Peça de Ariano Suassuna sobre corrupção ganha novo ritmo ao som de maracatu

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*** FOTO DE ARQUIVO *** SÃO PAULO, SP, 19.09.2012 - A Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP prestará uma homenagem ao dramaturgo, romancista e poeta paraibano Ariano Suassuna .(Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
*** FOTO DE ARQUIVO *** SÃO PAULO, SP, 19.09.2012 - A Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP prestará uma homenagem ao dramaturgo, romancista e poeta paraibano Ariano Suassuna .(Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao som da percussão, as sandálias se arrastam pelo carpete no palco em ritmo acelerado. Os atores, com maquiagens caricatas e figurinos que beiram os de palhaços, falam diretamente ao público ao contar que o que ele está prestes a ver é a palavra que dá nome ao espetáculo: "conchambrança" é uma corruptela de "conchamblança", que significa conchavo, combinação.

"As Conchambranças de Quaderna" é uma obra do dramaturgo Ariano Suassuna que leva para o palco Pedro Dinis Quaderna, protagonista de "Romance d'A Pedra do Reino", publicado em 1971. Ali, encontramos o personagem --que declara ser descendente de legítimos reis brasileiros-- preso, e ele reconta a sua história e as lutas nas quais se envolveu.

Já esta peça apresenta Quaderna usando de sua esperteza e de truques para resolver uma tensão entre o governo da Paraíba e o seu padrinho. O espetáculo, dirigido por Fernando Neves, traz o gênero do circo-teatro e estreia pela primeira vez em São Paulo nesta segunda-feira (18) no teatro Sérgio Cardoso.

A peça possui três atos independentes e seu lançamento, em 1987, marcou o retorno de Suassuna ao teatro. Agora, porém, o público assiste apenas ao primeiro ato. Caso os três fossem encenados, a peça poderia chegar a três horas de duração --o que, segundo o ator Jorge de Paula, que interpreta Quaderna, infrigiria as regras de ocupação da sala durante a pandemia.

Não foi a única mudança que o texto sofreu. Seu tom, que era mais debochado, ganhou contornos mais trágicos em um contexto em que o Brasil atinge 600 mil mortes por Covid-19 e as pessoas fazem fila para pegar ossos de carne, afirma Neves, o diretor.

"Inevitavelmente, certas palavras, certos posicionamentos que até então a gente não tinha explorado, começaram a ganhar mais chão a partir desse momento", concorda Paula.

O ator se refere principalmente ao seu monólogo no início do espetáculo, quando Quaderna, um rei com jeito de palhaço que se diz um astrólogo e intelectual sertanejo, explica para o público quais são suas intenções. Ele dá seu recado à burguesia, fazendo referência a seu sangue preto e indígena.

Essa forma de se apresentação em um diálogo direto com o público no início do espetáculo é uma característica do circo que difere de outras produções teatrais, afirma Neves. "Não tem essa base psicológica em que entra o ator e ninguém sabe que personagem ele é, isso vai se revelando aos poucos. Os personagens vão entrando e você já identifica quem é quem", afirma o diretor que estuda o circo-teatro.

As características circenses da montagem estão em consonância com a obra de Suassuna, que conheceu o teatro no circo, nos melodramas e espetáculos de mamulengos --teatro popular de bonecos nordestino. A base de suas peças é a cultura popular. Em "As Conchambranças de Quaderna", isso se traduz na presença de elementos do sagrado, caso da figura de um preto velho ou das ações ritualísticas de Quaderna com carcaça de um boi, mas também do profano.

"É uma comédia simples, mas sofisticada porque ela tem uma base social muito forte. O que existe de mais importante é que você identifica o Brasil ali", afirma Neves.

Ainda que a crítica social não seja típica do circo --que, segundo o diretor, só quer contar histórias--, Suassuna traz a sociedade brasileira em cena de forma corrosiva. "A peça mostra os vícios da política brasileira e a corrupção. A forma com que ela se apresenta e as artimanhas usadas para escondê-la e abafar esses casos", descreve Neves.

O cenário composto por telões, típicos do circo-teatro, foi pintado pelo filho de Suassuna, Manuel Dantas Suassuna. Traz elementos como montanhas, sol e cruz, típicos da expressão popular nordestina. O figurino, assinado por Carol Badra, também representa o sertão com suas cores cáqui.

O espetáculo ritmado também mostra a essência da cultura pernambucana --apesar de o dramaturgo ter nascido na Paraíba, ele era radicado no Recife. Em um ritmo físico sem fim, com a trilha sonora de Renata Rosa ao fundo e Abuhl Júnior tocando instrumentos ao vivo, os atores dançam cavalo marinho, maracatu rural e até um pouco de frevo. Tudo isso dissolvido em seus movimentos ao longo dos 60 minutos de espetáculo.

"A coreografia é o espetáculo inteiro, não é só a dança. Todo movimento é coreográfico, todo movimento vem da dança mesmo, desse corpo popular", diz Guryva Portela, ator e coreógrafo da peça.

Além de receber o público presencialmente, "As Conchambranças de Quaderna" também será exibida online pela plataforma Sympla de forma gratuita. Os atores e o diretor dizem acreditar que essa é uma maneira de democratizar o teatro e levar cultura para mais pessoas, em outras regiões do Brasil. Quem sabe, de Taperoá, município da Paraíba onde foram feitas as obras que compõem o cenário.

AS CONCHAMBRANÇAS DE QUADERNA

Quando: 18 de outubro a 11 de novembro. Segunda a quinta, às 19h

Onde: Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno - r. Rui Barbosa, 153, Bela Vista, São Paulo

Preço: Presenciais - R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia); Online - grátis

Classificação: 12 anos

Autor: Ariano Suassuna

Elenco: Jorge de Paula, Fábio Espósito, Guryva Portela, Henrique Stroeter, Carlos Ataíde e Bruna Recchia

Direção: Fernando Neves

Link: https://site.bileto.sympla.com.br/teatrosergiocardoso/

Duração: 60 min.

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