Pietro supera grave acidente para recolocar os Fittipaldis na F1

LUCIANO TRINDADE
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ainda impressionado com as imagens do acidente de Romain Grosejan, 34, no GP do Bahrein, no último domingo (29), Pietro Fittipaldi foi chamado para conversar com o chefe da equipe Haas, Gunther Steiner, na manhã de segunda (30). Steiner avisou o brasileiro de 24 anos que ele seria o substituto do francês na próxima etapa da F1, domingo (6), no GP de Sakhir, novamente no Bahrein. Neto do bicampeão mundial Emerson Fittipaldi, o piloto reserva da escuderia americana foi surpreendido com a mensagem do chefe. Grosejean estava bem, mas ainda internado para tratar as queimaduras que sofreu após a explosão de seu carro --teve alta nesta quarta (2). "Eram umas dez da manhã, eu estava no banheiro quando recebi uma mensagem do Gunther me chamando para ir para a pista. Eu corri, cheguei lá em meia hora, e ele me contou tudo", disse Pietro durante uma live no canal Fittipaldi Brothers, que mantém junto com o irmão Enzo na Twitch. "Logo que eu cheguei, ele quis saber se eu estava preparado. Foi a primeira coisa que o Gunther disse. Respondi que sempre estou", contou. "Aí ele disse: 'a resposta tem que ser eu nasci preparado'. Eu dei risada, mas falei: 'eu nasci pronto'. Então ele: 'que bom, porque você vai correr neste fim de semana.'" Nesta sexta-feira (4), ele terá a primeira oportunidade de provar seu preparo durante a sessão de treinos livres no Bahrein, às 10h30 (de Brasília). No sábado (5), o treino classificatório será às 14h. Ambas as atividades, assim como a corrida de domingo (6), às 14h10, terão transmissão do SporTV 2. Quando der a largada, Pietro se tornará o 32º piloto brasileiro na história da F1 e encerrará um hiato de quase três anos do país na categoria, desde a despedida de Felipe Massa, em 2017. O piloto da Haas também recolocará o sobrenome Fittipaldi no grid após 26 anos. O último da família a competir foi Christian Fittipaldi, de 1992 a 1994. Ele é filho de Wilson Fittipaldi Júnior, também ex-piloto de F1 e irmão de Emerson. O bicampeão da categoria em 1972 e 1974 é pai da mãe de Pietro, Juliana. "É muito legal poder seguir o caminho do meu avô, do meu tio-avô e também do Christian. É incrível. Todo piloto sonha em correr na F1. Vai ser uma grande honra representar o Brasil", disse Pietro à reportagem. O legado da família não só o inspirou como abriu portas para o jovem, mas a trajetória dele até a principal categoria do automobilismo mundial revela uma história de superação pessoal. Em 2018, ele disputava o Mundial de Endurance quando sofreu um grave acidente no treino antes da etapa de abertura, em Spa-Francorchamps, na Bélgica. Após uma falha nos freios de seu carro, ele bateu logo na entrada da curva Eau Rouge, a mais famosa do circuito, destruindo toda a dianteira do veículo. O impacto da batida provocou uma fratura exposta na perna esquerda e uma fratura perto do osso do tornozelo direito, além do rompimento dos ligamentos do joelho. "Quando eu bati o carro em Spa, olhei para baixo e vi que as minhas pernas estavam todas tortas. Eu só pensava em quando poderia voltar a correr", relembra o piloto. O acidente ocorreu em 4 de maio, o que o impediu de disputar, no fim daquele mês, as 500 Milhas de Indianápolis, uma das mais tradicionais provas do automobilismo. Mesmo sem poder correr, ele viajou para a sede da corrida e morou dentro de um motorhome em frente ao autódromo durante dois meses, com sua mãe. Ele e a família optaram por fazer todo o tratamento com médicos americanos. Apenas dois meses depois do acidente, o piloto já estava competindo novamente. Segundo seu pai, Carlos Agostinho Pires da Cruz, conhecido como Gugu da Cruz, a família temeu por algo pior. "A gente achou que era o fim. O médico falou que ele demoraria um ano para andar, mas esse menino nunca chorou, nunca reclamou", contou em depoimento nas redes sociais. Pietro chegava a se arrastar no chão enquanto não conseguia andar. "Teve um dia que a gente estava no motorhome, em Indianápolis, e eu vi sangue no chão. Perguntei para ele se o curativo tinha vazado e ele disse que não. Mas as mãos dele estavam cheias de bolhas por ele se arrastar pelo chão. Em 60 dias, ele estava em pé. A determinação dele é...", completou Gugu, emocionado, sem conseguir completar a frase. Gunther Steiner também ficou impressionado com a determinação do brasileiro, sobretudo por ele voltar a competir na Indy antes mesmo de estar totalmente recuperado. Foi nessa época que eles começaram a se aproximar e conversar sobre uma oportunidade na Haas. Steinter queria um jovem piloto que aceitasse fazer parte do trabalho de desenvolvimento do carro, porém no simulador. Para Pietro, era a chance de entrar na F1. Em novembro de 2018, ele foi anunciado como piloto de testes da escuderia. Duas semanas depois, participou dos primeiros testes, em Abu Dhabi. Ao todo, acumula 422 voltas em três diferentes circuitos: Sakhir, Abu Dhabi e Barcelona. "Ele tem sido paciente e sempre foi preparado para essa oportunidade. Tenho certeza que ele fará um bom trabalho", afirmou Steiner. De fato, o brasileiro teve de ser paciente. Por trabalhar para a Haas, foi difícil para ele se dedicar a outros campeonatos nos quais poderia ser titular. Mesmo assim, correu na categoria de turismo DTM em 2019 e terminou na 15ª posição. Seu sonho sempre foi ser titular na F1. Uma vontade que começou a brotar no piloto desde os cinco anos de idade, quando começou a correr de kart em Miami, nos EUA, cidade onde nasceu. Até chegar a oportunidade deste fim de semana, Pietro Fittipaldi acumulou conquistas. Aos 15 anos, ganhou o campeonato da categoria Late Model da Nascar, nos EUA. Aos 18, foi campeão na Fórmula Renault Inglesa. No ano passado, ganhou a Fórmula V8, antiga World Series. Apesar da oportunidade no GP de Sakhir, o brasileiro dificilmente terá espaço na F1 em 2021. Nesta semana, a Haas anunciou que Mick Schumacher, filho do heptacampeão, e o russo Nikita Mazepin formarão a dupla da equipe após as saídas de Grosjean e do dinamarquês Kevin Magnussen no fim do ano. Caso não continue na Haas como piloto de testes, Fittipaldi estuda voltar à IndyCar, pela qual já disputou seis etapas. O futuro será definido nas próximas semanas. Neste momento, ele só quer saber de sua estreia na F1. Carro 51 virou homenagem ao Palmeiras O carro com o qual o brasileiro debutará na F1 carrega o número 51. Palmeirense, Pietro diz que será uma forma de homenagear o time pela conquista da Copa Rio de 1951, que ele e o clube consideram um Mundial. A numeração, porém, não foi definida inicialmente por ele, mas sim pela Haas, no seu primeiro teste na equipe. Na ocasião, ele queria usar o 21, já adotado por Esteban Gutierrez. "Quando a equipe perguntou para mim qual o número que eu queria usar neste fim de semana, decidi ficar com ele porque era o número que estava comigo desde o começo com eles", disse Pietro ao UOL. "E todo mundo sabe que, em 51, o Palmeiras ganhou o Mundial", acrescentou. O clube respondeu em uma rede social, desejando boa sorte ao novato.