Peça reflete um Brasil autoritário, em que única via de negociação é a bala

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Três dias após as manifestações bolsonaristas de 7 de setembro, na mesma avenida Paulista que foi palco dos protestos, o espetáculo "Tectônicas" encenará as tensões políticas e sociais que têm chocado o país nos últimos anos --ou desde o período colonial, de acordo com Marcelo Lazzaratto, o diretor da peça.

Interrompida às vésperas da estreia em meados de 2020 por causa da pandemia, a peça "Tectônicas" estreia agora com público presencial no Teatro do Sesi. Com capacidade reduzida de público, a montagem segue em temporada de sexta a domingo, até 5 de dezembro.

Ambientada no interior paulista num momento histórico indefinido, a trama de "Tectônicas" se detém sobre a família de Jorge, um latifundiário dono de uma usina de açúcar. O conflito que a dispara é uma acusação que Jorge faz contra Marcelo, namorado da filha que supostamente a teria agredido.

Escondendo seu descontentamento com ele, um homem negro, Jorge está disposto a fazer de tudo para impedir o relacionamento dos dois. Para complicar ainda mais a relação, Marcelo é filho de um camponês que não quis vender suas terras, atrapalhando a expansão da fazenda do usineiro.

Com ares autoritários, gestos impulsivos e sempre carregando uma arma, a personagem de Jorge é interpretado por André Garolli.

"Jorge é herdeiro das capitanias hereditárias, dos coronéis. Então a arma aparece como elemento de negociação, quer dizer, em último caso ele mete bala, põe fogo, elimina. E, no fundo, acha que está fazendo um bem para a sociedade", diz o ator.

A fim de sublinhar os rompantes de Jorge, bem como sua perturbação psicológica, distorções de guitarra elétrica surgem em meio aos sons bucólicos rurais --também interrompidos em certos momentos por ruídos graves subterrâneos vindos das placas tectônicas.

Escrita por Samir Yazbek, a peça conta com diálogos realistas e uma autonomia de quadros que remonta ao teatro épico brechtiano. Ao mesmo tempo, a trama principal ganha ares fantásticos ao ser acrescida de um outro plano narrativo, composto pelos personagens Dolores e Alfredo.

Sentados em mesas repletas de pedras e rochas e vestidos com trajes futuristas, eles são geólogos que estão cientificamente investigando "as estruturas que nos formam para tentar nos entender antes que o pior aconteça, antes que as placas tectônicas que sustentam aquele mundo venham a colidir", explica Marcelo Lazzaratto.

Inicialmente à parte do cenário principal, Dolores e Alfredo entram na usina na tentiva de demover Jorge de suas atitudes, mas ele não está disposto a ceder. Uma vez que os esforços da dupla de cientistas falham, se espalha pelo palco a sensação de que tudo pode acontecer, intensificada pela perspectiva de um desfecho violento.

Apesar de dizer que o tema da violência não entrou na escrita do espetáculo com a finalidade de comentar o contexto contemporâneo, Yazbek afirma que a confluência entre o enredo da trama e o noticiário nacional o tem surpreendido a cada dia --e ganhou novas nuances com a pandemia.

"A proximidade da morte deixou a todos mais sensíveis, porque é uma peça que lida muito com perdas, com a iminência de uma determinada perda, tanto social quanto psicológica. Eu sinto como se o tempo inteiro um abismo pairasse sobre nós", comenta o dramaturgo.

A certa altura do espetáculo, de repente a esposa de Jorge sangra pelo nariz; minutos depois, Fabíola toca nas pernas e percebe que também está sangrando; em outro momento, Jorge revela que faz tratamento de hemodiálise.

"Esse estado de coisas no qual 'essa sociedade aí da peça' está inserida gera não só problemas sociais, como também patologias fisiológicas nas pessoas. Na atual conjuntura, esse é mais um paralelo entre a peça e o momento atual", diz Lazzaratto.

Embora a peça tenha sido gravada e vá ser disponibilizada no YouTube do Sesi-SP a partir de 15 de setembro, o elenco está ansioso para o reencontro presencial com o público. "Precisamos do público. É na respiração do público, na troca de energia com ele que vamos descobrindo as camadas da peça", diz Sidney Santiago, ator que interpreta Marcelo. "A força do teatro presencial vitaliza. A gente fica mais vivo", complementa Lazzaratto.

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TECTÔNICAS

Quando De 10/9 a 5/12. De sex. a sáb.: 20h. Dom.: 19h

Onde Teatro do Sesi-SP - Av. Paulista, 1.313 (próx. ao Metrô Trianon-Masp)

Preço Entrada gratuita

Classificação 12 anos

Autor Samir Yazbek

Elenco André Garolli, Maria Laura Nogueira, Sandra Corveloni, Sidney Santiago Kuanza

Direção Marcelo Lazzaratto

Duração 80 min.

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