Pela imprensa, Greta Thunberg manda recado a Jair Bolsonaro: “escute a ciência”

Markus Schreiber/AP

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Em ato pré-fórum de Davos, ativista sueca sugeriu que presidente brasileiro tome decisões políticas com base nos resultados de anos de pesquisas da ciência.

  • Evento do qual Greta participou teve ataques e longas vaias ao governo do Brasil.

Bolsonaro se tornou alvo de uma forte pressão internacional e se transformou em um dos nomes mais citados em manifestações pelo clima no mundo – na imensa maioria das vezes, contudo, como exemplo a ser evitado. A posição do ex-capitão sobre a Amazônia e sobre mudanças climáticas se transformaram em uma imagem antagônica aos milhares de jovens que optaram por tomar as ruas de cidades pelo mundo, no último ano.

Em mensagem ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a ativista sueca Greta Thunberg foi objetiva: "Escute a ciência". A resposta foi dada ao jornalista Jamil Chade, do portal UOL, a poucos dias de começar em Davos, nos Alpes suíços, o Fórum Econômico Mundial.

Leia também

Bolsonaro se tornou alvo de uma forte pressão internacional e se transformou em um dos nomes mais citados em manifestações pelo clima no mundo – na imensa maioria das vezes, contudo, como exemplo a ser evitado. A posição do ex-capitão sobre a Amazônia e sobre mudanças climáticas se transformaram em uma imagem antagônica aos milhares de jovens que optaram por tomar as ruas de cidades pelo mundo, no último ano.

No apelo a Bolsonaro, o recado de Greta não era complexo: é preciso tomar decisões políticas com base nos resultados de anos de pesquisas da ciência e que têm demonstrado que o planeta vive um momento decisivo.

O blogueiro percorreu a cidade de Lausanne, nessa sexta (17), ao lado do grupo de Greta. Ela fazia parte de uma manifestação que reuniu 10 mil jovens, em defesa do clima. Às vésperas de seu desembarque em Davos na semana que vem para falar com a elite mundial, a ativista usou seu primeiro evento na Suíça para mostrar a força de sua mobilização. Ela não deixou de fustigar os líderes internacionais, muitos dos quais não escondem o mal-estar diante de seu discurso.

Ainda que seja admirada por muitos, Greta é também alvo de críticas, embora, nas ruas, seu poder parecesse incontestável.

De acordo com Chade, nas quase duas horas, a "pirralha" –assim chamada recentemente por Bolsonaro –era acompanhada por uma histeria comparada a um astro do futebol ou da música. Sempre com o semblante fechado, Greta e seu entorno mantinham um detalhado controle sobre tudo o que ocorria e a cada passo que dava.

A jovem se recusou a liderar a manifestação e estava no meio de todos, longe das bandeiras e cartazes empunhados pelos estudantes locais que direcionavam a multidão pela cidade suíça. A mensagem que tentava passar era de que ela seria apenas uma garota a mais na massa de jovens que tomaram as ruas.

Com um gorro de lã, botas e uma luva surrada, Greta passou parte do percurso olhando para o chão. Praticamente não falou por mais de uma hora. Enquanto ela caminhava, o que se via em seu entorno era uma estrutura profissional: três seguranças à paisana, observando constantemente tudo e todos.

Para que pudesse caminhar, os organizadores da manifestação tinham inicialmente convocado dez jovens para fazer uma espécie de cordão para impedir que as pessoas se aproximassem, mas a estratégia falhou: minutos depois, eles já eram 20 fazendo um muro para protegê-la dos fãs e curiosos.

Ao caminhar, a jovem via as sacadas dos prédios antigos do centro de Lausanne se abrirem. Nem o inverno rigoroso dos Alpes impedia que centenas de pessoas se debruçassem sobre suas janelas para esperar por Greta.

Foi assim quando ela passou diante de um hotel cinco estrelas e notou a presença de todos os garçons uniformizados numa sacada, com seus celulares apontados para ela. Mas também foi assim quando ela parou o trabalho de um escritório de um grande banco e levou seus funcionários a sair nas varandas para ver a celebridade. Numa casa funerária, as janelas também se abriram para ver Greta passar.

Era possível ver ao seu lado, na rua, um fluxo constante de jovens empolgados diante de sua presença. O empurra-empurra de alguns apenas terminava quando conseguiam o mais importante: uma foto do ícone daquela juventude.

Uns tentavam selfies, outros simplesmente faziam um "live" enquanto lutavam contra o cordão que a separava da multidão.

Nos discursos dessa agenda, não faltaram ataques ao Brasil. Um dos estudantes que tomou o microfone alertou sobre o desmatamento no país. E, diante dos jovens, alertou que a Suíça estava "recompensando" o governo Bolsonaro ao assinar um acordo de livre comércio com o Brasil, numa alusão sobre o acordo entre o Mercosul e o EFTA, o bloco europeu do qual faz parte a Suíça. "Tudo isso para que o preço da carne seja mais baixo aqui", denunciou. Os milhares de jovens ecoaram uma longa vaia ao governo brasileiro.

Quando Greta tomou o microfone, cada frase dela era interrompida por aplausos e gritos da multidão. Foram breves minutos de um recado cuidadosamente organizado para ser claro e sem ambiguidades.

"Estamos entrando em uma nova década. Não vimos nenhuma ação que as coisas estão sendo feitas. E isso precisa mudar", afirmou a ativista sueca.

"Estamos protestando há várias semanas. Mas isso é só o começo. Para os líderes mundiais, quero dizer que vocês não viram nada ainda. E isso é o que vamos dizer em Davos", alertou.

Esse foi o 74º protesto da jovem. Dificilmente será o último.