Plataformas crescem o rap no Brasil, mas gênero ainda sofre com preconceito e pouco investimento

Na sequência: MV Bill (Foto: Marcos Hermes/Divulgação), Don L (Foto: Bel Gandolfo/Divulgação) e Xamã (Foto: Patrícia Devoraes/ Brazil News)
Na sequência: MV Bill (Foto: Marcos Hermes/Divulgação), Don L (Foto: Bel Gandolfo/Divulgação) e Xamã (Foto: Patrícia Devoraes/ Brazil News)

A periferia é lugar de pluralidade, é um dos berços de cultura aqui no Brasil. Do samba ao funk ostentação, passando pelo rap e literatura, é onde tudo acontece e todo mundo se movimenta.

“Rhythm and poetry” ou “ritmo e poesia”, o rap, mesmo que não tenha surgido originalmente no país, ganha novos contornos quando se populariza pelas bandas de cá, por volta da década de 80.

Ricardo Teperman escreve no livro “Se liga no som: as transformações do rap no Brasil” que o rap das décadas de 80/90, a “velha escola”, foi reconhecido “por suas marcas de protesto contundente, inventando-se a si próprio no território brasileiro, com suas próprias singularidades; é um rap revolucionário, que expressava as dificuldades de um povo simples, principalmente, de favelas e negros, que buscavam enfrentamentos na questão racial, e de “classe”, com um tom “agressivo”.

Angela Oliveira Bastos, pesquisadora em História da Arte, explica que a miscigenação dentro das periferias culmina em novas formas e novas necessidades de se mostrar. “A diáspora negra traz consigo histórias, culturas, estéticas que foram absorvidas, vindas dos nossos antepassados até nós. A partir desse processo moderno de marginalização, muita influência negra se mantém em várias áreas artísticas”.

Conforme a pesquisadora, as periferias brasileiras estão num lugar de efervescência cultural, onde a todo momento criam-se modas. A população, segundo ela, está na necessidade de apresentar a criatividade através das artes, inclusive das roupas.

“Algumas das maiores tendências são roupas atreladas ao estilo hip-hop e funk. Então roupas largas, tênis mizuno, Nike, Adidas, acessórios como brincos de argola, correntes etc. fazem sucesso. Inclusive, é comum notar que os periféricos criam tendências que inspiram grandes marcas posteriormente. Como é o caso do uso da camiseta de time, o que antes era visto como nada fashion, hoje já é encontrado em diversos looks por aí”.Angela Oliveira Bastos

Ódio como combustível: rap é denúncia!

No livro “A Vida Me Ensinou A Caminhar”, o veterano MV Bill traça a história do rap no Brasil pelo seu olhar. Da “velha escola”, hoje o rapper é referência para a nova cena que vem se formando nos últimos anos e é atravessada pelo streaming e novas plataformas digitais.

Desse “tom agressivo” citado ali em cima, MV Bill sabe bem. Mas, não se engane: o ódio aqui é muito mais combustível do que um sentimento vazio.

"Ter ódio não significa que sou um cara violento, ou que não tenho amor no coração. Na escrita do livro, senti muitas coisas, como alegria, saudade, e também raiva. Você, como mulher preta (aqui ele apontou para mim), deve sentir muito ódio também. Mas, isso não significa que não seja uma pessoa amável", disse ao Yahoo durante coletiva de lançamento da obra.

O rapper vê com bons olhos essas novidades na música, como o TikTok, mas aponta que é necessário continuar estudando e respeitando as escolas mais antigas. “Dialogar com a nova geração é sempre uma via de mão dupla: trago, mas aprendo. Hoje está menos difícil (fazer rap)”, reflete, mas complementa que a marginalização do gênero ainda é um obstáculo.

A obra reúne crônicas sobre a vida do artista, com foco no que
A obra reúne crônicas sobre a vida do artista, com foco no que "não deu tão certo", e é mais visceral, íntimo. (Foto: Marcos Hermes/Divulgação)

Beber de outras fontes

Em contraponto, o rapper Xamã e outros nomes atuais, como Matuê e L7nnon, bebem de outras fontes. Eles estão surfando bem onda “digital”. Em 2021, "Malvadão 3", single de Xamã, foi destaque no Top 50 Brasil do Spotify. Já L7nnon, em quatro anos de carreira, se consagrou como um dos mais ouvidos do Brasil. O carioca colocou diversas músicas entre as mais tocadas do mundo nas plataformas.

