Peça baseada em livro de Boal relembra infância no Brasil durante a ditadura

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Exílios e sonhos aproximam as trajetórias do dramaturgo Augusto Boal, que morreu em 2009 aos 78 anos, e Rogério Bandeira, ator de 51 anos.

Os exílios aconteceram na ditadura militar, com um Boal adulto e fugido do Brasil e um Bandeira criança, em reclusão no próprio país. Já os sonhos giram em torno de um projeto coletivo no teatro --um de quem erguia o Teatro de Arena cheio de intenções políticas e de resistência, e outro de quem quer resgatar a coletividade numa era de monólogos inaugurada pela pandemia.

Essas duas vidas são costuradas na peça "Hamlet: 16 x 8", dirigida por Marco Antônio Rodrigues e em temporada digital e presencial no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.

É a partir de trechos de "Hamlet e o Filho do Padeiro: Memórias Imaginadas", uma espécie de autobiografia de Boal, que Rogério Bandeira narra sua infância num regime autoritário, sua trajetória como ator e relembra as filas intermináveis que cercavam o Teatro de Arena --e até as incursões do grupo por cidades diminutas do país, como no interior de Pernambuco, que Boal narra no livro.

Foi desse encontro que Boal teve com o padre Batalha em Pernambuco, e que conta no livro, aliás, que surgiu a ideia de montar o espetáculo. Isso ainda em 2011, quando Bandeira fez uma leitura dramática da biografia com a Cia. do Latão.

Veio a pandemia, e o projeto foi retomado como monólogo, formato que parece ter tomado conta de teatros com as restrições causadas pela Covid.

"Foi ficando divertido eu assumir que não gosto de monólogo", conta o ator, que faz um longo desabafo na peça sobre essa dispersão de peças solitárias pelas cidades. Nessa era dos monólogos, Bandeira parece clamar pela volta de um projeto coletivo, resgatado na peça com a história do Arena.

É também uma era dos smartphones, com suas telas em 16 por 8, que o título indica, que foram o único palco possível com as portas dos teatros fechadas.

"A gente aproveita essa crise para fazer uma ligação com a ausência dos coletivos, que se dissolveram durante a pandemia e com esse desgoverno, que castra os espaços culturais. A gente teve que sobreviver como pôde."

Nesses questionamentos, e até certo assombro, das proximidades da vida de Bandeira com a de Boal, o ator relembra como era viver na ditadura militar sendo filho de um advogado de presos políticos.

É com uma carga lúdica que ele descreve a diversão de se esconder com a avó e o irmão num quarto escuro quando desconhecidos batiam na porta. Ou quando podiam sair da aula mais cedo para brincar com filhos dos amigos dos pais em cidades afastadas --viagem com cara de celebração que era, na verdade, uma fuga.

"A ditadura no Brasil interrompeu esse processo artístico, social, de muita potência", afirma o ator. "Ela entrou como uma bomba e explodiu um momento em que a gente estava florescendo."

Para ele, essa é uma peça que, assim como "Hamlet" de Shakespeare, não deixa de ser um enfrentamento de seus próprios fantasmas e medos, que até rondam esse retorno aos palcos no meio de uma crise sanitária.

O monólogo expõe confrontos de ordem pública --como a ditadura e a pandemia--, mas também exílios de ordem privada --como um câncer que começou a tratar em 2017 e o afastou dos palcos por quatro anos e a perda recente do pai.

Bandeira conta que Cecília Boal, que foi casada com Augusto, enxergou na peça justamente essa presença paterna contínua. Do Boal, que era pai durante o exílio, do pai de Bandeira, do pai de Hamlet e de um pai que não é personificado no palco, mas que atravessa as crises sociais, políticas e sanitárias dessa década. É um pai destruidor encarnado em sujeitos como Donald Trump, exemplifica o ator.

A figura descrita por eles se aproxima da avaliação do crítico de arte americano Hal Foster, que em seu último livro descreve Trump como um homem que tanto representa como transgride a lei ao recorrer ao pai primevo de Freud.

Mas não é como se o sonho coletivo do teatro tivesse se encerrado nessa era de monólogos, telas e ensaios autoritários.

"A gente vai ter que se adaptar, o Boal se apropriava muito disso. A gente coloca isso na peça também, de não se apegar ao passado, às tragédias, às dificuldades, como a pandemia, no nosso caso. Isso vem para a gente se reinventar mesmo", diz Bandeira. "Mas não duvido que os monólogos ganhem campo, ou que fiquem perambulando por aí."

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HAMLET: 16 X 8

Quando Até 12/9. Sáb. e dom.: 18h

Onde: No Teatro Sérgio Cardoso, online e presencial

Preço: A partir de R$ 10

Classificação: 14 anos

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