Polêmica com UcconX vai de Procon a salário atrasado e acusação de desvio de verba

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A maior feira de cultura pop do mundo, capaz de bater de frente com a Comic Con Experience e com atrações do calibre de Chris Hemsworth. Foi assim que a organização original da UcconX, convenção que acontece em São Paulo até domingo (31), atraiu uma série de entusiastas para trabalharem em seu escritório.

Vários deles, agora, afirmam que a promessa era vazia e que o ambiente de trabalho era marcado por ameaças, horas extras não pagas que chegavam a jornadas de 11 horas diárias e insalubridade. No último trimestre do ano passado, as coisas pioraram, quando a então administradora do evento teria parado de pagar os salários da equipe de cerca de 20 funcionários.

No Twitter, o nome da UcconX viralizou depois que sua abertura foi marcada por imagens dos 144 mil m² do Complexo do Anhembi vazios, carentes de público, artistas e lojistas. Também gerou revolta o cancelamento de duas das maiores atrações da feira, Millie Bobby Brown —que estaria com Covid, versão que o evento mudou nesta quinta— e George Takei.

Diante disso, o Procon notificou a feira, que tem até o dia 5 de agosto para explicar a ausência dos astros, quando souberam do cancelamento, como a informação foi passada ao público e que opções foram dadas aos portadores de ingressos. Ela também deve compartilhar quantas entradas foram vendidas.

Além das questões que afetam o visitante, que desembolsou de R$ 250 a R$ 5.400 dependendo do pacote arrematado, chamou a atenção o relato de Hugo Melo, que havia sido contratado como diretor de criação da UcconX, mas decidiu relatar sua experiência na empresa num longo fio do Twitter, que vem sendo amplamente compartilhado.

A reportagem entrou em contato com ele e com outros quatro ex-funcionários, que dizem ter passado ao menos três meses de trabalho sem receber salário e, agora, brigam na Justiça para receber o dinheiro e ser indenizados.

No caso de Melo, a história começou em junho do ano passado, quando um amigo o convidou para participar do projeto. Ele foi contratado e, depois de alguns dias, recebeu a notícia de que teria que sair de Recife para trabalhar presencialmente em São Paulo. Ele aceitou, desde que recebesse um auxílio para pagar o aluguel.

O auxílio veio apenas no primeiro mês –e o salário, nos três iniciais. Entre novembro e janeiro, ele trabalhou sem receber nada, num escritório quente, com ar condicionado quebrado, até que ele e outros funcionários foram convocados para uma reunião.

Nela, os sócios da Uccon Marketing Ltda. teriam dito que o evento estava falido, que não tinham dinheiro para pagar as contas e que a prioridade, antes dos funcionários, era sanar dívidas relativas à infraestrutura do escritório. Se quisessem ser pagos, eventualmente, deveriam continuar trabalhando por amor ao projeto –e quem se recusasse iria para o fim da fila de pagamento, ameaçaram.

Melo e os outros funcionários ouvidos pela reportagem, que preferiram não se identificar por medo de represálias, decidiram, então, abandonar a empresa. Nenhuma rescisão contratual foi feita e os valores devidos não foram pagos.

Os funcionários que pediram para permanecer no anonimato relatam todos experiências parecidas. Alguns abandonaram o emprego para participar da empreitada. Pesaram na escolha o amplo e bem equipado escritório na Vila Olímpia, aliado à possibilidade de trabalhar com o que gostam, cultura pop, além das reuniões para fechar participações, que iam de Chris Hemsworth a um inédito reencontro do elenco de "Chaves".

Eles trabalhavam como pessoas jurídicas, ou seja, sem carteira assinada, modalidade que se torna mais comum conforme a legislação trabalhista brasileira passa por afrouxamentos. Além dos cerca de 20 funcionários, também saíram com pagamentos em atraso prestadores de serviço externos, como agências de assessoria de imprensa e consultores.

No caso de Melo, ele pede na Justiça R$ 129,7 mil, valor que inclui os salários e auxílios em atraso, multa contratual, juros e indenização por danos morais. Este, no entanto, não é o único processo que a Uccon Marketing Ltda. enfrenta –são ao menos uma dezena, incluindo uma ação de despejo pelo não pagamento do aluguel de uma sala comercial.

Outro é uma ação de prestação de contas ligada a uma empresa que entrou como investidora da UcconX e que teria desembolsado R$ 7 milhões. A companhia alega que o valor teria sido desviado por meio da compra de camisetas para a feira. A ação corre em segredo de Justiça.

Os funcionários também afirmam que houve despreparo da empresa para sediar um evento desse porte. Em novembro, quando a pré-venda começaria, os sócios foram avisados de que a plataforma de ingressos não estava pronta para ser lançada. Não houve conversa. Depois de uma hora no ar e apenas 11 acessos, o site teria caído. À época, divulgaram que as entradas antecipadas haviam esgotado –o que os funcionários dizem que é mentira.

Em fevereiro, a UcconX foi comprada por outra empresa, que está à frente do evento hoje. Procurada, a BBL, da área de games e esports, afirma que não tem "qualquer responsabilidade relacionada à antiga administração" e destaca que "a operação de compra limitou-se somente à marca, o que significa que a empresa adquiriu a propriedade intelectual da UcconX".

A BBL afirma que não sabia sobre a falta de pagamentos quando as negociações foram feitas, fato refutado pelos funcionários, que dizem que a situação era pública quando representantes da empresa teriam frequentado o escritório na Vila Olímpia, no fim do ano passado.

Procurado, um dos antigos sócios do evento, Luciano Martinez, da Uccon Marketing, direcionou a reportagem para a atual assessoria de imprensa da UcconX, sugerindo que ainda tem relação com a feira. Após ser novamente questionada sobre a participação dos antigos sócios, a equipe de comunicação da BBL informou que Martinez ainda tem vínculo com o evento.

"Luciano Martinez não faz parte do quadro societário da BBL e de nenhuma de suas subsidiárias. Ele também não tem nenhum vínculo com a BBL. A presença dele no evento se dá por obrigações contratuais relacionadas à venda da propriedade intelectual do UcconX e da venda dos contratos do Anhembi."

A reportagem também teve acesso a conversas de WhatsApp entre Martinez e seus funcionários, que ocorreram em maio deste ano –portanto, após a venda da marca–, em que ele diz estar "reativando" a UcconX e em que dá garantias de que a organização não havia investido mais dinheiro no projeto, que havia acabado de reformular sua identidade visual.

De acordo com emails aos quais a reportagem também teve acesso, funcionários foram procurados por uma representante da BBL, que se mostrava disposta a intermediar uma conversa entre eles e a Uccon Marketing –nas mensagens, a informação de que uma empresa não tem vínculo com a outra é reiterada.

Mas as negociações não avançaram, diante da indisposição da Uccon Marketing em pagar a totalidade dos valores devidos, sob a alegação de que não teria dinheiro para isso. Os funcionários, então, foram às redes sociais para expor a história e foram novamente contatados. Alguns assinaram, então, contratos de confidencialidade, em que se dispuseram a não mencionar sua passagem pela empresa ou citar a UcconX em troca do pagamento dos salários em atraso.

Procurado novamente, após as negativas da BBL em responder em nome da antiga administração, Luciano Martinez não atendeu aos pedidos da reportagem. Seus antigos sócios tampouco foram localizados.

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