Pipoqueiro das estrelas do teatro Sérgio Cardoso morre de Covid, aos 64 anos

TATIANA CAVALCANTI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O pipoqueiro Severino João de Lima, 64 anos, que ganhou fama nacional por ter trabalhado por quatro décadas em frente ao teatro Sérgio Cardoso, na Bela Vista (região central de São Paulo), morreu nesta terça-feira (30), vítima da Covid-19. Eleito cidadão do Bexiga em 2018, ele estava internado há oito dias em um hospital no interior do Piauí, onde passou a morar para tentar escapar do vírus. Durante 40 anos, ele vendeu pipoca de quinta a domingo em frente àquele teatro. Só parou por causa da pandemia e, em abril do ano passado, quando o teatro foi obrigado a fechar as portas, mudou-se com a mulher, Lenir, para a pequena cidade de Amarante (PI), onde mora a família de sua esposa. Quem convivia com ele no Bexiga, bairro onde morava e trabalhava em São Paulo, o descrevia como um homem dócil, de sorriso fácil e gargalhada contagiante. "Eu sempre esperava ele chegar para poder abrir as portas do teatro. Ele fazia parte do Sérgio Cardoso, que ele ajudou a construir. Ele estava lá antes, na época do teatro Bela Vista, destruído para a construção do Sérgio Cardoso, que completou 40 anos em 13 de setembro do ano passado fechado e sem as deliciosas pipocas do seu Severino", afirma Dyra Oliveira, superintendente técnica do teatro Sérgio Cardoso. O pipoqueiro Severino João de Lima, 64 anos, em frente ao teatro Sérgio Cardoso, na Bela Vista (região central de São Paulo) Nádia Garcia/Portal do Bixiga O pipoqueiro Severino João de Lima, 64 anos, em frente ao teatro Sérgio Cardoso, na Bela Vista (região central de São Paulo) **** Segundo ela, o pipoqueiro era uma amante de uma boa peça e fazia propaganda dos espetáculos que estavam em cartaz a quem passasse pela calçada da Rui Barbosa. Seu Severino era querido pelos produtores, atrizes e atores, de acordo com Marcio Gallacci, programador do teatro. "Todos iam conversar com ele durante suas temporadas. Ele era figura lendária do bairro do Bexiga e do teatro." A atriz Helena Ranaldi, que está no ar como a veterinária Cínthia na reprise de "Laços de Família" (Globo), esteve em cartaz naquele teatro em 2019 com o espetáculo "O Cordel do Amor Sem Fim", quando conheceu o simpático pipoqueiro. "Ele foi assistir a peça e gostou muito. Curtia teatro e divulgava as peças. E ele também era um exímo contador de historias", diz a atriz ao Agora. "Lamento profundamente essa perda. A gente está vivenciando essa loucura [da pandemia], cada dia uma pessoa se vai." Descontraído e "aparecido", seu Severino gostava de dar entrevistas para contar seus causos, desde a época em que morava em Limoeiro, em Pernambuco. "A minha pipoca é a melhor do Brasil", costumava dizer. Ao Programa do Jô (Globo), em 2010, afirmou que quase morreu por três vezes: teve um infarto uma semana antes daquela entrevista; caiu de um prédio de 15 andares na avenida Paulista -­-teve a queda amortecida por um andaime--; e desviou de um tiroteio em frente ao teatro (que estava lotado com quase 1.000 pessoas), quando integrantes de uma facção atacaram e mataram agentes públicos em diversas regiões da capital em 2006. Ele contou ainda que recebeu um convite do ator Raul Cortez para participar de uma peça, mas recusou. "Raul Cortez fez a primeira peça no meu teatro, em 1980", disse o pipoqueiro que se sentia dono daquele espaço. No dia da morte do pai, a analista de recursos humanos Barbara Almeida Lima, 26 anos, reuniu forças para falar, com serenidade, do pipoqueiro. "Ele tinha um amor profundo pelo teatro, dizia que era onde ele conseguiu o sustento da nossa família. Era um trabalho exaustivo, mas que ele fazia com muita paixão e dedicação. Assistimos a algumas peças com ele ali. Só vou levar boas memórias." Barbara diz que o pai se gabava por ter visto a quase 200 espetáculos naquele teatro. Esperançoso de voltar a São Paulo ainda neste semestre, seu Severino tinha agendado para tomar a primeira dose da vacina contra o coronavírus esta semana, segundo sua filha. Mas não deu tempo. Barbara afirma que ele passou mal e foi internado na segunda-feira (22), sendo os dois últimos dias intubado. Morreu na semana em que deveria tomar uma injeção de esperança. "Foi um choque a evolução rápida da doença. Ele estava tão bem, animado com a vacina. E, de repente, estava na UTI." Severino passou os últimos meses como desejava viver sua aposentadoria: no mato e cultivando hortaliças. Mas, a ansiedade para voltar a São Paulo para seu teatro era grande e ele nunca parou de falar do espaço que foi sua segunda casa por tantos anos. Ele deixou os filhos Barbara e Lucas, a mulher, Lenir, além de uma legião de amigos e artistas.