Pobreza menstrual mata: 20% dos jovens já deixaram de ir à escola por falta de absorvente

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Jovens deixam de ir à escola por falta de itens de saúde básica (Foto: Getty Images)
Jovens deixam de ir à escola por falta de itens de saúde básica (Foto: Getty Images)

A menstruação é uma realidade cotidiana para pessoas com útero, tão banal a ponto de não ser motivo de questionamentos ao longo da vida. Para alguém que começou a menstruar aos 13 anos de idade, por exemplo, levando em conta um fluxo de cinco dias por mês, essa pessoa fica ao todo 60 dias menstruada em um ano. Se a menstruação começou aos 13, ela chegará aos 33 anos com um total de 1.200 dias menstruada. A partir de uma média de quatro absorventes trocados diariamente, a média é de 4.800 absorventes utilizados em 33 anos de menstruação.

A coisa mais bizarra é você enxergar a menstruação como algo supérfluo

Se você faz parte da parcela da população que consegue fazer essa conta de forma tranquila, considere-se privilegiado: a pobreza menstrual é um dos pilares da desigualdade de gênero e social no Brasil, causando exclusão, vergonha e problemas de saúde física e mental para grande parte das mulheres, pessoas não binárias e homens trans que estão dentro do espectro da menstruação.

O que é pobreza menstrual?

Ainda pouco discutida no Brasil, a pobreza menstrual é um problema sistêmico avassalador, que perpassa questões de gênero, raciais e de políticas públicas ligadas à dignidade humana. O fenômeno descreve uma série de violações de direitos humanos que afetam pessoas que menstruam, indo desde a escassez de produtos higiênicos até questões de políticas públicas como saneamento básico e distribuição de água.

De forma geral, a pobreza menstrual parte de violências como:

  • Falta de acesso a produtos adequados como absorventes descartáveis, coletores menstruais, papel higiênico, sabonete, roupas limpas;

  • Questões estruturais como saneamento básico, coleta de lixo, ausência de banheiros seguros, eletricidade, água;

  • Falta de acesso a medicamentos e atendimento médico;

  • Falta de informações sobre saúde menstrual, ciclos menstruais e funcionamento do corpo;

  • Tabus e preconceitos sobre menstruação, resultando em segregação;

  • Questões econômicas, como tributação sobre produtos menstruais e a mercantilização de preconceitos em prol do capitalismo, como venda de produtos como sabonetes íntimos anti odor;

  • Efeitos colaterais da pobreza menstrual sobre a vida econômica e social das pessoas que menstruam.

Com a ausência do estado no combate destes determinantes sociais, ONGs e cooperativas de pessoas físicas começaram a preencher essa lacuna com distribuição gratuita de absorventes e outros produtos de higiene básica. Foi a partir dessa premissa que surgiu o Fluxo Sem Tabu, criado pela estudante Luana Escamilla para fornecer itens de higiene para comunidades marginalizadas e discutir mais o tema em ambientes escolares.

"A pobreza menstrual acaba impactando diretamente a saúde das pessoas que menstruam, pois muitas usam métodos inseguros para conter o sangue, como papel, algodão, até mesmo miolo de pão. É uma situação totalmente desumana, o que fere a dignidade de pessoas que menstruam. Também existe a evasão escolar, já que muitas jovens não vão para a escola por não terem acesso a um remédio para cólica, vergonha ou até mesmo falta de absorventes. É uma junção de falta de acesso a remédios e itens de higiene, tabus sobre a menstruação ser algo 'sujo' e desconhecimento do ciclo menstrual", explica.

Para Constanza Del Posso e Beatriz Janér Kligerman, da ONG Absorvendo Amor, só um plano de políticas públicas interseccionais seria capaz de reverter a pobreza menstrual na sociedade brasileira.

"Precisamos de distribuição gratuita, ponto. E deveria ser algo abrangente, não só em comunidades urbanas como na área rural, por exemplo. A coisa mais bizarra é você enxergar a menstruação como algo supérfluo, o que acaba acontecendo não só por falta de informação como pela questão financeira. Quando você mal tem dinheiro para comprar comida, comprar absorventes não será a sua prioridade. Não é uma escolha menstruar, é algo essencial para a saúde de quem tem útero. Também precisamos falar sobre os impostos cobrados sobre produtos para mulheres, que é muito alto. O Brasil é o país que mais taxa absorventes íntimos, por exemplo", explicam.

