Pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza encara legado modernista e cidades de hoje

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VENEZA, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - Quando, na década de 1980, o arquiteto Lúcio Costa revisitou a rodoviária de Brasília, quase 30 anos depois de sua inauguração, ficou surpreso com as cenas que viu ali.

"É bem diferente do que eu tinha imaginado para esse centro urbano, algo refinado, cosmopolita. Mas não é assim que está, ela foi tomada por esses brasileiros de verdade. Eu fico orgulhoso, satisfeito. Eles estão certos, eu estava errado", disse.

A frase pode ser lida nos painéis de "Utopias da Vida Comum", nome da exposição que ocupa o pavilhão brasileiro da Bienal de Arquitetura de Veneza, inaugurada neste mês.

Por meio de fotos e vídeos, a curadoria do espaço, realizada pelo estúdio Arquitetos Associados, partiu do conceito de utopia, uma pesquisa que já estava em andamento, para refletir sobre "como viveremos juntos" nas grandes cidades.

Na primeira sala, "Futuros do Passado", dois marcos da arquitetura moderna do Brasil aparecem com seus usos atuais, contemporâneos, a despeito de como foram concebidos por seus arquitetos-criadores.

O fotógrafo Gustavo Minas exibe o vaivém da Plataforma Rodoviária de Brasília, de 1957, no encontro dos dois eixos da capital federal, com cenas registradas em 2015.

Já Luiza Baldan revela, em imagens de 2009, moradores do conjunto residencial Prefeito Mendes de Moraes, na zona norte do Rio de Janeiro. Conhecido como Pedregulho, o edifício sinuoso de Affonso Eduardo Reidy, de 1947, foi pensado para funcionários públicos e, ao longo das décadas, passou por momentos de degradação e recuperação.

"Ele se apresenta como exemplo muito interessante para o morar coletivo. Os espaços de circulação, como corredores, são ocupados pelos moradores quase como extensões de suas casas. E também o pilotis, em tese um espaço livre, serve desde estacionamento até lugar para as crianças brincarem", diz o arquiteto Carlos Alberto Maciel, do estúdio AA.

"Como a rodoviária de Brasília, o edifício também tem um tipo de apropriação que não estava na pauta original. É interessante ver como esses usos apontam possibilidades muito virtuosas de a vida se reconstruir sobre os escombros da modernidade."

Lembrando a pergunta que dá nome à atual edição da Bienal de Veneza --"Como Viveremos Juntos?"--, os curadores dizem que, ao reapresentarem essas obras conhecidas da arquitetura brasileira, não querem ter um olhar nostálgico.

"Nos interessava mostrar como esses dois projetos foram ressignificados, de diferentes maneiras, não planejadas, abrigando aquilo que o Paulo Mendes da Rocha chamava de a imprevisibilidade da vida", afirma André Luiz Prado, também arquiteto do AA.

Dois vídeos em grande formato compõem a segunda sala do pavilhão, "Futuros do Presente". As obras, especialmente comissionadas pela Bienal de São Paulo, responsável pelas mostras brasileiras no evento italiano, partem também de cenas contemporâneas, mas, dessa vez, com a intenção de sugerir que o "viver juntos" nem sempre requer novas construções, técnicas, materiais ou formas mirabolantes.

No vídeo de Amir Admoni, cenas dos rios paulistanos fazem referência à pesquisa do grupo Metrópole Fluvial, da Universidade de São Paulo, que estuda a viabilização do uso dos rios da cidade para transporte, como alternativa ao sistema rodoviário. Mais adiante, Aiano Bemfica, Cris Araújo e Edinho Vieira trazem cenas do dia a dia da ocupação Carolina Maria de Jesus, na região central de Belo Horizonte. Nelas, os moradores são retratados em seus ambientes íntimos, em atividades corriqueiras, com vizinhos ou na organização do próprio movimento de moradia.

"Em 'Futuros do Presente', trazemos a ideia da utopia não como aquela que pretende construir uma sociedade melhor em outro lugar, começar do zero, como foi o caso do edifício Pedregulho. Mas no sentido de o que a gente pode fazer com o que temos nas mãos hoje", diz Maciel.

"Já que o déficit habitacional é praticamente igual, na maior parte das cidades brasileiras, ao estoque de imóveis vazios, talvez a gente não precise mais construir. Precisamos ressignificar e renovar essas unidades vazias."

A jornalista viajou a convite do Atelier Marko Brajovic*

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