Malcom tem dois pais, um cisgênero e um trans: “Muito respeito"

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O músico trans All Ice (Foto: Rodrigo Chueri / Divulgação)
O músico trans All Ice (Foto: Rodrigo Chueri / Divulgação)

All Ice é um fenômeno por si só. Artista multipotencial, tem uma ligação forte com a música, com a produção musical e cultural, e transformou tudo isso na sua profissão, mesmo sem o suporte e apoio familiar que muitos de nós recebemos ao longo da vida. Aos 23 anos, é uma pessoa que já viveu muitas vidas em uma só e, hoje, se consolida como um homem trans, profissional da música e pai de um menino de 4 anos, o pequeno Malcom.

Em uma conversa na manhã da última quinta-feira (5), com o filho à tiracolo (hora querendo aparecer na câmera, hora não), All Ice contou um pouco da sua trajetória e, principalmente, sobre a experiência como pai. Para ele, comemorar o Dia dos Pais tem um significado especial diferente - talvez até mais potente do que para um homem cis.

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"Perante uma sociedade normativa, cisgênera e colonizada, as pessoas ainda leem um homem trans como mãe só porque ele pariu uma criança", conta. "Não tem esse respeito nesse lugar, a sociedade ainda tem essa visão ligada a um corpo feminino, 'você é a pessoa que gestou e que pariu'. É muito importante que, mesmo dentro desses lugares de desrespeito e de transfobia que rolam, existam pessoas que olhem para mim e falem 'Você é o pai do Malcom, eu te enxergo enquanto um pai, eu te aceito e te acolho nesse lugar'".

Para o músico, isso é mais do que um reconhecimento de sua identidade, é uma construção de novas narrativas dentro de uma sociedade historicamente machista, patriarcalista, colonialista e homo / transfóbica. "Você está falando que o meu corpo é legítimo - não que eu precise de validação -, mas é importante você validar essa informação para que essa pessoa continue viva", continua.

Orientação sexual x identidade de gênero

Vale aqui, uma explicação didática: ao contrário de orientação sexual (que diz respeito à atração e desejo sexual de uma pessoal), a identidade de gênero diz respeito à identificação daquela pessoa com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento. Uma pessoa trans não se identifica com o corpo com o qual nasceu - por exemplo, alguém que nasceu com uma fisiologia atribuída ao sexo feminino, mas que, em níveis mais profundos de formação e construção do ser, se reconhece como homem. Em uma analogia bastante rasa e simplista, é como se essa pessoa tivesse nascido com o corpo "trocado".

Aos 4 anos, Malcom assistiu de perto a transição do pai - que oficialmente começou o processo dois anos atrás. Para o pequeno, a mudança foi muito mais simples e, principalmente, amorosa do que se poderia imaginar. O menino não só aceitou, como faz questão de tratar o pai da forma como foi conversado entre os dois.

Foto em família: All Ice, Matuzza e o pequeno Malcom (Foto: Camila Falcão / Divulgação)
Foto em família: All Ice, Matuzza e o pequeno Malcom (Foto: Camila Falcão / Divulgação)

"Ele me conheceu ainda em um corpo feminino, e agora ele me vê enquanto 'ele', enquanto o que eu sou, e ele super respeita isso", conta All Ice. "Ele é a única pessoa que teve a facilidade maior de 'o seu nome é All Ice, eu vou te chamar assim'. Ele desconstruiu muito rápido a imagem que tinha de mim para a imagem de quem eu realmente sou. Mesmo com pessoas me tratando no feminino, por exemplo, ele não deixa de me tratar da forma como eu converso com ele."

Aliás, o diálogo entre pai e filho teve um papel muito importante na relação dos dois, próximos desde o nascimento do pequeno. O músico explica que sempre passaram muito tempo juntos e que essa vivência foi a base da sua relação - por isso, as conversas acontecem de forma frequente e geraram essa facilidade de adaptação.

"A nossa relação é de muito respeito, de dar autonomia para ele e fazer com que ele entenda que ele pode ser o que ele quiser ser, contanto que tenha respeito", continua. "Ele é um menino muito livre, com uma autonomia muito grande que eu não identifico em outras crianças que tem uma vivência normativa."

As vivências de Malcom também colaboram para essa visão diferenciada. O pequeno tem dois pais, um trans e um cisgênero, com o qual ele também convive. Além disso, a parceira de All Ice, Matuzza Sankofa, ativista trans co-fundadora da ONG Casa Chama, acolheu Malcom como seu filho também. Ou seja, o menino tem vivências tanto normativas como não-convencionais. "Eu vejo nele uma curiosidade, uma inteligência, humanidades e dignidades humanas diferentes das outras crianças", diz.

E tudo isso abre espaço para conversas abertas e francas sobre o que o pequeno sente, observa e vive, muito embasado também pelas vivências de All Ice. Segundo o músico, o menino nunca agiu de uma forma que fugisse dos entendimentos que ele ensinou, e, inclusive, já tem consciência sobre si e sobre o que gosta em si.

"Ele fala que é um menino e que é feliz por ser um menino, e eu falei que se um dia ele não quiser ser um menino, está tudo bem também", conta. "Ele vive numa família cisgênera, mas ele tem essa possibilidade e tem uma família trans que lembra ele sobre questões de gênero, as questões de pessoas LGBT. Ele vive essa dualidade e consegue entender muito bem essas diferenças."

Malcom, de 4 anos, filho de All Ice (Foto: Camila Falcão / Divulgação)
Malcom, de 4 anos, filho de All Ice (Foto: Camila Falcão / Divulgação)

Pensando, mais uma vez, no Dia dos Pais, All Ice diz que se sente feliz em poder celebrar mais um dia se reconhecendo e sendo reconhecido dessa forma, e diz que pretende continuar lutando para que a paternidade dos homens trans seja reconhecida cada vez mais.

"A minha paternidade é legítima. Tudo o que eu acredito que eu tenho feito é real, e eu preciso e vou brigar para ser respeitado. Eu não sou uma mãe, eu nunca fui uma mãe, sempre fui um pai, eu só estou me reconhecendo nesse lugar, e essa data me lembra o quanto eu preciso brigar para que outros homens trans sejam respeitados. Essa data só me traz mais certezas de que o meu corpo é legítimo e que a minha paternagem é legítima".

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