"O Brasil é o país que mais taxa absorventes íntimos"

Pobreza menstrual mata

Quando mulheres e pessoas com útero não possuem acesso a produtos básicos de higiene menstrual, o improviso é o que resta. De acordo com a UNICEF, é reportado por diversas pesquisas soluções alternativas para conter o fluxo menstrual, como pedaços de pena usados, roupas velhas, jornais e miolo de pão.

Como absorventes são caros e precisam ser trocados várias vezes ao dia, o orçamento de grande parte das famílias brasileiras não é capaz de cobrir o valor necessário. Essa falta de estrutura traz não só traumas psicológicos como questões fisiológicas, como alergia, irritação da pele e mucosas, infecções urogenitais como cistite e candidíase e uma condição letal chamada Síndrome do Choque Tóxico, que pode matar em uma questão de horas.

A síndrome do choque tóxico é uma complicação fatal causada por infecções bacterianas, que podem ser causadas por cirurgias recentes, feridas abertas e uso indevido de absorventes internos. Entre os sintomas estão febre alta, baixa pressão arterial, vômitos e alterações alérgicas na pele.

Dados mostram que o problema é urgente e sistêmico

É impossível solucionar a questão da pobreza menstrual apenas com a distribuição gratuita de absorventes e a conscientização da população sobre o assunto. O problema é sistêmico e envolve a aparelhagem pública do estado, que precisa cuidar de assuntos como saneamento básico de periferias, áreas rurais e populações ribeirinhas; fornecimento de água e cuidado com possíveis contaminações de rios e nascentes; fornecimento de energia elétrica de forma acessível; banheiros com estrutura mínima em escolas e locais públicos; fim dos impostos sob produtos de higiene feminina; coleta de lixo emergencial e outras questões de estrutura social e política.

De acordo com uma pesquisa de 2021 da Espro (Ensino Social Profissionalizante) ao lado da Inciclo, ao menos 20% de jovens entre 14 e 24 anos já deixaram de ir a escola por falta de absorventes. Dados da UNICEF apontam que ao menos 700 mil meninas vivem sem acesso a banheiro ou chuveiro em casa, e 4 milhões não têm acesso a itens básicos de cuidados menstruais. 42% das mulheres já ficaram mais do que o tempo indicado com o absorvente para economizar. O índice sobe para 45% entre pessoas pretas com até dois salários mínimos.

Mais de 42% das mulheres já ficaram mais do que o tempo indicado com o absorvente para economizar

Veto de Bolsonaro e impostos sobre itens de higiene

Em 2021, o presidente Jair Messias Bolsonaro (PL) sancionou a criação do Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual (Lei 14.214), mas vetou a distribuição gratuita de absorventes femininos para estudantes de baixa renda, afetados pelo sistema prisional e pessoas em situação de rua e marginalização. A intenção do projeto de lei era combater a falta de acesso e precariedade de tais itens para famílias em situação de pobreza, e o veto dificultou ainda mais essa questão pela recusa do presidente de incluir absorventes na cesta básica.

De acordo com o relatório Livre para Menstruar, feito pelo movimento Girl Up, uma em cada quatro adolescentes não tem acesso a absorventes durante seu período menstrual. Se a família em questão passa por problemas de insegurança alimentar, a prioridade será sempre comprar alimentar, o que dificulta ainda mais a compra de tais itens considerados "supérfluos".

Isso é emblemático no Brasil de 2022, assolado pela fome e pela falta de políticas públicas que contenham o avanço do mapa da desigualdade social. De acordo com levantamento de 2021 da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, 9% da população brasileira está em pobreza extrema. No total, cerca de 19,1 milhões de cidadãos estão passando fome. De acordo com o IBGE, 10,3 milhões de famílias moram em domicílios com insegurança alimentar grave.

Caso Bolsonaro não tivesse vetado a distribuição de absorventes, eles não entrariam na taxação de produtos de higiene e ficariam livre de impostos. Apesar de ser um item essencial à saúde feminina, o absorvente não é considerado produto sanitário de primeira necessidade, ou seja, está sujeito ao Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). A tributação média do produto é de 34,48%, de acordo com a Associação Comercial de São Paulo.

