Piadas e listas de músicas: o não à OCDE alimenta o vira-latismo brasileiro

REUTERS/Kevin Lamarque

“Depois do prazer”, “Cilada”, “O preço da traição” e “Me apaixonei pela pessoa errada” eram algumas das músicas da playlist “Brasil fora da OCDE” montada por espíritos juvenis no Spotify após o anúncio de que os EUA “esqueceram” o Brasil no anúncio de apoio às candidaturas de Argentina e Romênia para a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

O endosso à causa brasileira era um dos trunfos da visita de Jair Bolsonaro ao presidente Donald Trump, em março.

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Em carta enviada ao órgão, o governo Trump não citou o Brasil e ainda se opôs à ampliação do número de países-membros daqui em diante, frustrando os planos nacionais de fazer parte da tropa de elite da economia mundial.

Após o documento vir à tona, o presidente americano veio a público dizer que se tratava de fake news e que o Brasil ainda conta com o apoio americano.

A carta provocou alvoroços no Brasil, como mostra a lista tomada de testosterona do Spotify.

Em diplomacia, dizem por aí, não existe ideologia, e sim pragmatismo.

Por isso, dizem também por aí, Brasília abriu mão do bla-bla-bla sobre globalismo ao anunciar um acordo do Mercosul com a União Europeia no encontro do G20 após 20 anos de negociações. Falta fazer a lição de casa para referendar o esforço.

Após sua viagem a Washington, onde anunciou o fim do comunismo em seu país, Bolsonaro trouxe na mala o troféu da possível adesão à OCDE com tapete vermelho americano. Era uma das poucas contrapartidas após oferecer ao congênere a camisa 10 da seleção brasileira e abrir mão do tratamento especial e diferenciado nas negociações da Organização Mundial do Comércio, como pediam os EUA (até então, o país tinha vantagens comerciais por ser uma economia emergente).

“Pela primeira vez em muito tempo um presidente brasileiro que não é antiamericano chega a Washington. É o começo de uma aliança pela liberdade e a prosperidade”, alardeou Bolsonaro ao pousar na capital norte-americana.

Com tanto alarde, em tom claramente ideológico (os antecessores, afinal, estavam longe de serem antiamericanos), não teve como escapar das piadas nas redes nesta quinta-feira, dia 10. De mãos abanando, Bolsonaro ficou parecendo o filho que pede um brinquedo no shopping e é enrolado pelos pais com o clássico da dissimulação: na volta a gente compra.

O episódio ganhou ares de vira-latismo por ter acontecido pouco depois de Bolsonaro ouvir um seco “bom te ver” ao dizer ao congênere que o amava, o que rendeu um festival de memes com corações partidos pelas redes.

As brincadeiras estão em consonância com os ares de jardim da infância da política nacional - um ambiente que o próprio presidente ajuda a alimentar.

Em sua live semanal, Bolsonaro prometeu que “vai chegar a hora do Brasil” e que ninguém chega assim, chegando, no grupo das economias mais ricas do mundo.

Observado com certo distanciamento, o anúncio americano não necessariamente invalida o acordo com o governo brasileiro. Se este for confirmado, mais dia ou menos dia, será a vez de seus apoiadores irem à desforra para celebrar o gol do “mito”.

A diplomacia, enquanto isso, vai se lambuzando na histeria dos afetos de arquibancada que marcam os humores nacionais. Alguns preferem chamar de polarização.

Como definiu Rubens Ricupero, diplomata e ex-ministro da Fazenda, a ausência de perspectiva para a entrada na OCDE reflete uma política externa “ingênua” e “sem resultado” de quem apostou todas as fichas em Donald Trump - um presidente, aliás, mais preocupado em se manter no posto do que em agradar o amigo brasileiro.

No mesmo dia do quiprocó sobre a OCDE, dois empresários que ajudavam Rudy Giuliani, advogado do presidente americano, a investigar o democrata Joe Biden foram presos em um esquema de direcionamento ilegal de dinheiro para um comitê eleitoral pró-Trump. A prisão é mais um capítulo do caso que ameaça ejetar o republicano da Presidência.

É nesse iceberg que Bolsonaro apostou todas as fichas. “Na volta” o brinquedo pode não estar mais na prateleira.