Paternidade responsável: "Ser pai é construir vínculo e não só trocar fralda"

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·6 minuto de leitura
Como realmente ser um pai participativo e não só bem sucedido (Arte: Thiago Limón)
Como realmente ser um pai participativo e não só bem sucedido (Arte: Thiago Limón)

Por Lucas Veloso

Em 2005, com o nascimento da filha Anita Piangers, o jornalista e escritor Marcos Piangers, 40, se sentia solitário entre os amigos. Tinha acabado de ser pai, queria participar do dia a dia da filha e criar laços afetivos com ela, mas o desejo batia de frente com a ideia de paternidade dos homens próximos, que achavam que ter um filho era sinal do fim da vida.

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Com vontade de conversar sobre creche, cuidados e família, mas sem ouvintes próximos, decidiu escrever sobre a rotina com Anita. A iniciativa fez com que Marcos se tornasse um dos principais influenciadores da paternidade responsável no Brasil, com cerca de 4 milhões de seguidores nas redes sociais.

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No último ano, o assunto se tornou um assunto presente em rodas de homens. Segundo números do Google Trends, termos relacionados ao tema, como ‘paternidade’, cresceu cerca de 100% nas buscas da plataformas.

No Brasil, o tema é cada vez mais importante ao pensar em famílias e na criação dos filhos. No primeiro semestre deste ano, 6,31% das crianças foram registradas sem o nome do pai.

Em números absolutos, foram registrados 1.280.514 nascimentos de brasileiros em Cartórios de Registro Civil. Do total, 80.904 crianças tiveram apenas o nome de suas mães nas certidões de nascimento, de acordo com os números da Central Nacional de Informações do Registro Civil (CRC Nacional).

Para tentar mudar essa realidade e tornar o debate mais acessível, alguns influenciadores têm usado as redes sociais para popularizar a discussão e agregar mais homens no debate e na melhor relação das crianças.

Sem referências paternas por ter sido filho de mãe solo, Marcos diz que queria ser diferente na criação da filha. “Mesmo sem ter tido a chance de ter o pai, queria ser um pai que eu sempre sonhei para mim”, afirma.

Sempre fui feliz quando estava com minha esposa, em família, ao lado das minhas filhas, mas o que via em outros homens era que bastava ter sucesso na profissão e financeiramente.

Em 2014, começou a publicar crônicas em jornais e no ano seguinte, surgiu o convite para juntar os textos em um livro. Ele achava que seriam no máximo mil cópias do “O papai é pop”. Hoje, a obra passou das 300 mil, com lançamento em vários países, como Portugal, Espanha, Inglaterra e EUA. Com atuação do ator Lázaro Ramos, o livro também virou roteiro de filme com lançamento previsto para o ano que vem.

Como influenciador, casado e pai de duas meninas, Marcos discute em suas redes sociais as melhores práticas para lidar com os filhos, promove encontros com homens para tratar de paternidade em todo o país, além de enviar periodicamente newsletters sobre o tema e palestrar em eventos sobre família.

Apesar de acreditar que o debate sobre paternidade responsável está cada vez mais presente na sociedade, o influenciador diz que a pobreza no país impede discussões mais aprofundadas.

Enquanto estamos discutindo ser pai ativo, metade do Brasil está ganhando menos de R$ 500 por mês.

"É difícil falar para um cara exercitar a presença se ele tem que pagar as contas e sobreviver com esse valor”, resume.

Para tentar driblar o desafio, a estratégia usada por ele é falar de temas que alcancem várias camadas sociais, como o problema do abandono dos homens que não participam da vida dos filhos ou os que não enxergam masculinidade nos cuidados. “Tento mostrar a paternidade como a possibilidade de ser mais feliz, menos competitivo, agressivo, violento”.

Pai de Dante, 7, Gael, 5, e Maya, 1, o criador de conteúdo Thiago Queiroz, 38, lembra que o nascimento do mais velho também foi o que despertou a ideia da paternidade ativa.

