Perseguida em “Pantanal”, Juma prova que nem “virando onça” a mulher tem paz

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Em uma das cenas da nova temporada de "Pantanal", Tadeu (José Loreto) conta para Jove (Jesuíta Barbosa) sobre a lenda de Maria Marruá, a mulher que vira onça. Descrente, o jovem criado no Rio de Janeiro pede para conhecer a camponesa, e Tadeu explica que ela foi assassinada, mas que a filha, Juma (Alanis Guillen), permanece morando isolada da sociedade e compartilha do mesmo talento misterioso da mãe. Curioso, Jove pede para que Tadeu mostre a tapeira na qual Juma mora, e os dois são recebidos pela jovem com a espingarda em punho.

Sem medo, Juma aponta a arma na direção dos forasteiros, avisando para que eles fiquem longe de sua casa e suas terras. A cena foi feita para criar uma tensão no encontro entre Juma e Jove, que serão um casal no futuro da trama, mas na verdade mostra a vulnerabilidade e perigo enfrentados diariamente por Juma, que precisa se proteger de uma sociedade profundamente hostil, machista, e que trata mulheres como objeto.

Juma tem todos os motivos para ser anti-social e não querer nenhuma aproximação com os homens que trabalham na fazenda de José Leôncio (Marcos Palmeira). A história da mãe, Maria Marruá, foi sofrida e marcou a primeira temporada da novela. Em uma disputa de terras ao lado do marido, Gil, Maria tem os três filhos assassinados quando se desespera ao saber que está grávida de Juma. Com medo de perder a menina, ela se torna ainda mais desconfiada dos homens que rondam suas terras. Maria dá à luz Juma sozinha em uma canoa no meio do rio e, para proteger a menina, se torna onça diante do ataque sorrateiro de uma sucuri.

Virar bicho

Em uma cena delicada e emocionante, Maria conversa com a pequena Juma, então por volta dos cinco anos, sobre a lenda da mulher que se torna onça. "Você sabia porque me chamam de Maria Marruá? Dizem que eu não tenho medo nem de bicho nem de gente. Eles falam que quando é noite de lua cheia, Maria Marruá se embrenha pelos matos e sai à caça para alimentar a sua cria. Por isso eles tem medo de mim. E um dia terão medo de você. Juma Marruá. Você deixe eles falarem, porque eles falando, ficam longe da gente. Deixem eles dizerem que a mãe vira onça. Eles falando, estamos protegidas. Você entendeu?", questiona a mãe.

A cena mostra que o momento no qual Maria vira onça, na verdade, é uma metáfora criada pela trama para demonstrar como a mulher precisa literalmente "virar bicho" para proteger a si mesma da sociedade hostil. Jove e Tadeu, mesmo não querendo fazer mal à Juma, demonstraram total desrespeito por sua privacidade e individualidade ao invadir sua casa e suas terras, tratando-a como um animal exótico em constante exibição em um zoológico. Juma não tem poder para afastar os homens de José Leôncio de suas terras, e é a lenda deixada por Maria Marruá que a protege contra os inúmeros ataques que pode sofrer como uma mulher morando sozinha em um território machista e misógino.

Violência no campo

Embora a violência contra a mulher não seja restrita ao campo, os números são assustadores quando falamos da misoginia que assola lugares sem regulação da lei e que ainda não possuem pontos de denúncia. Em locais como as terras retratadas em "Pantanal", a lei ainda é definida pela bala e por quem possui mais poder e dinheiro em meio aos latifundiários. No caso de mulheres indígenas e quilombolas, a situação é ainda pior, já que grande parte da violência é perpetrada por policiais e representantes da lei.

De acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), retirados do relatório Conflitos no Campo, nos últimos dez anos, 446 mulheres foram ameaçadas de morte em enfrentamentos no campo. Desse total, posseiras (90), quilombolas (60) e trabalhadoras sem terra (49) reúnem o maior número de ameaçadas. De 2011 a 2020, foram registradas 77 tentativas e 37 assassinados de mulheres em conflitos fundiários e socioambientais, além de crimes contra as mulheres como agressões, detenções, estupros, lesões corporais, humilhações, intimidações e prisões.

O medo de Juma dos peões e jagunços que a rondam não é imaginário, e falta em "Pantanal" um posicionamento sobre como o agronegócio, a grilagem e a exploração de terras coloca em perigo a vida das mulheres originárias e que tentam viver em paz em territórios ocupados.

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