Pedro e Alex Escobar mostram a importância da saúde mental e das relações familiares

Alex e Pedro Escobar (Foto: Instagram / Alex Escobar)

Pedro Escobar, filho do apresentador Alex Escobar, virou pauta na última semana. A briga familiar ganhou grandes proporções depois que Pedro usou as redes sociais para desabafar sobre a relação com o pai e suas questões de saúde mental.

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O que chamou a atenção no caso foram as manifestações dos dois lados. Primeiro, Pedro, de 19 anos, comentou online não só sobre a sua depressão e como lida com pensamentos suicidas, como também a forma como, segundo ele, o pai tem lidado com a situação. "Tenho depressão há cinco anos desde que ele descobriu que eu era gay e passou três meses sem falar comigo. Depois disso, as coisas só foram piorando", escreveu ele no Twitter.

Pedro ainda explica como, em 2017, passou por uma tentativa de suicídio e ouviu do pai apenas que "era ingrato". Ele abriu para aos seguidores também como o pai não paga a pensão alimentícia que ele e a irmã deveriam receber - mesmo com um salário na casa dos R$ 80 mil -, e que se recusava a custear os estudos do filho.

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Alex, por outro lado, contou à coluna de Leo Dias que as acusações não eram justas. "Como me defender de uma coisa que eu não sou? Que eu não faço? É a minha palavra contra a dele, infelizmente", explicou. O apresentador do 'Globo Esporte' comentou ainda que o filho toca em temas sensíveis no seu discurso (que já foi deletado do Twitter), mas que são totalmente mentirosos. “Tenho a minha consciência muito limpa de que não sou nada do que ele descreve, de que não fiz o que ele descreve, e a minha família e os meus amigos podem falar por mim", disse.

Saúde mental e a família

Questões de saúde mental têm sido amplamente discutidas - e espera-se que continue assim -, e casos como esse atentam ainda mais a necessidade dessa conversa. Diz um estudo da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, que as chances de um jovem homossexual cometer suicídio é cinco vezes maior do que a de um jovem hétero.

Segundo Paula Dione, psiquiatra integrante do Núcleo de Sexualidade da Holiste Psiquiatria, é importante não sectarizar questões como essas para aumentar ou estabelecer novos preconceitos. Para ela, o que se pode afirmar é, principalmente, uma associação entre pessoas que saem do comportamento heteronormativo e de ansiedade, entre outros. E que, não necessariamente, o ambiente familiar tem alguma relação com o que essas pessoas sentem.

"Os transtornos mentais, assim como diversas outras condições médicas, decorrem de diversas causas e podem ser influenciados por muitos elementos", explica a psiquiatra. "Deve-se ter cautela ao falar do papel da família nesses quadros, para não culpabilizá-la excessivamente, nem posicioná-la como figura neutra perante o adoecimento de um integrante seu. Uma abordagem profissional qualificada fará com que a família possa se perceber enquanto um sistema, em que o comportamento de cada um traz consequências aos demais".

Para Paula, situações como essa devem ser analisadas com cuidado, porque alguém que usa as mídias eletrônicas para fazer um desabafo como de Pedro pode ter intenções específicas. Por isso, não se pode julgar ou tentar entender o que se passa na mente do jovem sem ter total conhecimento de causa - e que essas redes têm sido usadas tanto para começar conversas importantes como para incitar discórdias ou desentendimentos. Qualquer que seja o caso, porém, o cuidado é sempre bem-vindo.

"Cada pessoa deve ser avaliada em sua especificidade, verificando-se qual a sua demanda de tratamento. Em linhas gerais, as populações associadas a maior vulnerabilidade devem poder contar com serviços de acolhimento e adequado encaminhamento de suas demandas, com profissionais qualificados para essa abordagem especializada", explica a profissional.

