Pessoa não binária: o que é, a uso de pronomes e da linguagem neutra

LOS ANGELES, CALIFORNIA - MAY 27: Demi Lovato is seen arriving at the 2021 iHeartRadio Music Awards on May 27, 2021 in Los Angeles, California. EDITORIAL USE ONLY (Photo by Emma McIntyre/Getty Images for iHeartMedia)
Demi Lovato revelou ser uma pessoa não binária no começo do ano (Foto: Getty Images)

Neste texto, você encontra:

  • O que é uma pessoa não binária;

  • O papel dos pronomes como parte da identidade de gênero;

  • O uso da linguagem neutra.

Em maio deste ano, Demi Lovato anunciou para o mundo que é uma pessoa não binária. Pouco depois, em junho, explicou durante uma entrevista em comemoração ao Pride Month, o mês do orgulho LGBTQIA+, no YouTube, que conversou com amigos e familiares próximos sobre o assunto muito tempo antes. Demi aproveitou a conversa para compartilhar no Instagram os seus pronomes de identificação e que espera ajudar outras pessoas que passam ou passaram por uma trajetória semelhante à sua.

Também este ano, em maio, a atriz brasileira Bárbara Paz fez um anúncio parecido. Em entrevista no podcast "Almasculina", revelou que também se identifica como pessoa não binária, e que essa foi uma descoberta recente. "Sou uma pessoa inquieta. Uma mulher, um homem, não binária", disse. "Descobri que sou não binária há pouco tempo. Um amigo meu falou que eu era, e eu acreditei, entendi".

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Mas o que é uma pessoa não binária?

Para entender a não-binariedade, precisamos dar um passo atrás e lembrar do que é binariedade. Basicamente, define-se por duas identidades de gênero macro: cisgênero e transgênero. Cisgênero são todas as pessoas que se identificam com o sexo biológico, aquele com o qual nasceram. Ou seja, pessoas com órgãos sexuais femininos e que se identificam e se sentem representadas por ele, como alguém que nasceu com um útero e vagina e se identifica como mulher.

Ao contrário, pessoas transgênero são aquelas que não se identificam com o sexo biológico, como alguém que nasceu com órgãos sexuais masculinos, mas se acredita mulher. A não-binariedade entra nesse meio: são pessoas não se identificam com gêneros, independente da biologia com a qual nasceram.

"A não-binariedade é usada para descrever as pessoas que sentem que o seu gênero não pode ser definido dentro das margens da binariedade de gênero. Ao invés disso, entendem seu o gênero de uma forma que vai além de simplesmente se identificarem como 'homem' ou 'mulher'", explica a página oficial da LGBT Foundation, uma fundação que oferece suporte à comunidade LGBTQIA+.

Quando se fala em não binariedade, pode acontecer de essas pessoas se identificarem como homens e como mulheres ao mesmo tempo, ou não se identificarem absolutamente com nenhuma das duas coisas, assim como penderem ora mais para um lado, ora mais para o outro.

A questão dos pronomes

Aliás, aproveitando o assunto, a questão dos pronomes tem um papel muito importante na não binariedade - e nas questões de gênero como um todo. A língua, de forma geral, é uma ferramenta importante de auto-afirmação, por isso, é comum membros da comunidade LGBTQIA+ determinarem como preferem ser referidos.

Os pronomes são a parte mais importante desse processo, e é aí que a linguagem neutra começa a ganhar força e corpo. A princípio, em uma língua como o português, muito definida por marcadores de gênero, pode parecer estranho. No inglês, pessoas não binárias usam os pronomes coletivos "they / their" como marcadores de referência, e verbos e substantivos, normalmente, não precisam ser adaptados para se referirem a essas pessoas. A palavra em inglês para "cantor", "singer", vale tanto para o masculino, quanto para o feminino, quanto ainda para o não binário. Em português, uma prática comum é substituir as letras "a" ou "o" por "u": por exemplo, "elu" ao invés de "ele / ela".

O uso do "e" no final de palavras que contam com marcadores de gênero (por exemplo: "cantore" ao invés de "cantor/cantora"; "amigue" no lugar de "amigo / amiga") também se torna comum para abranger essas pessoas na linguagem. Vale, inclusive, buscar por termos mais abrangentes ao se referir aos coletivos - como trocar "professores" por corpo docente -, principalmente quando notamos que a língua portuguesa prioriza os termos em masculino para se referir aos plurais.

Mais importante que tudo isso, também, é utilizar o nome com o qual a pessoa se identifica. Vale lembrar do caso Elliot Page e a história do "nome morto". Uma pessoa trans, via de regra, escolhe para si um nome que faz referência a sua identidade de gênero - e é importante usá-lo! O mesmo vale para pessoas não-binárias. Como, aqui, a questão do nome e dos pronomes pode variar, o essencial é perguntar se você tiver dúvidas, e seguir a orientação da pessoa.

E como agir diante de uma pessoa não binária?

Exatamente da mesma maneira que você agiria diante de qualquer outra pessoa que conhece. O fato é: você não precisa entender totalmente o que a não binariedade significa para respeitar alguém não binário. Na dúvida, vale seguir os itens abaixo:

  • Use o nome que a pessoa pede para você usar, e evite perguntar "qual o seu nome antigo?" ou se ela tem outro nome.

  • Não tire conclusões sobre o gênero de alguém ou busque encaixar a imagem que você vê na ideia que você tem de "não binariedade" ou de "binariedade".

  • Se você não tem certeza sobre quais pronomes usar, pergunte. Não dói, não ofende e é mais simples do que tentar adivinhar.

  • Trabalhe a sua própria inclusão. Se você quer incluir as pessoas na sua vida, independente de gênero, busque amplitude, inclusive linguística: evite termos masculinos e femininos, se puder, invista na linguagem neutra e nos termos abrangentes.

  • Converse com pessoas não binárias. A melhor forma de entender alguém é conhecendo a sua história, que nunca será igual a de outra pessoa não binária. Por isso, ouça mais e fale menos, proponha-se a entender essas pessoas.