Em linhas gerais, quanto mais essencial for o produto, menos taxado ele deveria ser, já que as maiores alíquotas são sempre reservadas a produtos considerados supérfluos (ou seja, consumidos exclusivamente pelos mais ricos). Como os absorventes e outros produtos de higiene não entram no que a lei considera "essencial", os preços continuam subindo de acordo com a inflação brasileira e outros medidores econômicos.

A pobreza menstrual é perpassada pelo racismo

De acordo com o relatório "Pobreza menstrual no Brasil - Desigualdades e violações de direitos", da Unicef, cerca de 321 mil alunas, 3% do total de meninas nas escolas, estudam onde não têm banheiro em condições de uso. No Brasil, 1,24 milhão de meninas (11,6%) não têm à disposição papel higiênico nos banheiros das escolas. Entre essas meninas, 66,1% são pretas/pardas.

O risco de meninas pretas estudarem em escolas sem papel higiênico é 51% maior do que para meninas brancas. Além do impacto mental desse tipo de estatística, essa desigualdade social ajuda a tirar meninas pretas da escola, diminuindo as possibilidades de continuidade nos estudos e entrada no mercado de trabalho.

De acordo com Luana Escamilla, do Fluxo sem Tabu, essa desigualdade racial é flagrante em qualquer ação de distribuição de absorventes e conscientização da população. "Toda pesquisa deixa isso muito claro. Se 40% das mulheres no Brasil não conseguem trocar os absorventes de acordo com o número pedido pelos ginecologistas, esse número dobra no caso de mulheres pretas. A única forma de mudar esse cenário absurdo é uma modificação de toda a estrutura social. De outra forma, não veremos impacto na realidade".

Não são só mulheres que menstruam

O preconceito é determinante para a pobreza menstrual quando falamos de homens trans. É importante lembrar que qualquer pessoa com útero pode menstruar, seja ela uma mulher, um homem trans ou uma pessoa não binária.

Uma pesquisa publicada no início de fevereiro apontou que 42% dos jovens que menstruam utilizam um absorvente por mais tempo que o indicado. A falta de dinheiro para adquirir um protetor íntimo já foi vivida por 32% dessas pessoas.

O levantamento foi realizado pela Inciclo, empresa especializada em coletores menstruais, e Espro, organização especializada na capacitação de jovens em busca do primeiro emprego, e ouviu mulheres, homens trans e pessoas não binárias de 14 a 24 anos.

O levantamento não destrincha os resultados por identidade de gênero porém, a amostragem vai de acordo com o resultado da pesquisa da Unesp, que aponta que a população adulta que se identifica como não-binária (não pertencem a um gênero exclusivamente) e homens transmasculinos, no Brasil, corresponde a 1,19% e 0,33%, respectivamente.

Pessoas transexuais sofrem, na maioria das vezes, com a "raiz da cisgeneridade", define Bernardo Gonzales, colaborador da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e professor de física. Por isso, desenvolvem vergonha da própria menstruação como se aquilo não estivesse de acordo com o que gostariam para si mesmos.

Para ele, a pobreza menstrual para a população transmasculina começa quando ouvem frases relacionadas à menarca, como "virou mocinha". Ele cita ainda que, para piorar a situação, os banheiros masculinos costumam constranger ainda mais, já que muitos não têm papel higiênico ou cabine para realizar a troca de um absorvente. O depoimento foi dado para a Folhapress.

Existem soluções?

Ações individuais, de empresas e associações sem fins lucrativos podem ajudar a situação da pobreza menstrual no Brasil, mas atuam apenas nas consequências, e não na causa do problema. A pobreza menstrual é um cenário sistêmico e que pede não só políticas públicas conscientes como uma força-tarefa entre o chefe do executivo e os governos estaduais e municipais. Mais do que isso, exige uma interseccionalidade que discuta questões de gênero, transfobia, racismo e misoginia em um país profundamente conservador e colonialista.

"Enquanto fenômeno multidimensional e transdisciplinar, a pobreza menstrual exige estratégias de enfrentamento igualmente complexas e multissetoriais, que se relacionam aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e ao Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento/CIPD e que devem compreender ações no âmbito das políticas de educação, saúde e saneamento básico", explica o relatório da UNICEF sobre violência no âmbito menstrual. Enquanto cuidarmos apenas dos sintomas, a verdadeira doença da pobreza menstrual continuará firme e forte no Brasil por muitas gerações.

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