Segundo Mario Solimene Filho, advogado do escritório Rezende Neto, existe também pontos mais profundos a serem analisados em questões como essa, que vão além do jurídico e das cobranças financeiras: "Do ponto de vista do direito, o caminho é sempre a compreensão mútua, o cumprimento das responsabilidades parentais e a solidariedade. O direito não encara mais as relações de família pela ótica fria dos contratos, mas sim pelo afeto e apoio mútuos. Se a situação está começando a ficar ruim, não procure um advogado: visite o psicólogo. O principal não é encontrar culpados, mas entender o processo, fazer a lição de casa e viabilizar a resolução do problema. Se nada disso resolver, a solução judicial será adequada", explica ele.

Abandono e culpa: como lidar?

Na comunidade LGBTQ+ é comum ouvirmos histórias de jovens que foram abandonados ou expulsos de casa por conta de sua orientação sexual. Segundo o Dr. Mario, por mais que cada caso deva ser analisado individualmente, esse tipo de comportamento é comum.

"Não se trata somente da expulsão de um menor, mas de todo um processo de incompatibilidade que se evidencia com o passar do tempo. Quando a situação chega em um ponto crítico de conflito, a tendência é a ruptura: o filho que alcançou a maioridade deixa a casa dos pais para tentar escapar de um ambiente opressivo, e aí se vê forçado a encarar uma situação hostil de risco à sobrevivência. Essa ruptura total é mais comum em famílias de tradição evangélica, que em geral são mais refratários aos indivíduos LGBTQ+", diz.

Segundo ele, e pegando o discurso de Pedro como exemplo, que disse "não ter dinheiro para entrar com uma ação legal e ir atrás dos meus direitos", a possibilidade jurídica existe, mas depende muito da situação do jovem.

"Se o problema é a não aceitação de UM dos pais, com apoio do outro, é comum que se busque auxílio jurídico, especialmente se os pais são separados. Mas para situações de ruptura TOTAL com ambos, com a saída do lar e sem apoio de qualquer dos familiares, é mais raro que o menor busque auxílio jurídico. Ele estará em estado de vulnerabilidade, com outras prioridades imediatas e, muitas vezes, sem conhecimento de que teria este direito", continua.

E isso tudo, claro, depende ainda de tantas outras questões que passam, inclusive, pela responsabilidade que os filhos podem colocar sobre os pais pelas suas questões de sua saúde mental. E, para isso, é preciso esclarecer os papéis nesse contexto. "Se for possível desenvolver um tratamento sistêmico, envolvendo toda a família, será possível esclarecer papéis, direitos e deveres de cada um. Se o tratamento for individual (que é o mais frequente), o profissional ajudará o paciente a entender possíveis influências de padrões familiares sobre seu quadro, mas também a se implicar em relação aos seus próprios padrões de comportamento", diz Paula.

"Em termos gerais, as responsabilidades dos pais são relativas ao dever de apoio material e moral (afetivo) dos filhos", diz Mario. No primeiro caso, existe uma relação direta com as despesas de sobrevivência e desenvolvimento, como alimentação, moradia, saúde, educação. Já no segundo, os cuidados estão no campo do amor e da afetividade. "A situação mais comum de abandono moral é aquela em que o pai ou a mãe deixa o filho com o outro cônjuge, familiares ou terceiros, e não demonstra interesse no convivência ou no contato. Mesmo que cumpra com o pagamento de pensão alimentícia, não estará satisfazendo as necessidades psicológicas e afetivas da criança ou adolescente".

Ou seja, em linhas gerais, relações de pais e filhos têm muitos nuances que podem ser interpretados e analisados de muitas maneiras, incluindo a necessidade de acompanhamento legal caso seja necessário - se a pensão alimentícia é devida, por exemplo. Mas, quando envolve a saúde mental de uma das partes, é importante também considerar que há mais a ser olhado e cuidado do que dizem os dois lados.

"A possibilidade [de restaurar essas relações] depende da forma como se conduzirá cada caso, ou seja, dependerá do nível de investimento de cada indivíduo e da família, do perfil das patologias apresentadas, entre outros fatores. De qualquer forma, a tentativa é válida, pois certamente haverá algum progresso, ainda que nem sempre seja possível alcançar a harmonia ideal", termina a psiquiatra.

Vale lembrar que é sempre possível buscar auxílio ligando o CVV, o Centro de Valorização da Vida, discando 188. O atendimento é gratuito, 24 horas por dia, sete dias por semana.