Peça com plateia em cabines plásticas inaugura estranho teatro do 'novo normal'

CLARA BALBI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pode ser reflexo dos tempos, mas é difícil não pensar em um hospital de campanha ao avistar o local onde a peça "Protocolo Volpone", da Bendita Trupe, é encenada. Ali, dispostas em círculo, estão 20 cabines de plástico transparente. Quem guia os espectadores até elas são os próprios técnicos da montagem, membros das equipes de direção, figurino e cenografia que, vestindo jalecos brancos de médicos, foram apelidados de "anjos de proteção". O espetáculo é o primeiro a estrear presencialmente em São Paulo na pandemia --apesar de a prefeitura ter permitido a volta dos teatros no início do mês, menos de dez palcos da cidade reabriram. Talvez por isso, adotou medidas bem mais estritas de proteção contra o coronavírus que aquelas recomendadas pelas autoridades. A peça é encenada ao ar livre, no estacionamento do teatro Arthur Azevedo, na Mooca. Os atores usam máscaras e não se tocam, interrompendo seus movimentos no ar, centímetros antes de encostarem no corpo alheio --as únicas interações são entre Daniel Alvim e Helena Ranaldi, um casal na vida real. Objetos de cena são duplicados e passados de mão em mão pelos "anjos de proteção". Ainda assim, boa parte do elenco leva a tiracolo um spray de álcool 70%. Os cuidados são tantos que acabaram contaminando também o título da peça, que de "Volpone", simplesmente, virou "Protocolo Volpone, um Clássico em Tempos Pandêmicos". Sem falar no próprio texto, que incorporou cacos e até uma música sobre o coronavírus. "Tinha um pouco essa ideia de que 'Volpone' é a própria febre da peste, e aí os sentidos são vários: a pandemia, mas também todas as pestes que estamos vivendo no mundo contemporâneo", diz a diretora Johana Albuquerque, acrescentando depois que o próprio texto foi escrito num período de surtos de peste. Tantas precauções representaram ainda desafios inéditos para o pessoal da Bendita Trupe, alguns dos quais não tinham saído de casa nem para ir ao supermercado. E para o público que estiver disposto a conferir a experiência com jeito de ficção científica. A figurinista Silvana Marcondes conta, por exemplo, que o modelo das máscaras teve que ser testado seguidamente para acomodar microfones sem perturbar a dicção dos atores. Estes, por sua vez, usam o olhar e gestos efusivos para tentar dar conta das expressões a máscara oculta. À plateia, resta o desafio inicial de entender os diálogos sem o amparo da leitura labial, e a claustrofobia das cabines individuais, cujo plástico limita e distorce a visão. "Volpone" foi escrita no início do século 17 pelo inglês Ben Jonson, contemporâneo de Shakespeare. Ambientada na Veneza da época e com referências à commedia dell'arte, conta a história de um ricaço que finge estar à beira da morte para se divertir com os bajuladores que fazem fila para garantir uma menção no seu testamento. Como Volpone, trocadilho com "volpe", raposa em italiano, todos os personagens têm nomes e traços animalescos. É uma pegada um pouco diferente das montagens inspiradas em fatos reais mais conhecidas da Bendita Trupe --eles já encenaram peças sobre a corrupção no governo Collor e tráfico de drogas, por exemplo. Mas, como elas, "Volpone" também é uma comédia. Albuquerque diz que o gênero, que ela define como um olhar crítico sobre o drama, pode ajudar a encarar o contexto com mais tranquilidade. "Como fazer uma comédia em plena pandemia? Como falar da ganância, da morte?", questiona. "Não suportaríamos falar desses assuntos neste momento por um viés dramático." Além disso, continua a diretora, o texto não passa ao largo das questões do Brasil de hoje que sempre interessaram a companhia. "Pegar um clássico é maravilhoso, porque ele nos dá o nosso contemporâneo de forma muito límpida", diz. Um contemporâneo, vale dizer, de crises sucessivas, que não têm poupado a cena teatral. Depois de sete meses sem atividades, três palcos da cidade fecharam as portas. Entre os que restaram, a maioria não tem expectativas de voltar este ano, temendo os custos de adaptação aos protocolos e a incerteza de uma adesão do público. Albuquerque afirma que a própria curta temporada de "Volpone", de apenas três semanas, será encerrada caso alguém da equipe seja diagnosticado com coronavírus. Mas com esse risco, por que se apresentar então? A diretora afirma que o esforço a companhia fez para estrear neste momento é uma tentativa de encontrar um "caminho do meio", e mostrar que o teatro é possível "mesmo que de uma forma estranha". "Vieram nos atacar, dizendo que somos eleitoreiros, que queremos fazer o teatro acontecer a qualquer custo, arriscando a vida das pessoas", afirma Albuquerque. "Mas quando essa vacina vai chegar? O público, os atores, os técnicos merecem um projeto de futuro." Questionada sobre como foi a sensação de pôr de pé um espetáculo em meio a tantas dificuldades, Albuquerque resgata uma cena a que assistiu na época em que era aluna da Casa de Artes de Laranjeiras, a CAL, escola de teatro carioca. Então, ela conta, seus colegas precisavam interpretar uma pessoa que, sozinha em casa, começava a ouvir barulhos e só podia indagar "quem está aí?". Um atrás do outro, eles faziam a mesma cena, arregalando os olhos, se encurralando num canto. Até que uma atriz fez a cena de um jeito diferente. "Quem está aí?", perguntou, se levantando. "Quem está aí?", continuou, abrindo portas, janelas. E assim foi até que, tudo escancarado, ela percebeu que não havia ninguém ali. "Aquilo ficou marcado para mim como a coragem do medo", diz Albuquerque. "Sempre que me vejo numa situação parecida, me vem essa imagem de que preciso ir em direção ao medo para entender qual é a real dimensão dele. E isso eu fiz nesse projeto, descobrindo os desafios que a pandemia nos trás na prática. Não tem teoria."