Petrobras desiste de recorrer em ação e terá que rebatizar campo de Lula

NICOLA PAMPLONA
***FOTO DE ARQUIVO**/*SÃO PAULOS/ SP, BRASIL, 17-01-2020: Reunião do diretório nacional do PT, com a presença de Lula e Dilma. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Após desistir de recorrer em ação judicial, a Petrobras já iniciou conversas com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) para mudar o nome o campo de Lula, o maior produtor de petróleo do país, batizado em homenagem ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A mudança de nome foi pedida em ação civil pública movida em 2015 pela advogada Karina Pichsenmeister Palma, sócia de um escritório em Porto Alegre, alegando que a homenagem gerou indevida e ilegal promoção do ex-presidente e lesão ao patrimônio público.

Nesta terça (7), o processo foi encerrado pelo TRF4 (Tribunal Federal Regional da Quarta Região) após o fim do prazo para recursos sem manifestação da Petrobras. A decisão confirma vitória parcial que Palma obteve em 2017, determinando a alteração do nome do campo.

"Está comprovado, nos autos, que o ato administrativo que denominou o campo de petróleo, um patrimônio público, de 'Campo de Lula' objetivava a promoção pessoal de pessoa viva (o presidente da República na época em que praticado o ato)', escreveu a desembargadora Marga Inge Barth Tessler, relatora do processo.

Também réu na sentença, o presidente da Petrobras á época do batismo, José Sérgio Gabrielli, disse não haver ilegalidade no batismo do campo e negou que fosse homenagem ao ex-presidente. Solicitou que seu nome fosse retirado do processo.

Antes da decisão do TRF, a Petrobras também havia recorrido, alegando que não há prova de desvio de finalidade nem comprovação de ilegalidade. A estatal, porém, decidiu não questionar a última sentença e o processo foi encerrado nesta terça (7), após o fim do prazo para recurso.

Lula foi uma das primeiras descobertas do pré-sal, em bloco exploratório concedido à estatal em 2000. O projeto foi batizado inicialmente de Tupi, mas virou Lula em 2010, quando se tornou oficialmente um campo de petróleo - isto é, quando foi comprovada sua viabilidade comercial.

A mudança de nomes das descobertas de petróleo após sua comprovação comercial é comum. O campo de Búzios, onde está a maior descoberta brasileira atual se chamava Libra quando ainda era um projeto de exploração - pelas regras da ANP, os campos marítimos no país devem ter nomes ligados à flora e fauna marinha.

Quando optou por batizar o campo de Lula, a Petrobras negava que seria homenagem direta ao ex-presidente da República. Em evento no Ceará em dezembro de 2010, porém, Lula disse ter ficado orgulhoso com a escolha e agradeceu Gabrielli.

"Sinceramente, fiquei feliz. Obrigado companheiro Gabrielli", disse, em entrevista após visita ao local onde seria instalada a natimorta refinaria Premium do Ceará, um dos grandes projetos idealizados na gestão petista que nunca saíram do papel.

A descoberta gigante motivou o governo a aprovar uma nova lei para o setor de petróleo no país, criando os contratos de partilha da produção, que garantem à União parte do óleo produzido, e uma nova estatal, a PPSA, para gerir os contratos.

Serviu como justificativa também para o aumento das exigências de compras de bens e serviços no Brasil, com o objetivo de gerar empregos na indústria naval. O projeto levou à abertura de diversos estaleiros pelo país e à criação da empresa de sondas Sete Brasil, todos alvos da Operação Lava Jato por denúncias de corrupção.

Hoje com oito plataformas instaladas, Lula e duas descobertas adjacentes produziram em maio 1,2 milhão de barris petróleo e gás por dia, o equivalente a um terço da produção nacional.

Com baixo teor de enxofre, seu petróleo produz derivados menos poluentes e tem grande demanda no mercado internacional, chegando a ser negociado com prêmios sobre as cotações internacionais. A marca "petróleo Lula" é hoje referência para precificar as exportações do pré-sal.

A determinação pela mudança de nome foi mal recebida na ANP, diante da necessidade de ajustes nos sistemas de controle da produção nacional de petróleo. Em nota, a agência disse apenas entender que não deveria ser parte na ação, já que não participou da escolha do nome, e que não iria recorrer.

Procurada, a Petrobras ainda não respondeu ao pedido de entrevista sobre o assunto.