Mercado paga o preço por apostar na conversa furada de Bolsonaro

Matheus Pichonelli
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Brazil's President Jair Bolsonaro holds a doll depicting him riding a toy buffalo during a ceremony at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil March 3, 2020. REUTERS/Adriano Machado     TPX IMAGES OF THE DAY
O presidente Jair Bolsonaro em foto de março de 2020. Foto: Adriano Machado/Reuters

Em julho de 2018, durante a campanha presidencial, o então candidato do PDT, Ciro Gomes, foi vaiado por uma plateia de empresários graúdos ao defender mudanças na reforma trabalhista —aquela que, uma vez aprovada, ainda no governo Temer, faria jorrar oportunidades de negócios e serviços em uma correnteza de leite e mel.

A reação do pedetista às vaias soa hoje como premonição: “Se quiserem um presidente fraco, escolham um desses que vieram aqui com conversa fiada. Não vim aqui buscar simpatia. E ninguém fará reforma com antagonismo com o mundo do trabalho.”

Antes de encerrar, ele disse que “ganhar dinheiro é coisa importante, mas vamos pensar no país”.

O grosso da plateia, que não se limitava àquele evento, quis pagar para ver. Embarcou em peso na conversa de um candidato que dizia não entender nada de economia e, por esse motivo, daria carta-branca ao que, imaginava-se, seria a eminência parda do futuro governo. Pelo raciocínio, Paulo Guedes seria o comandante de fato das reformas e liquidações enquanto Jair Bolsonaro passaria quatro anos fazendo o que sempre fez: entretendo a plateia atolando sorvetes na própria testa e sendo chamado de “mito”.

Os demais, iludidos da própria esperteza, babariam na gravata em paz.

Na época, era quase onipresente uma propaganda de postos de combustíveis indicada por um matuto à beira da estrada a todo motorista que estava perdido. E o futuro ministro da Economia ganhou o apelido de Posto Ipiranga.

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Seu chefe era um ex-capitão indisciplinado que acumulou encrencas com seus superiores no Exército enquanto brigava por aumento salarial. As exigências contavam com métodos heterodoxos de negociação, como um suposto plano para explodir com bombas uma adutora do rio Guandu, no Rio. Um detalhe para quem imaginou estar no papel do professor Henry Higgins no filme "My Fair Lady”. Pagaram o gato e levaram para casa a versão parodiada por Roberto Bolaños.

Jair Bolsonaro ganhou o tal “mercado” admitindo sua ignorância em assuntos econômicos. Era como dar aos barões uma massa amorfa de argila que poderia ser moldada à imagem e semelhança do liberalismo chileno dos anos Pinochet, a inspiração de seu preposto instalado no Ministério da Economia.

Quem vislumbrou um rio de dinheiro logo ali, no Posto Ipiranga, não percebeu que acabava de ser engolido por alguém mais esperto. Alguém que, ao assumir o posto (sem trocadilho), não se constrangeria em se desfazer de quase todos os aliados que pavimentaram a estrada até o Planalto. A começar por seu braço-direito na campanha, Gustavo Bebianno, passando pelo símbolo maior da Lava Jato, Sergio Moro, mastigado e cuspido no acostamento, parte da bancada que ajudou a eleger e até o vice-presidente, um general a quem o capitão recompensa seus anos de submissão no Exército mandando calar a boca.

Ao escolher a pior das opções da lista de presidenciáveis, em 2018, a parte convertida do mercado sabia ter comprado uma ação de risco pensando em encher as burras no curto prazo. Arriscou e perdeu a previsibilidade, a regra que mais deveria importar neste jogo.

Hoje o investidor encerra o expediente na sexta à noite sem saber quem vai ser o presidente da Petrobras (ou, antes, do BNDES ou do Banco do Brasil) na segunda e manhã. Tudo depende do humor de quem tem sido governado pela própria bile e ficou à mercê dos ventos apontados pelas redes sociais. Uma biruta de aeroporto não é menos confiável.

Alguns ensaiam uma reação, sem saber que aos poucos são levados à mira do paredão de detratores em um país onde faltam vacinas e sobram armas. Belo progresso.

Desde que assumiu, Bolsonaro, que nunca governou uma banca de açaí, só faz emitir sinais de que quem manda é ele e ponto. Num instante de raiva, anunciou mudanças na petrolífera e prometeu mais. A resposta do tal mercado foi o derretimento das ações da maior companhia do país —justamente por conta dos ajustes de preços nos postos de gasolina, onde toda a analogia mitológica de seu superministro começou.

Bolsonaro já havia feito o mesmo em relação ao comando do Banco do Brasil, da Polícia Federal, da Procuradoria Geral da República, do Congresso e de outras instituições que devotam a sobrevivência à palavra independência. Uma palavra riscada com os garranchos da caneta de quem tenta mostrar força a cada rompante.

De rompante em rompante, Bolsonaro conseguiu transformar seu ministro da Economia —aquele que no começo da pandemia dizia que iria descolar milhões de testes de coronavírus com um amigo gringo e até agora nada— em mais uma figura decorativa do Planalto.

Só mesmo a resistência em dar o braço a torcer aos seus pares que nunca deram a ele o posto que jurou merecer explica a permanência de Paulo Guedes em um governo que o submete ao molho da própria fritura.

Como resumiu Laerte em sua charge na Folha de S.Paulo, o resultado do embate entre a varinha mágica privatizadora e a da militarização são os destroços da Petrobras. Acreditou na conversa furada quem quis.