Peças virtuais relembram o ano de isolamento e as incertezas da pandemia

CAROLINA MORAES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Já faz um ano desde que tivemos dúvidas se o isolamento social duraria poucas semanas ou muitos meses, criamos encontros pelo Zoom, adotamos (ou deveríamos adotar) o uso de máscaras e vimos filas se formarem nos supermercados por causa de papel higiênico. Agora que o Brasil vive um novo pico da pandemia, com recordes de mortes por causa do coronavírus, duas peças virtuais lembram o clima de incerteza do começo da quarentena e os eventos que marcaram esse período. Em "Experimento Sem_Título", três atores do Coletivo Labirinto, Abel Xavier, Carol Vidotti e Emilene Gutierrez, abrem suas casas pelo Zoom para falar sobre a solidão. O público é, assim, convidado a participar de dinâmicas e a transitar pelos apartamentos dos personagens. Eles mostram suas plantas, seus móveis e uma lista de desejos a serem realizados num mundo menos caótico. O experimento dirigido por Wallyson Mota parte do primeiro espetáculo do coletivo, "Sem Título", obra do argentino Ariel Farace. O ambiente doméstico simulado nos palcos em 2014 agora se torna real, e a rua aparece como uma imagem emoldurada na janela, ainda distante e vazia. O ator Abel Xavier diz que a cenografia da primeira peça também ganhou outros significados. No contexto atual, o lar é também o espaço de trabalho, de encontro, de intimidade e, claro, de surtos. O que resta num cenário difícil de imaginar um futuro e com pouca perspectiva, afirma a atriz Emilene Gutierrez, é investir no tempo presente. Para reforçar esse encontro, eles propõem que o público escolha uma atividade para realizarem juntos por três minutos, que pode ser jogar Perfil, ler trechos de um livro ou encher balões, por exemplo. "É especial para nós estrear um ano depois disso tudo", diz o diretor. "É muito duro olhar para o que estamos vivendo, mas só vale a pena se tentarmos instaurar alguma possibilidade estarmos juntos de alguma forma." O que as pessoas vivem isoladas em suas casas e o contexto doméstico também são centrais em "Human Animals", adaptação do texto da autora escocesa Stef Smith. "A gente não está na rua. Estamos dentro de casa, e é dentro dela que elaboramos, surtamos, piramos e reagimos à pandemia", diz a diretora Michelle Ferreira. Na peça, quatro núcleos familiares iniciam um confinamento devido a uma pandemia. A doença da história pode ter origem em animais, já que alguns parecem indispostos e outros passam a tentar invadir casas --a discussão guia os diálogos dos personagens. Tudo é registrado pelos atores, em cenas que se juntam em sobreposições de imagens ao vivo. A obra, que tem agora sua primeira versão brasileira, foi encenado pela primeira vez no Royal Court Jerwood Theatre Upstairs, em Londres, ainda em 2016, distante do cenário de pandemia --ocupavam o noticiário, por exemplo, a eleição de Donald Trump e as campanhas municipais no Brasil. "O texto é extremamente premonitório, embora a pandemia se dê pelos animais", diz a diretora. "Para essa adaptação, queria focar justamente na proximidade com o que estamos vivendo hoje." Mesmo sem um vírus evidente, muito do que vivemos hoje está, de fato, na peça --o confinamento, as discussões familiares e a incompreensão do que está acontecendo, elementos que talvez nos persigam mesmo um ano depois que tudo começou. HUMAN ANIMALS Quando: Até 26/3. Ter. a sex.: às 22h Onde: No YouTube (youtube.com/metropolitanagestaocultural) Preço: Grátis Classificação: 14 anos Autor: Stef Smith Elenco: Noemi Marinho, Luis Mármora, Clayton Mariano, Flow Kountouriotis, Débora Gomez e Réggis Silva Direção: Michelle Ferreira EXPERIMENTO SEM_TÍTULO Quando: De 19 a 21 de março, às 18h. De 22 a 24 de março, às 20h Onde: No Zoom Preço: Grátis Classificação: 12 anos Elenco: Abel Xavier, Carol Vidotti e Emilene Gutierrez Direção: Wallyson Mota Link: https://linktr.ee/experimentosemtitulo