Phoebe Bridgers exibe sua tristeza apocalíptica em festival no Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Não há nenhum lugar como o meu quarto", canta Phoebe Bridgers no primeiro verso de "I Know the End", que fecha o disco "Punisher", lançado em junho de 2020 -apenas três meses depois de o mundo entrar em quarentena e ganhar contornos apocalípticos parecidos com os que ela constrói na faixa com a ajuda de letras, instrumentos e muitos gritos.

A canção funciona como um expurgo e uma síntese de boa parte do que se precisa saber sobre a música da americana que vem ao Brasil pela primeira vez neste domingo, quando toca no Primavera Sound, em São Paulo.

A voz de Bridgers é doce enquanto profetiza a calma e a solidão de seu lugar mais seguro, mas cresce em desespero à medida que ela sai do quarto e dirige sob a luz ultravioleta apocalíptica. Paisagens reais e imaginárias se misturam, e um outdoor que avisa que o fim está próximo ocupa o mesmo universo que uma nave alienígena. A música cresce em uma colagem de sons até chegar a sua catarse. Aos berros, ela atinge sua forma menos sutil -mas tão vulnerável quanto antes.

A cantora de 28 anos ficou conhecida por forjar, já em seu primeiro álbum, "Stranger in the Alps", de 2017, histórias baseadas em situações mundanas, com maestria e riqueza de detalhes. Anos depois de soltar o disco que ela mesma financiou com o cachê de pontas em anúncios de TV e shows em mercados, ela ascendeu oficialmente com "Punisher" -que rendeu a ela quatro indicações ao Grammy.

A fórmula é explorada por outras cantoras da safra roqueira que despontou nos últimos anos --algumas são amigas dela, como Lucy Dacus e Julien Baker, com quem lançou o projeto Boygenius em 2018--, mas Bridgers se destaca com o tom de quem vê a tristeza como um sentimento cômico e inerente à vida.

"Sempre me interessei em escrever sobre a profunda solidão que é ser uma pessoa, mesmo quando se tem uma vida cheia de sorte", diz a cantora em entrevista. "E gosto de ser conhecida por escrever coisas que sinto intensamente."

Criada ao som de músicas do Laurel Canyon -bairro de Los Angeles que virou palco da contracultura nas décadas de 1960 e 1970- ela absorveu algo da franqueza poética de Joni Mitchell e a misturou ao emo de bandas como Bright Eyes, que passou a ouvir na adolescência. Nada, no entanto, a influenciou mais que Elliott Smith. A faixa que dá nome a "Punisher", aliás, faz parte de um mundo em que seu ídolo ainda está vivo.

Ao mesmo tempo em que incorpora referências antigas -ela cita em suas letras artistas como David Bowie, John Lennon e Eric Clapton-, ela compõe sobre questões de sua geração, como depressão e relacionamentos tóxicos, e conta que escrever a ajuda a superar esses sentimentos, ainda que, às vezes, leve anos para os acessar. "É como eu processo o que sinto. Algumas coisas são mais rápidas, mas a maioria leva uma eternidade. É meu jeito de ser cuidadosa."

O momento em que ela tem de abrir o coração na frente de milhares de pessoas acaba por ser sua libertação. "No palco eu penso sobre minha vida, sobre como é divertido tocar. É legal lembrar do que você sentiu quando escreveu, mas seria muito difícil ter de fazer isso toda vez", diz.

Apesar de ter se tornado uma das vozes da música indie mais cultuadas justamente por esse seu retrato honesto sobre a tristeza, Phoebe Bridgers se diz interessada em diferentes coisas agora.

"Estou tentando escrever sobre, sei lá, me sentir bem. Espero que isso também seja interessante para mim."