Patricia Marx fala sobre assédio na adolescência e cogita livro de memórias

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 12.01.2017 - A cantora Patricia Marx durante a abertura da exposição 8º Salão dos Artistas sem Galeria, em São Paulo. (Foto: Marcus Leoni/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 12.01.2017 - A cantora Patricia Marx durante a abertura da exposição 8º Salão dos Artistas sem Galeria, em São Paulo. (Foto: Marcus Leoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dona de uma das vozes mais bonitas da MPB, Patricia Marx vai lançar em 2023 um novo álbum, em parceria com o premiado cantor e compositor Wado. A primeira amostra desse trabalho, no entanto, já está disponível aos fãs. "Vozes Trans" foi lançada na semana passada e está nas plataformas digitais.

Patrícia diz que a "Vozes Trans", escrita por Wado com outros compositores, é uma canção de resistência a uma sociedade que marginaliza orientações sexuais diferentes da heterossexual. Ela tornou pública sua orientação sexual em 2020, no Dia do Orgulho LGBTQIA+, quando apresentou sua esposa, Renata Pedreira, aos fãs, pelas redes sociais. "Os nós das mãos/As vozes trans/As drogas que a gente gosta/", diz um trecho da música.

A cantora diz que está apaixonada pela sonoridade do novo trabalho e se apropriar desse universo novo que Wado traz de uma MPB mais moderna. "Estou muito feliz com esse trabalho com o Wado, acho que é o álbum mais maduro que eu gravei até agora", diz a cantora, animada com o projeto musical.

Além de "Vozes Trans", esse novo projeto terá também regravações de canções de grandes nomes da música, mas com arranjos diferentes. Curiosamente, o álbum é a segunda parceria dos cantores à distância, mas eles ainda não se conhecem pessoalmente.

Patricia diz que isso não é um problema porque os dois se falam constantemente por mensagens e se consideram amigos de longa data. "Século 21 é isso. Não tem deslocamento, manda arquivos pela internet e funciona bem. Ele produz, mixa e masteriza lá [em Maceió] e volta [para São Paulo]."

Paralelo ao novo álbum, a cantora tem feito shows do "Trem da Alegria Celebration" com o músico Luciano Nassyn, seu ex-colega do grupo infantil que virou ícone da década de 1980. Segundo ela, um projeto lindo no qual os dois cantam as melhores músicas do repertório do Trem da Alegria.

"Para mim é diversão, nem é trabalho. Vou lá, me divirto, adoro a companhia do Luciano, a gente é super amigo, irmão", afirma ela, que fez parte do Trem da Alegria de 1984 a 1987, e deixou o grupo na adolescência para seguir carreira solo.

Mas nem tudo naquela época era alegria. A cantora, que já havia revelado ter sido vítima de assédio sexual na adolescência, diz que ainda não superou a questão e convive com gatilhos. "'Pintou um clima' é uma coisa que me remete àquela ferida, lembro de coisas que passei", afirma ela em referência à frase polêmica do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Patricia diz que tem um baú guardado, acorrentado com cadeado e jogado no fundo mar com todas as memórias de assédios. "É um ódio que eu tenho de todos os homens que me assediaram. Eu não quero acessar isso e nem sei quando vou acessar", diz. "Tenho consciência de quando foi, quem foram e eu não quero dar nome aos bois", continua ela, que não descarta lançar uma biografia e contar essas histórias.

Hoje, Patricia diz que quer ser feliz, vivendo seu momento com leveza ao lado da esposa e fazendo música. "Essa música ['Vozes Trans'] representa bastante essa leveza de ter encontrado o meu lugar como ser humano na sociedade. Foi na comunidade LGBTQAI+ que me senti parte do mundo".

Apesar de apreensiva com no começo, a cantora diz que só recebeu apoio ao revelar sua sexualidade. "O maior medo era falar para minha mãe e meu filho. Mas ele falou: 'mãe vai ser feliz, quem sou eu para te julgar'. Meu filho é muito maduro", recorda. "Acredito que não sou diferente, eu tenho uma orientação sexual diferente."

Apoiadora de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais, a cantora evita entrar em discussões políticas, mas não se inibe ao se posicionar. "A camada mais pobre precisa ter mais oportunidades. Quando eu voto eu tenho que pensar no meu entorno, nas outras pessoas, não só em mim."