Pela primeira vez, negros são maioria em principal prêmio de artes plásticas do país

CLARA BALBI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais tradicional premiação de artes plásticas do Brasil, o prêmio Marcantonio Vilaça anunciou, na noite desta quinta (12), os vencedores de sua sétima edição. São eles Aline Motta, Dalton Paula, Dora Longo Bahia, Ismael Monticelli e Rodrigo Bueno.

Como em edições anteriores, a lista de ganhadores equilibra nomes fortes no circuito, aqui Paula e Longo Bahia, e emergentes, caso de Motta, Monticelli e Bueno.

Esta é a primeira vez, no entanto, que três dos cinco vencedores da edição --Paula, Motta e Bueno-- são negros. Desde a criação do prêmio, há 15 anos, apenas dois artistas negros haviam sido escolhidos pelo júri da premiação, Jaime Lauriano e Lucia Laguna, respectivamente em 2017 e 2006.

"Estamos de certo modo recuperando um espaço que foi silenciado", diz Marcus Lontra, membro da banca avaliadora ao lado dos curadores Daniela Bousso, Denise Mattar, Moacir dos Anjos e Paulo Herkenhoff, e do diretor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Fabio Szwarcwald. "A presença de artistas negros em coleções, por exemplo, é irrisória. E eles são um grupo importante na arte contemporânea brasileira."

Lontra acrescenta ainda que a presença de Paula, Motta e Bueno na premiação é representativa porque "a situação negra não pode ser reduzida a apenas um artista".

Paula, por exemplo, tematiza a violência colonial e o lugar de prazer dos corpos negros em suas pinturas e instalações. Motta costura memórias pessoais e coletivas em sua busca pelas lacunas da história relacionada à escravidão no país. E, com seu Ateliê Mata Adentro, Bueno recupera e transforma resíduos da cidade.

Além deles, Longo Bahia é conhecida por obras de alta voltagem política, em que retrata a violência das grandes metrópoles. Por fim, Monticelli tem um prática mais conceitual, dedicando-se a reordenar espaços, objetos, materiais e narrativas e, assim, apresentar uma nova maneira de compreendê-los.

Cada um dos cinco ganhadores receberá uma bolsa de R$ 50 mil e terá sua obra acompanhada por um curador durante um ano. Eles também participarão de uma exposição itinerante, a ser exibida em Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Campo Grande no ano que vem --a organização ainda negocia levar a mostra para o Rio de Janeiro.

Em São Paulo, os trabalhos dos vencedores podem ser vistos ao lado de obras dos outros 25 finalistas do prêmio no Museu de Arte Brasileira (MAB-Faap) a partir desta sexta (13).

Uma mostra paralela no mesmo local homenageia Anna Bella Geiger por meio de um diálogo entre obras da carioca e de outros 11 artistas.