Pitty faz live acústica para comemorar os 15 anos do disco 'Anacrônico'

Autorretrato da cantora Pitty

RIO — Com a chegada da pandemia do novo coronavírus, a cantora baiana Pitty precisou interromper a turnê de seu ultimo disco, "Matriz", lançado no ano passado. Durante a quarentena, ela resolveu focar em projetos on-line para manter o contato com os fãs. Nesta sexta-feira (21/8), às 22h, no Twitch (/pitty), a artista realiza mais uma dessas iniciativas, com live de 15 anos do álbum "Anacrônico" (2005), seu segundo trabalho de estúdio.

Em formato acústico de violão e voz, acompanhada apenas por Martin Mendonça, a roqueira promete tocar o repertório inteiro do CD, que inclui sucessos como "Memórias" e "Na sua estante". O roteiro também inclui três faixas-bônus da época, que chegam hoje ao streaming: "O muro", "Seu mestre mandou" e uma versão demo de "Déjà vu".

"Admirável chip novo" (2003), sua estreia, fez um enorme sucesso. Houve pressão para a gravação de "Anacrônico"?

Rola esse mito no meio da música que o segundo disco tem essa aura toda envolvida, mas eu já vinha embalada com uma série de composições da vida inteira, uma sequência do "Admirável". O Martin entrou (substituindo o guitarrista Peu Sousa), trouxe outra sonoridade, me permitiu experimentar mais. Foi minha segunda experiência profissional em estúdio, e pude fazer sem medo. Foi um disco que tinha verdade pra gente, interessante sonoramente, e nos resguardamos muito da demanda externa, do que esperavam que fosse feito. Era um grupo unido ideologicamente, de desejos e vontades.

O álbum trazia um som mais pesado que o antecessor. Por que essa opção estética?

Foi um disco super experimental, de uma imersão completa. Era acordar, ir para o estúdio, dormir e recomeçar tudo de novo. Três microfones para tirar um timbre, essas coisas. O outro era o primeiro disco de uma artista de rock baiana que ninguém conhecia, era uma aposta da gravadora. No segundo a gente pôde se soltar no parquinho. E você vai ganhando confiança.

Qual é a sensação de retornar a essas canções depois de 15 anos?

A maioria do “Anacrônico” a gente já não tocava em show. A seleção de repertório ao vivo é muito complicada. A cada disco são novos hits, acabamos deixando coisas para trás. Já estávamos na era “Matriz”, turnê nova, mas “Na sua estante” nunca saiu do repertório, por exemplo. Um desafio é adaptar um disco super pesado e gritado para o formato de voz e violão.

E como tem sido a experiência nesse novo formato?

Os tons são os mesmos, ainda me identifico completamente com aquela cantora, sou a mesma, mas 15 anos depois, é o mesmo condomínio chamado eu. Tem aprendizado, adaptação, o grito nunca deixou de existir, mas fui somando outras nuances e descobertas também, que é a coisa do amadurecimento. É uma soma, não uma perda. Mas vamos adaptar. E lembrando que as músicas da minha banda de hardcore sempre foram feitas no violão.

Você tem estado bastante ativa durante a quarentena...

Desde o começo da pandemia, quando tivemos que ficar sem show, passei a pensar em novos formatos. E comei a produzir muita coisa de audiovisual, no esquema de do it yourself mesmo, me filmando. Aí surgiu o VideoTrackz, uma websérie de “Matriz”, depois o clipe de “Submersa” e a ideia de um canal de webtv, com conteúdo musicais, conversas, sobre livros e discos e live. Tenho me dedicado a uma construção de ambiente virtual para continuar me comunicando com meu público. E tem sido muito legal, é uma nova época. Esssa reinvenção faz parte de um pensamento progressista mesmo. Posso ficar sentada reclamando ou fazer alguma coisa com isso.

Como tem sido o retorno dos fãs?

Muito foda, bem legal. É muito direto, artístico, eles têm tido contato com minhas referências, priorizo mostrar tudo que é inédito, eles escutam em primeira mão. Acho que dá para expandir as conversas para outros lados, além do meu trabalho, outros assuntos que nos rodeiam. Já falamos sobre feminismo, empreendedorismo de mulheres, meninas que transformaram seus pequenos negócios na pandemia, fiz outro com uma gamer chamada Kalera. Fiz a série “Na minha estante”, sobre livros, já falei de Raul Seixas, Elza Soares. A gente passa VT, toca música, troca ideia sobre o livro, o disco. Tem o DJ Set, que vou fazer semana que vem sobre Brasil novo alternativo. É uma oportunidade de colocar na roda essas paradas.