Ele diz que o nascimento de Dante foi o dia de ‘várias primeira vez’. “Foi o primeiro filho, primeira vez que acompanhei um parto, primeira vez que peguei no colo. Antes disso, a ideia de ser pai ainda era muito abstrata”.

Criado pela mãe, Thiago diz que a relação com o pai sempre foi de ausência de afeto, já que a infância foi marcada por pensamentos como ‘homem não abraça homem’ ou que determinadas atitudes de carinho são vistas como ‘coisas de mulherzinha’.

Sem companhia para conversar sobre paternidade, criou um blog para dividir as experiências com o filho. “Lá falava das vivências, como que era o dia a dia, meus medos, minhas alegrias os desafios de cuidar de uma criança”. Com o aumento do interesse pelo assunto, Thiago passou a criar vídeos, textos e conteúdos do site "Paizinho, Vírgula!”.

Thiago também é autor do livro "Abrace seu filho", livro com experiências e sugestões para uma vida mais afetiva com a família. “O que escrevi nele é o que eu queria ter lido quando estava perdido naquela época do nascimento do primeiro filho”, explica.

Recentemente, uma das apostas do influenciador para chegar nos homens tem sido com os podcasts. Nas demais redes, seu maior público são as mulheres. O "Tricô de Pais”discute temas referentes a paternidade e masculinidade. “Por lá, consegui atingir meu objetivo. Tenho a maioria do público masculino, que me ouve, conversa e se sente acolhido e abraçado”.

Thiago ressalta que os homens interessados em criar uma paternidade responsável tem que querer a mudança. “É preciso entender que ser pai é construir vínculo e isso é um trabalho de todos os dias. Não é só tirar foto ou trocar fralda, mas estar presente. Pensar no bem estar da família como um todo também faz parte da rotina”, pontua.

Paternidade responsável negra

Apesar da importância em discutir masculinidades e o papel dos pais na sociedade, o mineiro e professor universitário Leandro Gomes Ferreira, 29, percebeu que faltava uma discussão honesta dos homens negros, já que as experiências desses pais é atravessada pelo racismo. “A gente participava de ambientes de discurso, de conversa de paternidade responsável, mas que eram extremamente brancos e que não refletiam a realidade de pessoas negras”, lembra.

Com sua experiência e com a ajuda de alguns amigos, Leandro criou o ‘Afropai’, o primeiro podcast sobre paternidade negra do Brasil, lançado em junho de 2018. Além disso, escreve contos e algumas experiências em portais que debatem paternidade.

“Desde o primeiro momento que vi o meu filho dentro de uma banheira percebi que queria estar com ele sempre, participando de tudo o que acontecesse. Ele deveria saber que eu estaria sempre ao lado dele e que podia contar comigo”, comenta o influenciador, pai de Benjamin, 3.

O professor diz que o primeiro passo para uma paternidade ideal é entender que a partir do nascimento de um filho cabe responsabilidade aos pais. Ele comenta que nas culturas africanas é enraizada a ideia de que a sociedade deve acolher as novas vidas com compromisso de cuidados e educação, pois precisam ser apresentados às coisas do mundo.

Para Leandro, nos últimos anos, a discussão no país evoluiu e o fato de propor assuntos no podcast e em outras plataformas faz com que outros homens se interessem mais pela paternidade. “Desperta nos pais a necessidade de saber algumas coisas, como a altura, o que gosta e qual a personalidade dos filhos e isso puxa as outras coisas”, exemplifica.

Ele acredita que a paternidade é uma discussão que tende a crescer no Brasil, pois está na mentalidade dos homens nascidos após a década de 80. “Eles têm se preocupado muito com o debate, ao contrário dos mais velhos, que nunca tinham pensado nisso”, avalia.

*Concepção e Coordenação de Amauri Terto e Diego Iraheta

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