Pesquisadores decifram carta de Carlos V após cinco séculos

Quatro pesquisadores franceses decifraram uma carta escrita em 1547 por Carlos V ao seu embaixador na França. Essa descoberta "excepcional" põe foco sobre as relações entre o Sacro Império Romano e o reino liderado por Francisco I.

Para conseguir esta façanha de decifrar uma sucessão de símbolos "ininteligíveis" cinco séculos depois, foram necessários seis meses de trabalho de criptógrafos do Laboratório de Pesquisa em Ciência da Computação e suas Aplicações (LORIA, na sigla em inglês) junto a um historiador da Universidade da Picardia, explicaram os especialistas em Nancy, leste da França.

A carta, esquecida por séculos, estava no acervo da biblioteca municipal Stanislas, em Nancy. Cécile Pierrot, criptógrafa do LORIA, ouviu falar durante um jantar sobre uma "carta criptografada" de Carlos V, também Carlos I da Espanha (1500-1558), por acaso.

A pesquisadora pensou que se tratava de uma lenda. Entretanto, dois anos depois, a existência daquele documento foi novamente mencionada e instigou sua curiosidade.

Ela viu a misteriosa e incompreensível carta com a assinatura do imperador pela primeira vez no final de 2021. A mesma estava endereçada ao seu embaixador, Jean de Saint-Mauris.

Desde então, começou o trabalho para decifrá-lo. Cécile Pierrot analisou longamente a carta e classificou os quase 120 símbolos usados por Carlos V através de "diferentes famílias".

Depois, contou quantas vezes cada um apareceu e observou as combinações que poderiam ser repetidas.

- Código diabólico -

Junto com outros dois pesquisadores do laboratório, Pierrick Gaudry e Paul Zimmermann, eles decidiram usar computadores para "acelerar" o trabalho. Não era inteligência artificial, mas seres humanos "fazendo as perguntas certas ao computador", disse a criptógrafa.

Avançaram "a passos pequenos", porque o código usado por Carlos V é diabólico. Além do número significativo de símbolos, "palavras inteiras são criptografadas com um único símbolo" e as vogais precedidas por uma consoante são marcadas com diacríticos, uma inspiração provavelmente vinda do árabe, explicou Cécile Pierrot.

Outro elemento intrigante é o uso de "símbolos nulos", que não significam nada e servem para enganar o adversário que tentar decifrar a mensagem.

A revelação finalmente veio em junho, quando Pierrot conseguiu isolar uma sequência de palavras na carta.

Para isso, os três criptógrafos de Nancy convocaram Camille Desenclos, especialista tanto em criptografia quanto nas relações entre a França e o Sacro Império Alemão durante o século XVI.

A historiadora os ajudou a encaixar as peças do quebra-cabeça ao contextualizar a carta para entender melhor as alusões.

- "Pedra de Roseta" de Besançon -

Uma verdadeira "pedra de Roseta" também ajudou os pesquisadores: Uma carta de Jean de Saint-Mauris guardada em Besançon (leste da França), na qual o destinatário escreveu  na margem "uma forma de transcrição" ao decifrar uma carta enviada pelo embaixador, detalhou Pierrot.

Uma vez decifrada, a carta "confirma o estado bastante degradado" das relações entre Francisco I da França e o Sacro Imperador Romano Carlos V em 1547, que, no entanto, havia assinado um tratado de paz apenas três anos antes, explicou Camille Desenclos.

Apesar desta paz, os dois soberanos mantiveram uma "desconfiança" recíproca "extremamente forte" e procuraram "enfraquecer" um ao outro, acrescentou.

Há outra informação revelada pela carta descriptografada, "um boato de uma conspiração para assassinar Carlos V que estava sendo arquitetada na França", disse Desenclos. "Não se sabia muito" sobre isso, que nunca foi concretizado.

Na carta ao seu embaixador, Carlos V refere-se também à situação do seu império e à sua “estratégia político-militar”, ou seja, a utilização de correspondência cifrada que lhe permitia “disfarçar” as informações dos seus adversários.

Agora, os pesquisadores esperam identificar outras cartas do imperador e do seu embaixador na Europa "para ter um retrato da estratégia de Carlos V" no Velho Mundo.

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