Plano de vacinação: em qual versão de qual presidente cidadão deve acreditar?

Matheus Pichonelli
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BRASILIA, BRAZIL - DECEMBER 16: Health Minister Eduardo Pazuello (L), Jair Bolsonaro President of Brazil (C) and "Zé Gotinha" (R), symbol of vaccination in Brazil, during Launch of the National Vaccine Operationalization Plan against coronavirus (COVID-19) amidst the coronavirus pandemic at the Planalto Palace on December 16, 2020 in Brasilia. Brazil has over 6.970,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 182,799 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Jair Bolsonaro e seu ministro Eduardo Pazuello convocaram o "Zé Gotinha" em evento sobre vacinação. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

Especialistas são unânimes em dizer que, diante de uma crise sanitária, como a do coronavírus, o discurso unificado entre autoridades públicas é a arma mais eficaz no combate ao inimigo comum.

O objetivo é transmitir segurança e evitar atritos entre governo federal, estados e municípios a respeito de questões básicas, como protocolos de segurança, orientações sobre distanciamento social e, claro, importância da vacinação. Sem isso, a população fica confusa sobre qual recomendação precisa seguir diante de tantas narrativas, nem todas com pé na realidade ou nas bases da ciência.

Ao menos no Brasil, esse direito à informação clara foi sistematicamente bombardeado ao longo da pandemia.

Se estivéssemos em guerra contra soldados, e não contra um vírus, o governo mais militarizado desde a redemocratização uma hora dessas já teria assinado o termo de rendição, tamanho bate-cabeça sobre estratégias, prioridades e cronogramas. Tudo isso deu margem para que governos estaduais tomassem rumos distintos em um momento de necessária unificação, inclusive de discurso.

Há mais de uma semana países que compreenderam a gravidade da crise e se anteciparam às novas ondas de contaminação começaram a imunização seus cidadãos. O primeiro foi o Reino Unido. Os EUA vieram na sequência. E por aqui a pressa e a ansiedade por aqui, não é mesmo?

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Eram favas contadas que mesmo o brasileiro mais desatento se perguntasse “e eu?” diante das cenas do princípio da virada no combate ao inimigo microscópico que paralisa o Planeta há quase um ano.

Para não parecer que passou esse tempo todo fazendo churrasco, andando de jet ski, de égua, liberando as armas e a boiada ou eliminando ministros como peças de um xadrez composto apenas por cavalos, entre eles dois médicos titulares da Saúde, o governo federal correu para anunciar, na quarta-feira 16, o seu plano de imunização.

Na voz de Eduardo Pazuello, general que assumiu o front da batalha sanitária no auge da crise e viu a fileira de mortos ultrapassar 181 mil compatriotas, a polifonia do discurso chegou ao paroxismo. Quem acompanhou o anúncio já não estava confuso apenas com os diferentes programas anunciados pelas autoridades federais e estaduais, mas também sobre em qual versão do governo deveria acreditar.

Dias atrás, o cidadão foi informado que a vacinação contra a Covid-19 deveria começar já em dezembro. Depois mudou para janeiro. Em seguida, março. Agora a meta é fevereiro. De 2021, ao que parece.

Havia mudanças em relação ao anúncio anterior. Passou a considerar a vacina desenvolvida pelo Butantan em parceria com uma fabricante chinesa e a inclusão (acertada) de pessoas encarceradas, quilombolas e pessoas em situação de rua entre grupos prioritários.

Até aí, prevalece o tom de alguns editoriais do dia seguinte: antes tarde do que nunca. Faz de conta que ninguém vai morrer por causa da procrastinação.

O problema é que o atraso não é nem de longe o único percalço. No evento, Jair Bolsonaro disse que se “algum de nós extrapolou ou até exagerou, foi no afã de buscar solução”. Ele jura agora que existe “união para buscar solução de algo que nos aflige há meses”.

É o mesmo presidente que, em abril, queria dar um recado a “esses bostas” de prefeitos e governadores ao ampliar o limite de munição para a população. O cidadão armado poderia assim fazer valer a sua liberdade individual, inclusive a de vandalizar o direito coletivo, quando fosse orientado a obedecer as normas de distanciamento social. É o mesmo presidente também que, dias atrás, usou o suicídio de um voluntário nos testes do CoronaVac para dizer que a vacina do antípoda João Doria provocava a morte. E que, de tempos em tempos, mostra toda a sua aflição provocando aglomeração, vituperando contra o uso de máscara, garantindo que a pandemia agora está no fim e que não iria tomar vacina e ponto final.

Com tantas idas e vindas, a palavra “união” virou um dos muitos mitos no Brasil que empoderou a mitomania. No último Datafolha, três países diferentes foram revelados na medição da popularidade do presidente. Seu governo é ótimo e bom para 37%, regular para 29% e ruim e péssimo para 32%.

O que cada um pretende fazer da vida, com ou sem máscara, com ou sem vacina, muda conforme a identificação desses grupos.

Com tantos bombardeios, o percentual de brasileiros que pretendem se vacinar contra a Covid caiu de 89% em agosto para 73% em dezembro. Vinte e dois em cada 100 brasileiros não querem saber de se imunizar. Não sabem também que a postura coloca em risco os outros 82%.

Entre os apoiadores do presidente, a resistência à vacinação chega a 30% e, entre os que sempre acreditam nas palavras do capitão, 61% são contra a vacinação obrigatória.

Fosse só uma questão de opinião e credo, vá lá. Mas nunca é. Um estudo da Carolina do Norte, nos EUA, mostrou em maio que as cidades que registram maior aprovação ao governo Bolsonaro tiveram aumento da taxa de contágio 18,9% maior do que aquelas que demonstravam menor apreço ao presidente no começo da pandemia.

Outro estudo, este da UFRJ e feito a partir da votação de Bolsonaro no primeiro turno de 2018, mostrou em outubro que para cada 10 pontos percentuais a mais de votos para o presidente nessas localidades os casos de contaminação eram 11% maior. O número de mortos aumentava em 12%.

Um escândalo que parece observável apenas a um terço da população que já não dá crédito a quem deveria liderar os esforços de guerra contra o vírus.

Com tantas versões do mesmo governo, é razoável que esta população chegue grogue a dezembro, sem saber em qual versão de qual presidente pode confiar.

Após nove meses de esforços e boicotes, estamos prestes a atingir o patamar de mil mortes diárias na pandemia. É um país que se despede diariamente dos seus amigos, conhecidos e artistas favoritos. Sem direito ao luto. Tão difícil quanto preservar a saúde física é manter a saúde mental.