava em um carro e, ao ver a cena, teria deixado os homens colocarem o capacete e andarem com a moto antes de agir. Quando eles estavam de costas, puxou sua arma e acertou as costas do motorista, fazendo os dois caírem do veículo.

“Não teve nenhuma troca de tiros, eles mentiram! O policial atirou neles, saiu do carro e deu mais tiro quando estava perto, coisa de um metro, no máximo dois”, revelou à Ponte uma testemunha da ação policial, pedindo anonimato com medo de sofrer represálias. Segundo ela, o print de um vídeo mostra o PM chutando um dos homens.

Print de vídeo mostra PM dando chute em um dos homens, segundo os moradores | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Vídeos obtidos pela Ponte junto à Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio mostram os dois jovens no chão, ao lado de uma moto que teriam usado na fuga. Um deles, gravado bem perto do local onde os jovens estavam agonizando, mostra o desespero do irmão de uma das vítimas. “Meu irmão, meu irmão! Oh, Ni! Está me ouvindo?”, gritou, enquanto um PM tentava afastá-lo.

Os moradores relembram que os familiares de um dos baleados, que mora em rua próxima, se desesperaram ao verem ele agonizando no chão. “Um PM deu um empurrão na mãe dele para sair de perto. Negaram socorro”, comentou uma moradora.

A reportagem tentou contato com a família, que não estava na casa no momento em que a reportagem foi à comunidade na tarde desta terça-feira (25/2). Os moradores afirmaram que um dos jovens se chamava Ruan e o apelido do outro seria Ni, mas não souberam informar seus nomes completos. “Não eram aqui da rua, eram lá de cima”, comentou um rapaz que mora na comunidade.

Outras imagens, gravadas a uma distância maior, mostram dezenas de policiais e, conforme as pessoas iam se acumulando e para tentar prestar socorro, as viaturas cercaram os suspeitos. Nas imagens, é possível ouvir a indignação de um rapaz: “Tudo comedião, nem para chamar socorro os caras prestam. Verme. Vão deixar os moleques morrer”.

De acordo com a resolução nº 5, de 7 de janeiro de 2013, os policiais devem acionar o Samu para atender casos de feridos em confronto e não podem eles próprios realizarem o socorro.

As pessoas se revoltaram com a falta de atendimento e cobraram os policiais, que revidaram com bombas de efeito moral, conforme registros. Uma delas explodiu ao lado da perna de um jovem de 17 anos, que segue ferido. O pé inchado e as marcas pretas denunciam a explosão que o atingiu.

Adolescente de 17 anos ficou ferido após ser atingido por estilhaços de bombas lançadas pela PM | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Outra mulher relatou ter sido agredida com um mata-leão e socos dados por um PM. “Ele veio em mim, me pegou pelo pescoço e de um monte de murro”, disse. Segundo ela, o policial “parecia drogado, só queria me bater”.

A mulher levou dois pontos na testa pelas agressões do PM, mas não deixou que a marca fosse registrada por medo de sofrer represálias. “Moramos aqui, temo que venham atrás de mim”, explicou.

Outro lado

Em nota, enviada ainda na segunda-feira (24/2), a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo), administrada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB),informou que a dupla era suspeita de roubar a moto de um casal.

“Um policial, que estava a caminho do trabalho, presenciou os fatos e interveio. Os dois suspeitos foram socorridos ao Hospital Municipal da cidade, mas não resistiram aos ferimentos”, sustentou a pasta em nota enviada à Ponte.

Sobre a ação da PM com bombas, a pasta afirma que “moradores da região danificaram uma viatura, um semáforo e um radar” e, por conta disso, a tropa precisou usar bombas para “conter o tumulto”.

Nesta terça-feira (25/2), a reportagem questionou a SSP-SP e a PM, comandada pelo coronel Marcelo Vieira Salles, sobre as denúncias das testemunhas de que o policial à paisana teria executado os homens, de que não houve confronto e da suposta agressão de um dos policiais ao homem caído e a uma moradora e aguarda resposta.

A reportagem também solicitou à Secretaria da Saúde de Osasco, administrada pelo secretário Fernando Machado Oliveira neste mandato do prefeito Rogério Lins (Podemos) informações sobre o horário do pedido de socorro, em quanto tempo os homens foram atendidos e se a espera entre 1h e 1h30 está dentro dos padrões e também espera um posicionamento.