Em coletiva do novo single “Dublê de marido”, Xamã falou sobre o processo de composição: “Faço música relaxado, de boa, que nem faço na rua com meus amigos. Amo essa parada, não fico olhando para o relógio. Às vezes tem que me tirar do camarim”, brinca.

O artista é um dos que aposta em danças virais para completar seu sucesso. Quem nunca tentou fazer a dancinha de "Malvadão"? No evento, quando perguntado sobre hits, disse que o “brasileiro gosta de jingle, gosta de nickname” - algo que ele sabe fazer bem.

Ainda assim, também reconhece que o gênero continua com estigmas negativos, mas aponta que o tempo vai mudar isso. “O rap informa, faz protesto (...) E se adapta a situações”.

"É preciso repensar valores"

O fato é que se dar bem nessas plataformas depende de muitos fatores, como os próprios algoritmos, investimento em marketing e divulgação, entre outros. Quem está há muito tempo na estrada, como o rapper cearense Don L, precisa ler bem as estratégias.

Don, que formou seu rap nas ruas de Fortaleza, cansou de fazer divulgação no “boca a boca”, distribuindo as fitas e CD’s do seu antigo grupo “Costa a Costa” pelas vielas da capital.

Hoje, ele também é um dos grandes nomes do hip hop brasileiro. “Nordestino em São Paulo”, Don virou um representante importante do rap que se faz aqui no Nordeste, sempre contrapondo-se à cena do Sul/Sudeste.

Don L lançou em 2021 o disco “Roteiro para Aïnouz Vol.2
Don L lançou em 2021 o disco “Roteiro para Aïnouz Vol.2", onde fala sobre revolução. Ouça em todas as plataformas. (Foto: Bel Gandolfo/Divulgação)

Quem acompanha o artista, sabe que seu rap é político e posicionado. Comunista, disse que se sente “infestivável”, já que os eventos de música no Brasil ignoram a presença do artista, mesmo que ele sempre lote shows.

Isso tem mudado gradualmente, aponta o rapper, mas ele ainda enfrenta os percalços e contradições da música independente no país. “Faço música porque preciso, músicas que queria ouvir e vejo que ninguém está fazendo. Não me guio pelo streaming, mas o mercado hoje em dia é voltado para isso. As pessoas não têm mais ambição de fazer um grande álbum”, afirma.

Ao mesmo tempo, sabe que a nova configuração da música carrega vantagens. “A gente não pode ficar só vendo o lado ruim, reclamando das coisas. O fato de você ter disponível, a um clique, o catálogo musical da humanidade é muito louco”, exemplifica.

Entre versos livres, mixtapes, álbuns e clipes, Don defende uma nova forma de pensarmos música x plataformas.

“Nessas grandes plataformas a gente não tem um contrato de negociação de valores. Os caras pagam o que acham que devem pagar. A gente pode, no máximo, negociar porcentagens. Não dá para calcular quanto vale uma visualização. É um negócio muito nebuloso”Don L

Aliado ou vilão?

Roberta Guimarães, Head de Conteúdo Musical do TikTok Brasil, explica que o desempenho de uma música dentro do TikTok depende de inúmeros fatores, entre eles a relevância e frequência que a comunidade usa determinada música em seus vídeos. “Não existe uma fórmula mágica e tudo acontece de forma orgânica, quanto mais essa música é usada, mais vista ela é. Essa reação em cadeia sempre nos surpreende, afinal de contas, estamos falando de uma plataforma onde não há limites para a criatividade”, respondeu.

Ainda assim, o sucesso na plataforma não vem de um único vídeo, “mas das suas variáveis a partir da ideia original”. Em relação à monetização do conteúdo, Roberta disse o seguinte: “O TikTok possui um contrato com o Ecad para o pagamento de direitos autorais no Brasil, garantindo uma nova fonte de receita para compositores, editoras musicais e artistas. Existe também uma parceria com a Abramus Digital, que garante a licença de publicação de 100% do catálogo musical da Abramus Digital para o TikTok no Brasil”.

O Yahoo já fez uma reportagem respondendo: TikTok é aliado ou vilão da música?

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