'Pessoas Normais' tem escrita sofisticada disfarçada

SANTIAGO NAZARIAN

(FOLHAPRESS) - Connell é o atleta popular. Marianne é a garota esquisita. Durante o ensino médio eles engatam um romance secreto --e seguem com idas e vindas durante o espaço de quatro anos em que se passa a história, de 2011 a 2015, até o término da universidade.

Por vezes Connell se torna o recluso esquisito, Marianne vira estrela da faculdade, então o contexto muda. Mas a relação entre os dois permanece, num misto de amizade colorida e amor livre. 

"Pessoas Normais" é a segunda obra da jovem irlandesa Sally Rooney, de 28 anos, que estreou com "Conversas entre Amigos" (lançado no Brasil em 2017, pela Alfaguara) e se tornou um fenômeno literário, publicada em mais de uma dezena de países e finalista do Booker Prize.

É compreensível: sua escrita é sofisticada, fluida e, acima de tudo, eficiente. Ela inicia capítulos com saltos no tempo, para então recapitular e mostrar como as coisas chegaram até o momento presente. Os diálogos diretos são inseridos no texto sem separação de aspas (ou travessões, por aqui), como se toda sua escrita tivesse essa falsa despretensão coloquial. É esse o traço que mais salta no romance, ser falsamente despretensioso. 

Rooney tem mestrado em literatura americana e isso é flagrante não só na estrutura do texto, como no universo que retrata. Apesar de o livro se passar na Irlanda, não poderia ter um tom mais de "high school" americano, com as divisões entre os alunos, o bullying, o bailinho de formatura em que o menino precisa convidar a menina.

Com frequência surge um estranhamento quando o livro cita Dublin ou as viagens dos dois protagonistas pela Europa, nos lembrando que o livro não se passa nos Estados Unidos. Isso não é um problema em si, mas é um dos sintomas de a autora querer retratar "pessoas normais", fazer uma "escrita normal", eficiente, reconhecível e premiável. 

Ela não se arrisca, joga seguro --não há estranhamento, não há loucura, falta personalidade. 

Longe de ser um livro ruim, "Pessoas Normais" é, no final das contas, um livro de menininha --um bom livro de menininha. Mas espero que não crie escola, não precisamos de mais escritoras escrevendo normalzinho assim.

PESSOAS NORMAIS

Avaliaç: bom

Preço: R$ 54,90 (264 págs.)

Autor: Sally Rooney

Editora: Companhia das Letras

Tradutora: Débora Landsberg