Planet Hemp na Virada cita mortos em Rio e Sergipe e exalta 'vidas da cracolândia'

SÃO PAULO, SP, BRASIL, 28-05- 2022: Movimentação durante o segundo dia da Virada Cultural 2022 no palco Vale do Anhangabaú. Na foto show da banda Planet Hemp com participação de João Gordo. (Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress)
SÃO PAULO, SP, BRASIL, 28-05- 2022: Movimentação durante o segundo dia da Virada Cultural 2022 no palco Vale do Anhangabaú. Na foto show da banda Planet Hemp com participação de João Gordo. (Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mesmo sem se manifestar a favor ou contra algum candidato nas próximas eleições, o Planet Hemp fez o show mais político da edição de 2022 da Virada Cultural. A banda fechou o festival público na noite deste domingo (29), no palco Viaduto do Chá, o maior da programação no centro de São Paulo.

Comandado por Marcelo D2 e BNegão, a banda falou sobre a operação policial que acabou com mais de 20 mortos no Rio de Janeiro e a morte de um homem em Sergipe preso numa viatura tomada por gás lacrimogêneo, além das denúncias de trabalho análogo à escravidão feitas pelo padre Júlio Lancellotti na montagem das estruturas da própria Virada Cultural e das ações do poder público na cracolândia.

Coube ao público e ao convidado João Gordo, dos Ratos de Porão, os gritos e xingamentos contra o presidente Jair Bolsonaro (PL), uma constante em diversos palcos da Virada.

O Planet Hemp subiu ao palco com apenas 15 minutos de atraso, raridade no evento, e entrou em cena sem música, dando um recado. "Cuidem uns dos outros. A bruxa está solta. Estão matando a gente", disse o rapper Marcelo D2.

O grupo, que reuniu uma multidão comparável à que viu Luísa Sonza, mais cedo, no mesmo Vale do Anhangabaú, começou tocando uma música inédita, que resgata versos de "Magrelinha", de Luiz Melodia. Depois, emendou "Dig Dig Dig", falando sobre a legalização da maconha, tema também de "Legalize Já", tocada a seguir.

BNegão convocou o público a participar da Marcha da Maconha, que acontece no dia 11 de junho, e pediu que as rodas de bate-cabeça, espalhadas pelo Anhangabaú, se unificassem numa grande roda. A prática continuou durante todo o show, mesmo em locais mais afastados do palco.

D2 convocou quem se identifica como antifascista a puxar gritos de "Marielle presente", depois de cantar a música "Hip Hip Rio", que fala sobre as belezas e a violência do Rio de Janeiro. "Eles podem matar um, dois, mas não vão matar a ideia", disse o rapper.

BNegão então comentou a operação policial na Penha e a morte do homem de 38 anos em Sergipe. "É prestar atenção e combater com inteligência", ele disse. D2 depois emendou, "mas uma porradinha de vez em quando não faz mal".

BNegão também falou sobre as denúncias de trabalho análogo à escravidão nas montagem da Virada Cultural, feitas pelo padre Julio Lancelotti, celebrado pelo rapper também ao final do show. "Isso acontece em muitos lugares. É importante que quem tem culpa no cartório pague por isso."

João Gordo, ícone do hardcore de São Paulo, chegou gritando "fora, Bolsonaro" e cantou a música "Crise Geral", de sua banda, e perguntou quem tinha um cigarro de maconha.

Gordo ajudou a banda a virar o palco Viaduto do Chá do avesso, com um hardcore acelerado que intensificou as rodas de bate-cabeça. Ele ainda engrossou o caldo em "Quem Tem Seda?", encerrada com uma homenagem de BNegão a Mr. Catra, ícone do funk do Rio morto em 2018.

O clima era de agitação, com pessoas escalando as estruturas metálicas que sustentam os telões e muitos cigarros de maconha acesos na plateia. Diferente do que aconteceu no sábado (28), no Anhangabaú, quando brigas e roubos forçaram o funkeiro Kevinho a encerrar seu show, no fim de tarde de domingo a Polícia Militar esteve presente no espaço público. Na véspera, apenas a GCM fazia a segurança no local. A reportagem não presenciou nenhum roubo ou briga, quem também não foram denunciados pelos artistas no palco.

Depois de cantar "Stab", BNegão disse que fez o refrão para iluminar o futuro de seu público. "Temos um ano muito louco pela frente. Estejam inteiros mental, psicológica e fisicamente", ele disse, se referindo às próximas eleições.

O refrão de "Stab" diz que "nossa vitória não será por acidente", e o público respondeu com xingamentos a Bolsonaro. O presidente também foi xingado pela plateia em "A Culpa é de Quem?", que contém o verso "militares torturaram e não foram para a prisão".

Ainda houve tempo para uma homenagem a Chico Science, finado vocalista do Nação Zumbi, que surgiu no telão em uma entrevista antiga. Ele foi celebrado na música "Samba Makossa", uma das que o público mais cantou, quando D2 pediu solidariedade ao Recife, que é vítima de chuvas fortes nos últimos dias.

Os autoproclamados "maconheiros mais famosos do Brasil" ainda cantaram os hits "Contexto" e "Mantenha o Respeito", antes de se despedir com "Dig Dig Dig". D2 celebrou que o show não teve brigas. "Isso é que é festa, São Paulo", disse, antes de BNegão sair do palco aos gritos de "vidas da Cracolândia importam".

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