Como a pobreza menstrual e o tabu sobre a menstruação afetam o seu cotidiano?

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A pobreza menstrual faz com que uma em cada quatro meninas faltem à escola por não poder comprar um absorvente (Foto: Shani Chantel / Instagram)
A pobreza menstrual faz com que uma em cada quatro meninas faltem à escola por não poder comprar um absorvente (Foto: Shani Chantel / Instagram)

Você, que lê este texto agora, pode ser uma pessoa que menstrua. E, por ter acesso à internet, seja no celular ou no computador de casa (se é que você tem um computador em casa), pode ser que você tenha acesso também a outras coisas básicas, como absorventes íntimos. Parece óbvio, né? Quando uma pessoa que menstrua chega no período menstrual, ela usa um absorvente, um coletor menstrual ou até uma calcinha absorvente, fica à escolha do freguês.

Mas vamos falar do dia a dia? Da realidade do que é ser uma pessoa que menstrua no mundo? Primeiro, que a menstruação ainda é vista como tabu em boa parte do globo - em alguns países, a situação é tão complicada que muitas meninas largam a escola por conta do chacota de amigos e professores devido à menstruação, e sofrem violências físicas inimagináveis por causa disso.

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Vamos de outra informação também: o acesso que você, que segue lendo este texto, tem, é um privilégio. Tem um termo ganhando espaço na internet que precisamos usar para explicar o porquê disso: "pobreza menstrual". Ele abrange a gigante gama de pessoas que não têm acesso a itens de higiene básica (como os absorventes) ou informações para saber como lidar com algo tão simples e natural do corpo humano biologicamente feminino. Resultado? Se usam de pedaços de papel, toalhas de pano encontradas pelo caminho, até miolo de pão em tentativas de conter o sangramento mensal.

Isso tem um motivo. Pense no caso das camisinhas, que são distribuídas gratuitamente à população durante o Carnaval ou até em postos de saúde. Ao contrário, os absorventes, apesar de serem essenciais para a pessoa que menstrua contemporânea, ainda são vistos como um item cosmético e de luxo - ou seja, é tratado como tal e custa um dinheiro que para algumas é pouco e, para outras, é uma fortuna.

Segundo o Action Aid, uma em cada dez meninas na África falta na escola durante o período menstrual por falta de acesso a produtos higiênicos básico ou falta de banheiros adequados no ambiente escolar. No Brasil, segundo reportagem recente do Fantástico, da Globo, o número é tão alarmante quanto, senão mais: uma em cada quatro meninas já faltou à escola por não poder comprar um absorvente.

Só com essas informações, já dá para perceber que a disparidade de gênero começa cedo: para os homens, faltar a escola por falta de um produto de higiene pessoal como um absorvente é impensável. A educação das meninas, no entanto, sofre um baque enorme porque a sua presença nas aulas cai todo mês quando a menstruação chega. A longo prazo, isso interfere tanto com a sua educação no geral, como com a sua qualificação profissional.

Fora isso, o uso de itens que não são adequados para esse uso, como algodão ou até o miolo de pão, podem gerar infecções locais com efeitos permanentes no corpo feminino, o principal deles sendo a infertilidade.

Menstruar é um segredo?

A resposta óbvia é "não". Todo mundo sabe que no mundo existem pessoas que menstruam. Mas é tratado como se fosse. Falar de menstruação é um tabu tão grande que não é um assunto comum. É visto como errado e, principalmente, como sujo. A mulher que menstrua e, por algum motivo, esqueceu um absorvente é exposta às críticas e chacotas dos outros por conta disso. Existe uma cultura de diminuição e vergonha envolvida com a menstruação.

É por isso que fotos como a da influenciadora Shani Chantel incomodam. Ela conta, em uma postagem no Instagram, como um dia estava tentando cuidar da filha e do cachorro certo dia e percebeu que a menstruação desceu. Ao mesmo tempo, a filha não aguentou chegar até o banheiro e fez xixi na mãe. O que poderia ser considerado uma questão muito complexa - afinal, não sabemos todo o contexto da situação de Shani -, virou um aprendizado. Ela aproveitou para registrar o momento, a calcinha suja de sangue, a filha no colo, enquanto explica que buscou tratar aquilo com a maior naturalidade do mundo, ao mesmo tempo que educou a filha, de uma forma que ela pudesse entender, sobre o que era a mancha vermelha de sangue na calcinha da mãe.

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A postagem de Shani pode ser considerada um exemplo porque quebra a ideia de que a menstruação é algo a ser tratado a sete chaves, escondido de todos. Vale lembrar, até mesmo, da série Bridgerton, da Netflix, que lidou, de forma tão impressionante, com como as mulheres da época em que a história se passam sabiam tão pouco sobre o próprio corpo a ponto de não ter ideia da ligação entre a menstruação e a gravidez - ou como o sexo funcionava.

A desinformação pode parecer fora de época na série de Shonda Rimes, mas acontece até hoje. As fakes news que circulam pela internet e até ajudaram na eleição de presidentes são prova viva disso. Dizem os estudos que o número de meninas que não têm acesso a produtos de higiene básica, como os absorventes, chega a 26% no Brasil - e não há como mensurar a falta de conhecimento que essas pessoas têm sobre esse processo menstrual e como ele funciona.

Acontece que temos um ponto que é quase essencial para a compreensão de como a pobreza menstrual surgiu. O corpo considerado padrão é o masculino: ou seja, pensa-se primeiro nele e depois no corpo biologicamente feminino - vide o exemplo das camisinhas. Colocadas em posição de inferioridade ao longo da história, os problemas das pessoas que menstruam são vistos como delas próprias e não uma questão da sociedade - o que, inclusive, fica muito claro na questão do aborto no Brasil, que ainda é proibido salvo algumas poucas exceções, e que contribui para um alto índice de mortes por conta de procedimentos clandestinos.

Tal qual o aborto, a menstruação precisa ser tratada como uma questão de saúde pública e que depende de políticas igualmente públicas para serem endereçadas e diminuírem os seus impactos por aqui. Pensar, por exemplo, na população carcerária é importantíssimo, já que muitos presos acabam lidando com a menstruação de maneiras improvisadas e anti-higiênicas. O mínimo, é buscar por preços mais justos por um item tão essencial à saúde de pessoas que menstruam, assim como uma política que auxilie pessoas em condições precárias de saúde que visem o bem-estar da população em sua totalidade e não apenas de uma parcela que, convenhamos, muitas vezes não toma decisões em benefício do todo.